Volta às aulas: a dificuldade em aprender probabilidade pode estar no vocabulário, não apenas nas contas

Estudos brasileiros mostram que alunos do ensino fundamental chegam à sala de aula com sentidos coloquiais para termos centrais da probabilidade – e pesquisadores exploram caminhos lúdicos para construir o significado formal

Por Vanessa Ayres Pereira

Agosto marca a volta às aulas em grande parte do país e professores de matemática já buscam atividades e problemas para retomar o conteúdo. Mas duas pesquisas brasileiras sugerem um passo anterior ao planejamento dos exercícios: descobrir o que os alunos já entendem sobre o significado de algumas palavras-chave.

Dois estudos exploratórios – conduzidos pelo estatístico e educador Ailton Paulo Oliveira Júnior, da Universidade Federal do ABC (UFABC), e sua equipe – perguntaram a estudantes do 5º e do 9º ano do interior de São Paulo se sabiam o significado de “aleatório”, “acaso” e “incerteza”. Mais de 80% responderam que sim. O problema é que as definições dadas nem sempre coincidiam com os sentidos usados nas aulas de matemática.

Um dos estudos, publicado em 2023, avaliou como 61 alunos do 5º ano compreendiam os três termos. Muitos associaram “aleatório” à gíria usada para se referir a algo que acontece fora de contexto (“nada a ver com o assunto”) ou à ideia ampla de “qualquer coisa que pode acontecer”. “Incerteza” tendeu a aparecer como simples ausência de certeza e “acaso”, como algo imprevisível que “pode acontecer ou não”.

O outro estudo, publicado em 2025, analisou como 125 alunos do 9º ano definiam “acaso”. Nesse grupo, as respostas foram mais variadas. Algumas incluíam ideias de causalidade ou de ação sem reflexão e se aproximavam mais dos usos formais do conceito.

Os resultados não podem ser generalizados já que alunos diferentes podem apresentar definições diferentes. Ainda assim, o artigo de 2023 aponta que os resultados são importantes porque dialogam com um fenômeno contraintuitivo: pode ser mais fácil ensinar termos técnicos novos, como “desvio padrão”, do que palavras familiares como “acaso” e “incerteza”. Diante de uma palavra conhecida, o aluno pode acreditar que já domina seu significado e o professor pode supor que não precisa ensiná-lo. Quando o sentido matemático e o coloquial divergem, porém, a dificuldade de aprendizagem matemática pode surgir antes mesmo das contas: na linguagem. Por isso, antes de ensinar, vale investigar os significados que os alunos já atribuem a esses termos.

Desde 2018, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê o ensino de conceitos de probabilidade ao longo de todo o Ensino Fundamental. Trata-se de um conhecimento de uso cotidiano. Ele está presente, por exemplo, na previsão do tempo, quando decidimos se vale a pena levar guarda-chuva com base em “30% de chance de chuva”.

Como construir o significado em sala de aula

Para Oliveira Júnior, uma pergunta deve orientar o trabalho do professor: em que domínio o aluno está usando a palavra, no cotidiano ou no teórico-conceitual? A definição cotidiana pode até ser o ponto de partida para o ensino. Fátima Aparecida Kian, doutoranda da UFABC e coautora de um dos estudos, destaca que o professor pode partir do que os estudantes já sabem e usar as próprias definições da turma para construir, aos poucos, significados mais precisos e próximos do sentido formal.

Outra estratégia é recorrer a ferramentas de ensino lúdicas. Um exemplo é a História do Conde de Buffon, desenvolvida por Karoline Marcolino Cardoso durante o mestrado na UFABC. Antes de apresentar definições formais, o professor conta a história de Buffon, matemático e naturalista francês do século 18 que, após se machucar, passa a lançar objetos sobre o chão quadriculado de um palácio e observar se eles caem dentro dos quadrados ou sobre as linhas.

Em sala, a cena pode ser recriada com um tabuleiro e moedas. Assim como o conde, o aluno lança a moeda, observa onde ela caiu e registra o resultado. Depois de várias tentativas, a turma discute o que ocorreu mais vezes, o que parecia mais provável e como os resultados mudam quando o experimento é repetido muitas vezes. Em vez de memorizar uma definição, o aluno experimenta o acaso. O professor, por sua vez, encontra uma abertura para introduzir o vocabulário matemático a partir da experiência da turma.

O trabalho de Cardoso está disponível no repositório da UFABC. O grupo de pesquisa de Oliveira Júnior conta que também desenvolve e aprimora outras estratégias para o ensino de probabilidade e estatística. Algumas são apresentadas em cursos de extensão oferecidos duas vezes por ano. Professores interessados podem acompanhar as atividades pelo site da UFABC.

Luzia Roseli da Silva Santos, coautora de um dos estudos, lembra, porém, que não existe fórmula única de ensino. Jogos e narrativas precisam ser adaptados a cada turma. O essencial, afirma, é dar contexto ao significado: “Trazer o mais próximo possível da vivência deles, com exemplos práticos, para que eles se vejam como protagonistas no processo.”

Vanessa Ayres Pereira é Ph.D. em Análise do Comportamento e bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE). Cursa Especialização em Jornalismo Científico no Labjor-Unicamp

imagem: ilustração gerada com IA, ChatGPTOpenAI, por Vanessa Ayres