Atenção Plena pode contribuir para alimentação de melhor qualidade

Práticas regulares de Mindfulness e Mindful Eating ativam estado mental análogo à experiência estética e promovem benefícios à saúde ao tirar os praticantes do”piloto automático”

Por José Archanjo Júnior

O termo Mindfulness, ou Atenção Plena em português, descreve um estado natural da mente e também atividades que promovam presença e consciência de si. A regularidade é um fator importante para a prática, fortalecendo a intencionalidade do processo e o hábito de não-julgamento no praticante. O Centro Mente Aberta, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), é uma referência na pesquisa sobre o tema, atuando com Programas Baseados em Mindfulness para políticas públicas, principalmente nas áreas de saúde, educação e segurança. Segundo a organização, a prática regular gera benefícios significativos na promoção de saúde individual, fortalecendo habilidades socioemocionais, melhorando o bem-estar, a saúde geral e as relações interpessoais, com aumento da sensação de pertencimento e conexão com o propósito de vida.

O ator, filósofo e cientista Hércules Morais, doutorando em medicina e psicologia, sob coorientação da Unifesp e da Universidade de Zaragoza (Espanha), destaca o crescente interesse internacional em iniciativas não-medicamentosas na promoção de saúde, com o Mindfulness em evidência. Para ele, cultivar a atenção é uma questão de saúde pública, especialmente num mundo hiperacelerado e saturado de estímulos, onde a atenção é frequentemente”sequestrada”.

Sua pesquisa integra arte, ciências da saúde e filosofia na elaboração de um protocolo de atenção plena que contribua para a saúde mental e o sentido de vida.”De um lado, o Brasil me mostra a urgência de impacto social em larga escala; de outro, a Espanha me dá o rigor científico [experimental] e metodológico para sustentar esse impacto”, afirma o pesquisador, que sonha que o trabalho seja reconhecido, e integrado ao SUS, como uma estratégia acessível e validada.

Viver com atenção

No palco, a experiência teatral de Morais se alia às práticas de Mindfulness. O ator desloca sua atenção de si para o fenômeno vivo do encontro, essencial nas artes cênicas. A postura ética que assume é uma atitude estóica de”fazer o que está sob seu controle” – corpo, respiração, escuta, precisão – e se soltar para todo o resto, permitindo o desaparecimento de seu eu enquanto ator.

Na perspectiva da neuroestética adotada em seu trabalho, as respostas cerebrais à experiência se assemelham aos padrões de atenção plena, ativando redes ligadas ao córtex pré-frontal, à memória e ao sistema de recompensa.”Na prática, isso significa que tanto fazer quanto apreciar arte pode induzir estados muito próximos aos do mindfulness: foco, suspensão do piloto automático, ampliação da percepção sensorial e emocional”, explica.

Destacando os benefícios da atenção plena, ele ainda afirma:”a presença não é um privilégio da cena; é uma forma de estar no mundo”. O título do seu trabalho, A Arte de Viver, reflete uma ética da atenção,”de estar inteiro no instante, aberto ao outro, ao ambiente, ao que é invisível mas pulsa do encontro”, assumindo uma postura fora do piloto automático de uma”performatividade permanente, com excesso de ansiedade e ruído”.

Contudo, as práticas de Mindfulness não buscam “esvaziar a mente” e promover relaxamento. Tanto nas práticas formais, como a meditação, que podem durar entre 1 e 5 minutos, quanto em informais, em ações como lavar a louça ou antes de responder um e-mail, o exercício da Atenção Plena é”perceber quando a mente dispara e trazê-la de volta com gentileza, curiosidade e não-julgamento. O objetivo é presença com qualidade”, afirma Morais.

Comer com atenção

Para a nutricionista Priscila Monomi, o Mindful Eating, comer com atenção plena, é uma prática indicada para estabelecer presença na relação com o alimento, em oposição à desconexão frequentemente observada nos hábitos cotidianos atuais.”Essa desconexão acaba também influenciando muito na digestão, na absorção de nutrientes e nos sinais internos de fome e saciedade, então não se sabe o quanto se está com fome”, alerta.

Em sua prática profissional, o Mindful Eating é uma estratégia de”não-dieta” indicada para”pessoas que já tentaram fazer dietas, mas se frustraram porque viram que não era para elas, porque às vezes gerou mais exagero ou despertou um transtorno alimentar, por exemplo”. Ela ainda destaca que muito se confunde os casos de compulsão alimentar, uma condição multifatorial e psiquiátrica, com os episódios de exagero, mais comuns em toda a população por causa das diferentes formas de relação com o alimento.

A nutricionista destaca que atividades sociais, como em festas, buffets ou rodízios, ou nos casos de”comer emocional”, a prática de Mindful Eating pode ser especialmente enriquecedora para”sair do piloto automático”, promover a presença e o não julgamento.”Às vezes vem desse lugar de empatia e autocompaixão. Tem que entender o que está acontecendo para não precisar depositar no alimento”, afirma.

crédito da imagem: Nensuria/Magnific