A atenção e o tempo de tela das crianças e adolescentes podem ser tomados por conteúdo violento e publicidade

Mais de 50% dos adolescentes já tiveram contato, nas redes sociais, com conteúdo violento, de viés sexual, preconceituoso, racista, homofóbico ou machista, e 62% com publicidade ou propaganda

Por Damny Laya

A lógica da economia da atenção, base do modelo de negócio das redes sociais mais usadas (Meta, X, YouTube, TikTok etc.), parte do princípio de que quanto mais tempo as pessoas passem nessas plataformas, mais intensamente estarão submetidas à coleta dos seus dados pessoais. Tornando-se assim alvos de publicidade e mais suscetíveis a estratégias que buscam influenciar seu comportamento, visão de mundo ou suas preferências.

Essa lógica da economia da atenção “acaba tendo um papel muito central numa dinâmica que pode ampliar riscos relacionados à presença de crianças e adolescentes no ambiente digital”, afirma Maria Mello, líder do Eixo Digital e coordenadora do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana.

Por causa disso não é de surpreender que os dados evidenciem, por exemplo, que 61% dos adolescentes não percebam quanto tempo gastam vendo vídeos curtos e 36% relatem que seus responsáveis reclamam que ficam muito tempo no celular. Os dados são do relatório Usos e Impactos de Vídeos Curtos entre Adolescentes do Brasil (2024), realizado pelo InternetLab e a Rede Conhecimento Social.

Enquanto adolescentes e crianças ficam nas redes sociais, essas plataformas coletam dados, treinam seus algoritmos de recomendação e fazem perfilamento para mostrar conteúdos e publicidade que ferem os direitos das crianças e adolescentes como liberdade de pensamento, privacidade e lazer, conforme o amplo arcabouço jurídico brasileiro, que abrange desde o artigo 227 da Constituição até a Resolução 245, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Para Mello “é preciso que as empresas também estejam inseridas [na lei], e sejam responsabilizadas. As plataformas têm um papel muito central nisso que a gente tem chamado de dever de cuidado, a responsabilidade que as redes sociais têm, tanto em relação a agravar os direitos feridos de crianças e adolescentes, quanto em relação a proteger”.

Os direitos das crianças e adolescentes são vulnerados desde cedo nas redes sociais. Dados do estudo do InternetLab e da Rede Conhecimento Social apontam que 59% dos adolescentes começaram a utilizar redes sociais com menos de 12 anos. Quer dizer, crianças já acessam as redes sociais livremente e entram na dinâmica da economia da atenção. Isso acontece porque “existe pouco ou quase nenhum controle de como as crianças estão entrando nas plataformas”, afirma uma das pesquisadoras do estudo, Clarice Tavares, do InternetLab.

O tempo em que crianças e adolescentes passam nas redes sociais os expõe a conteúdos que não deveriam ser vistos por esse grupo populacional. Os dados falam alto: mais de 50% dos adolescentes já assistiram conteúdos violento, de viés sexual, preconceituoso, racista, homofóbico ou machista. Ainda que esse tipo de conteúdo não seja permitido segundo as próprias regras das redes sociais, os algoritmos de recomendação priorizam o engajamento, se aproveitando da atenção vulnerável de crianças e adolescentes.

Além disso, 86% dos adolescentes entrevistados entendem as redes sociais não apenas como espaços de entretenimento, mas também de informação.

O que é preocupante, uma vez que “as plataformas [de redes sociais] não são apenas essas plataformas por onde esses conteúdos circulam, sem nenhuma interferência das empresas. Essas empresas têm um papel muito central na modulação, na forma, no conteúdo, na intensidade com que esses conteúdos acessados por crianças e adolescentes são recebidos”, afirma Mello.

Outro dado que chama a atenção do estudo fala sobre como os adolescentes se sentem no ambiente digital das redes sociais. Mais dos 58% dos adolescentes acreditam que a internet, hoje, não é segura para jovens. Muitos deles afirmam não saber como realizar denúncias na plataforma ao se depararem com conteúdos que os incomodam, além de não se sentirem confortáveis para falar com seus responsáveis sobre essas questões, o que os faz ignorar o incômodo e continuar dedicando seu tempo a navegar nas redes sociais. Para Tavares,”essa sensação de segurança toca muitos temas, desde ser pouco acolhido, de não saber como fazer, de ter acesso a conteúdos que eles consideram violentos, mas também tem esse medo da sua própria exposição, e de como isso pode também implicar em bullying”.

Essa percepção de insegurança não é somente dos adolescentes, mas também dos pais e responsáveis. Segundo pesquisa Datafolha, solicitada pelo Instituto Alana, nove entre dez brasileiros acreditam que as empresas de redes sociais fazem menos do que deveriam para proteger as crianças online.

Somado a isso, pelo menos 62% das crianças e adolescentes já tiveram contato com publicidade ou propaganda, segundo a pesquisa TIC Kids Online (2023). Uma questão muito delicada, já que como diz Mello, este fato “está mais relacionado à modulação de comportamentos mesmo, você não tem só aquela inculcação de um desejo de consumo de um determinado produto ou serviço, mas também um processo que pode vir a alterar a sua própria visão de mundo”, quer dizer, a visão de mundo de crianças e adolescentes.

Ambiente digital seguro

Em agosto de 2025, a Câmara dos Deputados aprovou o PL 2628/2022, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais, o chamado Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital). Apesar de três anos de andamento, somente em agosto o Projeto de Lei ganhou notoriedade no Congresso Nacional por causa de denúncias públicas feitas pelo influenciador Felipe Bressanim, o Felca, em seu vídeo sobre adultização e exploração de menores no contexto das redes sociais. Para Maria Mello esta lei é “um texto muito alvissareiro, vamos dizer assim, em relação a essa possibilidade de trazer mais responsabilidade às plataformas”.

Já para a pesquisadora Clarice Tavares, a lei é efetivamente um grande avanço, mas “existe um papel importante de coordenação de ações que não está só nessa discussão sobre regulação de plataformas e que não está só nessa aprovação de legislações que são muito importantes também, mas de um papel ali de educação midiática, de forma transversal real, para esses adultos que circulam a vida dos adolescentes, que muitas vezes, também estão tão perdidos quanto esses adolescentes”.

O modelo de negócio das redes sociais dificulta a criação de um ambiente digital seguro para as crianças e adolescentes, a lógica da economia da atenção parece prevalecer sobre os direitos dessa parte tão vulnerável da população. O amplo arcabouço jurídico brasileiro parece não ser suficiente, por enquanto, para convocar essas empresas para suas responsabilidades com a sociedade. O ECA Digital parece trazer a possibilidade de mudar o cenário, mas isso precisa ir acompanhado da participação de outros atores da sociedade, pais, responsáveis, sociedade civil e escola, num esforço conjunto e coordenado.

crédito da imagem: Josue Ladoo Pelegrin/Pexels