Modernidade, telas e um ensino que privilegia animais ajudam a explicar a negligência em relação às plantas; pesquisadores defendem novas éticas, políticas e práticas para recolocar a vida vegetal no centro
Por Suzana Amyuni
Atenção é um bem escasso na era das notificações. E no ruído do cotidiano, a natureza fica esquecida, sobretudo as plantas. A “distração botânica”, formalmente chamada de negligência botânica no meio acadêmico, descreve a incapacidade do ser humano de reconhecer a importância das plantas na biosfera e no dia a dia. Esse olhar enviesado, ao mesmo tempo em que ignora a base da vida terrestre, também enfraquece a percepção de quem as pessoas são parte desse todo.
Para o economista e filósofo Ricardo Abramovay, doutor em ciências humanas e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) e do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), desprezar a natureza não é só um descuido individual: nasce de uma visão moderna que separou sociedade e natureza, consolidando a ideia de que os humanos estão “acima” de todas as outras manifestações de vida. “A economia se autonomizou da ética e a natureza foi convertida em passividade, algo a ser controlado e substituído”, afirma.
Em sua avaliação, a promessa de que a tecnologia resolveria os impasses ambientais por eficiência não se cumpriu. Latas e cimento são produzidos com menos emissões por unidade, mas se consome muito mais. O pesquisador lembra que o mais recente relatório divulgado pelo Painel Internacional de Recursos, o Global Resources Outlook, alerta que o planeta enfrenta uma “crise tripla” de mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição, agravada pelo consumo crescente de recursos naturais. Segundo o levantamento, desde 2019, a extração só aumentou e, sem medidas urgentes, pode crescer 60% até 2060 em relação a 2020, ampliando riscos e impactos ambientais. “Além de eficiência, precisamos falar em suficiência”, diz.
A lógica de “controlar a natureza” entrou em crise. Do sistema agroalimentar pressionado por mudanças climáticas à mineração intensiva de materiais para baterias, a conta ecológica não fecha. “O desafio é regenerar serviços ecossistêmicos por meio das atividades humanas, não substituí-los em laboratório”, ressalta.
Abramovay evita a expressão “distanciamento da natureza” por reforçar a separação que critica. “Nós somos natureza. A ciência atual, da microbiota intestinal às interações entre fungos e raízes, desmonta a ilusão de superioridade”, argumenta. O pesquisador aponta caminhos que combinam política e cultura. “Precisamos reconhecer os direitos da natureza, fortalecer a proteção aos animais não humanos e valorizar as pequenas coisas, como insetos, microrganismos, processos invisíveis sem os quais a vida desanda. Ignorá-los é comprometer a própria sobrevivência”, destaca.
Se, no plano estrutural, a negligência tem raízes antigas, na sala de aula ela se reproduz em silêncio. Doutor em biologia vegetal, Gabriel Piassa percebe o fenômeno desde a educação básica. “É comum perguntar quem já viu um pé de limão e só dois ou três alunos levantarem a mão. Já ouvi espanto com ‘arroz é planta?’” Para ele, a mídia também pesa. “Na época das queimadas no Pantanal, vimos milhares de imagens de onças feridas, mas plantas quase não apareceram”, relembra.
Piassa propõe antídotos práticos à negligência botânica. Primeiro, um ensino temático de biologia, abordando tópicos como circulação, por exemplo, que integrem plantas, animais, fungos e bactérias, evitando hierarquias implícitas. Segundo, uso de sequências investigativas e atividades “mãos na massa” que tornem o estudante protagonista: identificar espécies no entorno da escola, criar jogos, músicas ou cartazes para demonstrar o que aprenderam. “É também um treino de atenção. Muitos alunos sentam num pátio cheio de plantas e não notam a cor de uma flor ao lado, ficam o tempo todo com os olhos no celular”, lamenta.
Os efeitos transbordam a escola. “Grande parte de desmatamento e queimadas se sustenta nesse desapreço às plantas”, diz. “Se a sociedade entendesse a função do Cerrado ou a centralidade dos organismos autótrofos, as atitudes mudariam”, aposta. Ele usa em aula um teste simples: apresentar uma sequência de imagens com animais, plantas e “distratores” (como pedras). A memória tende a privilegiar animais. Plantas, apenas se forem muito icônicas, como um girassol, ignorando qualquer outro cotidiano vegetal, incluindo até mesmo uma salsinha. Piassa também se lembra de uma prática que convidou crianças para “colonizar Marte”. O resultado é que dificilmente elas incluem plantas entre os itens essenciais.
Segundo Abramovay e Piassa, a distração botânica não é mero déficit de curiosidade, é política. Ela informa o desenho de cidades, a pauta da imprensa, os subsídios à energia fóssil e a obsessão tecnológica que promete substituir ecossistemas por soluções de laboratório. Reverter o quadro exige instituições (direitos da natureza, políticas públicas de restauração), cultura (revalorizar as “pequenas coisas”) e pedagogia (ensino integrado e investigativo).
No fim, ver as plantas é mais do que notar o verde. É recuperar o senso de pertencimento a uma teia da qual nunca saímos. “Pensar que estamos ‘fora’ da natureza alimenta a arrogância cujos efeitos já sentimos”, resume Abramovay. Piassa completa, do chão da escola: “Quando o aluno aprende a prestar atenção numa folha, ele passa a olhar de outro modo o bairro, as pessoas, o mundo e até para si mesmo. A botânica é uma escola de atenção e de convivência”, finaliza.
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