Ler em ambientes digitais compromete memória e atenção

Propagandas, imagens e vídeos dificultam a concentração e a capacidade de “leitura profunda”

Por Fabiana Hiromi

Os resultados da última edição da Pesquisa”Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, apontam que os brasileiros estão lendo cada vez menos. Em 2024, 53% dos entrevistados afirmaram não ter lido nenhum trecho ou obra completa nos três meses anteriores ao levantamento. O índice é cinco pontos percentuais superior ao registrado em 2019. Desde que a pesquisa começou, em 2007, esta foi a primeira vez em que a proporção de não leitores superou a de leitores.

O hábito de leitura vem perdendo espaço para a internet. Os dados levantados apontam que o consumo de redes sociais nas horas livres saltou de 50%, em 2015, para 81%, em 2024. No mesmo período, o percentual dos que declararam ler como hobby caiu de 24% para 20%. “Não ter paciência para ler”, “não ter tempo” ou “não gostar de ler” estão entre as principais justificativas apresentadas pelos não-leitores.

Em tempos de alta conectividade, consumo intenso de redes sociais, informações e produtos na internet, os dados da pesquisa reforçam uma percepção geral de que parece ser cada vez mais difícil se concentrar em leituras mais densas e profundas.

Mudanças no cérebro leitor

No livro O cérebro leitor, a neurocientista Maryanne Wolf explica que o ato de ler não é algo natural como a linguagem, cujo aprendizado é desenvolvido automaticamente na interação com outras pessoas, mas que precisa ser aprendido, o que só é possível por causa da plasticidade do cérebro, que se molda fisiologicamente para dar conta dessa habilidade.

“E quanto mais você lê, mais esse sistema molda o cérebro, de modo cumulativo. Dá a ele todo um conhecimento, toda uma construção de processos que eu chamo de leitura profunda”, explicou a especialista em entrevista à BBC News Brasil. “Leitura profunda significa que fazemos analogias e inferências, o que nos permite sermos humanos verdadeiramente críticos, analíticos e empáticos.”

Nesse sentido, da mesma forma que a capacidade de ler é desenvolvida à medida que se exercita o cérebro, ela também pode se atrofiar se não for praticada. É aí que a imersão em um mundo cada vez mais conectado e digital tem se tornado um problema.

“A cognição depende de duas coisas fundamentais: a atenção e a memória. A coisa mais valiosa no mundo de hoje, a mais disputada é a nossa atenção”, explica Luiz Fernando Gomes, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e pós-doutor em linguística aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Quando lemos uma notícia na internet, nossa atenção é dividida em vários setores em vários momentos ao mesmo tempo, fazendo com que a nossa leitura não seja fluente”, observa. A presença de outros elementos (propagandas, imagens, vídeos) compromete a linearidade do ato de ler, o que por sua vez prejudica a absorção do conteúdo. “Nessa luta pela sua atenção e de você ter que juntar os pedacinhos do texto, você consome muita memória, muita energia, cansa demais. No final das contas a sua atenção foi tão disputada que você acaba não conseguindo saber tudo que leu”, complementa.

Um desdobramento disso é que os conhecimentos decorrentes dessa leitura são superficiais, em contraposição ao conceito de “leitura profunda” proposto por Wolf.

“A leitura ocorre de um diálogo nosso com o texto, com o autor. É dessa interação, que é uma interação lenta, que sai uma construção do sentido daquele livro, daquele artigo, daquele texto e que faz com que ele sedimente e passa a ser meu”, explica Gomes.

Leitura profunda exige preparo

Para Érica Prates, psicóloga e integrante do Núcleo de Estudos em Neuropsicologia Cognitiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é importante que o leitor tenha em mente que a prática da leitura demanda o exercício de habilidades metacognitivas, isto é, que ele reflita sobre e se prepare previamente para aquela atividade. “Consumir o conteúdo de um livro é muito diferente de ler um conteúdo de uma rede social no celular. São atividades completamente diferentes, que vão demandar comportamentos diferentes para eu conseguir realizar”, salienta.

A psicóloga explica que é preciso que a pessoa que se propõe a ler um texto no computador, por exemplo, adote estratégias para de fato conseguir apreender e processar o seu teor. “Eu já preciso saber de antemão que, dependendo do nível de exigência do texto, provavelmente não vou entender na primeira leitura. Talvez eu precise fazer um pouco mais de esforço, esperar, ler mais de uma vez, anotar para que eu consiga atingir essa compreensão mais profunda”, exemplifica.

A leitura em dispositivos móveis também demanda o desenvolvimento de habilidades autorregulatórias e de priorização, de modo que o leitor não se distraia enquanto lê e se disperse, por exemplo, abrindo outras abas e indo pesquisar informações complementares ao texto antes mesmo de finalizá-lo.

Prates acredita ainda que o olhar crítico sobre os conteúdos presentes na internet e a compreensão sobre a lógica de funcionamento das redes sociais é essencial para que não se perca a capacidade de leitura profunda. “Se a gente é capaz de ter essa reflexão e sabe o que precisa fazer para não cair nessa armadilha das redes sociais, conseguimos consumir os conteúdos de uma forma mais consciente, mais aprofundada”.

Fabiana Hiromi é jornalista especializada em educação, com experiência em produção de conteúdo para o terceiro setor. Cursa Especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor-Unicamp.
 

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