A Terra se põe atrás da Lua, em foto feita pela tripulação da Ártemis II em 6 de abril de 2026. (crédito: NASA)

Brasil se insere na nova era de exploração espacial

Visando montar uma base permanente na Lua, o país conta com dois projetos ligados aos Acordos Ártemis, e realiza pesquisas sobre agricultura espacial; além de desenvolver um satélite para investigar o ambiente lunar

Por Helena Tallmann

Foto: A Terra se põe atrás da Lua, em foto feita pela tripulação da Ártemis II em 6 de abril de 2026 (crédito: NASA)

No dia 15 de setembro, duas bactérias usadas na agricultura brasileira — Bradyrhizobium spp. e Azospirillum brasilense — foram lançadas em um foguete a partir do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em Parnamirim (RN), alcançando 92 quilômetros de altitude. A atividade integra a Operação Potiguar 2, missão suborbital da Força Aérea Brasileira (FAB). O objetivo é analisar os efeitos do lançamento, da microgravidade e da radiação ionizante na sobrevivência dessas bactérias. Por serem promotoras de crescimento de plantas, a expectativa é de usá-las para a agricultura espacial em missões em espaço profundo no futuro.

O cultivo de alimentos no espaço é um imperativo para a presença humana de longo prazo fora da Terra, como o estabelecimento de uma base permanente na Lua, ambição do Programa Ártemis, da NASA. Os microrganismos são parte de pesquisas em andamento no grupo de pesquisa em Agricultura Espacial, a Rede Space Farming Brazil, coordenada pela Embrapa, com apoio da Agência Espacial Brasileira (AEB).

“Imagine que levar um quilo de qualquer coisa para a Lua custa, por exemplo, 1 milhão de dólares. Não é possível levar comida o tempo todo para as pessoas. A ideia é ter estufas de crescimento de plantas lá”, afirma Alessandra Fávero, pesquisadora da Embrapa e coordenadora da Rede — a qual agrega 60 pesquisadores de 24 instituições diferentes e diversas expertises, desde físicos, agrônomos, economistas e até um chef de cozinha. A proposta é desenvolver um sistema de cultivo em ambiente fechado e automatizado, por meio das fazendas verticais, que demandam até 90% menos água do que a agricultura tradicional. O sistema deve levar em conta uma série de fatores, como a iluminação, irrigação e a fertilização, que não acontecem de forma natural no espaço.

O lançamento de setembro foi o segundo experimento em ambiente espacial do grupo, criado em 2022. Em abril de 2025, um voo espacial turístico da empresa Blue Origin ficou famoso por contar com uma tripulação completamente feminina, entre elas a cantora Katy Perry. Na viagem, a astronauta e ex-engenheira aeroespacial da Nasa, Aisha Bowe, levava, presos às pernas, tubos contendo plântulas (pequenas mudas) de batata-doce roxa. A missão de Bowe era, em momentos diferentes do percurso, injetar uma solução a fim de ‘congelar no tempo’ o material genético (RNA) da planta para posterior comparação com amostras que permaneceram na Terra. O voo suborbital durou cerca de 10 minutos e também carregou sementes de grão-de-bico, que serão plantadas e estudadas.

Pesquisadoras da Embrapa com plântulas de batata-doce roxa e grão-de-bico (crédito: Paula Rodrigues/Embrapa)
Pesquisadoras da Embrapa com plântulas de batata-doce roxa e grão-de-bico (crédito: Paula Rodrigues/Embrapa)

Por que levar plantas ao espaço?

Expor as plantas à radiação é uma das maneiras de provocar mutações no seu DNA, processo chamado de mutagênese. Somada à microgravidade, essa exposição pode dar às sementes características imprevisíveis. “No espaço, mesmo em uma altura suborbital, as plantas estão submetidas a níveis de radiações mais altos e a uma radiação diferente da Terra [que é protegida por seu campo magnético]”, afirma Carlos Hotta, biólogo, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e líder do componente de cultivo espacial da Rede Space Farming Brazil.

A técnica não é nova: a China já dispõe de mais de 200 variedades agrícolas obtidas por mutagênese espacial. Após o voo, são selecionadas as cultivares que apresentam características desejáveis, como plantas menores, mais resistentes, produtivas ou eficientes no uso de água. Elas servem tanto à agricultura espacial quanto à terrestre. “Se conseguimos cultivar no espaço, conseguimos em qualquer lugar. É uma possibilidade de ampliar o acesso a uma maior variedade de comidas e, inclusive, mitigar os efeitos das mudanças climáticas”, diz o pesquisador.

O foco atual de pesquisa são a batata-doce roxa e o grão-de-bico, que juntos fornecem carboidratos de qualidade e proteínas. É uma contribuição aos trabalhos internacionais, mais focados em culturas consumidas cruas, como alface e tomate. Segundo Fávero, a batata-doce roxa é rica em antocianina, um composto que ajuda a proteger a planta da radiação. Além disso, tem folhas comestíveis e se propaga facilmente por estaca. Versáteis, os dois alimentos rendem receitas para agradar astronautas de várias nacionalidades,  “desde hambúrgueres até sonhos”.

A automação também é prioridade. “Primeiro, porque a hora do astronauta é muito cara. Segundo, porque essa tecnologia vai voltar para o produtor”, destaca Fávero. Com sensores e câmeras, é possível acompanhar e controlar da Terra uma plantação na Lua ou em Marte. “Se as plantas estão meio amarelinhas, a gente já liga o sistema de fertilização”, exemplifica.

Outra questão é a sustentabilidade do sistema, do plantio ao pós-colheita, incluindo o armazenamento dos alimentos e o descarte de resíduos. “Existe toda uma preocupação para não propagar parasitas e outros organismos. Imagina você ter uma intoxicação alimentar no espaço”, fala Hotta. Para aproveitar ao máximo os recursos, os cogumelos também são estudados, já que podem ser cultivados nos resíduos orgânicos gerados.

Vitor Cruz e Felipe Tralli na bancada de desenvolvimento de software da missão SelenITA (crédito: Agência Espacial Brasileira)
Vitor Cruz e Felipe Tralli na bancada de desenvolvimento de software da missão SelenITA (crédito: Agência Espacial Brasileira)

Como fazer pesquisa espacial estando na Terra?

No espaço, a microgravidade faz com que as plantas percam a referência do que é “para cima” e “para baixo”, e suas raízes crescem de forma diferente. Parte dessas condições pode ser simulada na Terra com o clinostato, um equipamento que gira continuamente em um ou mais eixos para imitar a microgravidade. “A gente pode combinar o regolito simulado [o ‘solo’ da Lua ou Marte reproduzido na Terra] com a radiação e a microgravidade para entendermos cada vez mais sobre o comportamento dessas plantas no espaço”, explica Hotta.

Outras opções são balões estratosféricos, que chegam a 30 quilômetros de altitude, testes em foguetes menores e o envio de plantas a estações espaciais. No longo prazo, a meta é levar um experimento à Lua em uma das missões tripuladas do Programa Ártemis.

A Rede Space Farming Brazil está na primeira fase de um trabalho de cinco anos. Inicialmente, o foco é o melhoramento das plantas. Posteriormente, prevê-se o teste das variedades desenvolvidas na órbita terrestre, em foguetes ou estações espaciais e na Lua. O projeto integra os esforços brasileiros no âmbito dos Acordos Ártemis, conjunto de princípios para a exploração civil do espaço do qual o Brasil é signatário.

Brasil desenvolve satélite para investigar o ambiente da Lua

Outra iniciativa brasileira ligada aos Acordos Ártemis é o Projeto SelenITA, que desenvolve o primeiro CubeSat lunar do país. É um nanossatélite formado por módulos padronizados em forma de cubo, com 10 centímetros de aresta. O projeto é do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em parceria com a Nasa, a AEB e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O equipamento está na fase final de design, a fabricação deve ser concluída em 2028 e o lançamento está previsto para até 2030.

A missão é orbitar a Lua em altitudes cada vez mais baixas, de 150 para 70 e, por fim, 30 quilômetros (podendo chegar a 15 km), medindo o campo elétrico, o campo magnético e a poeira lunar. O foco é o polo sul, onde o Programa Ártemis deve se instalar. Ali, crateras permanentemente sombreadas mantêm temperaturas baixas o bastante para preservar água em forma de gelo, que pode servir para consumo, produção de oxigênio e, potencialmente, de combustível.

Conhecer esse ambiente é crucial para a segurança dos astronautas e para o sucesso de missões longas. “O ambiente espacial não é só um vácuo. Tem várias coisas que estão afetando o satélite”, explica Luna Formigari, tecnologista da AEB. A poeira, por exemplo, pode atrapalhar a movimentação dos astronautas, cobrir painéis solares e gerar atrito que encurta a vida útil dos equipamentos. Suas partículas também acumulam carga elétrica, o que interfere nas ondas eletromagnéticas usadas na comunicação.

Um satélite feito para resistir

Antes de chegar à Lua, o desafio é projetar um satélite robusto o suficiente para cumprir a missão. Um dos principais obstáculos é a radiação. “Os raios cósmicos são tipos de radiação muito específicos que, se acertarem o circuito eletrônico, há grande chance de uma falha catastrófica. Por isso, temos que pensar em componentes que tenham uma resistência intrínseca à radiação”, afirma Luis Eduardo V. Loures da Costa, professor e chefe do Núcleo de Engenharia Espacial do ITA.

Outro obstáculo é a temperatura. Com uma face voltada para o Sol e outra para a sombra, o equipamento enfrenta diferenças térmicas extremas, e o vácuo dificulta a dispersão do calor. A solução passa por materiais capazes de refletir o calor externo e liberar o interno. Há ainda a distância: são mais de 350 mil km até a Lua, quase dez vezes a altitude dos satélites geoestacionários (onde ficam os satélites de televisão e previsão do tempo). Isso exige transmissões mais potentes, que por sua vez demandam mais energia e sistemas robustos para filtrar ruídos.

Tudo isso requer um processo de revisão e testes muito rigoroso, do menor componente ao sistema completo. Os ensaios incluem vibração, para simular o estresse mecânico do lançamento, câmaras a vácuo e distribuição de massa. “Por serem projetos muito caros, depois que lançar é muito difícil de consertar”, resume Formigari.

A exigência deve beneficiar também os satélites que orbitam a Terra. “Estamos elevando os níveis dos requisitos do satélite ITASAT2 [outro projeto do ITA, voltado a monitoramento e defesa]. Provavelmente, isso vai ter como consequência um tempo de vida maior”, diz Costa.

Helena Tallmann é jornalista na Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp. Especialista em gestão pública municipal pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal), com certificação em Relações Internacionais pela Universidade de Nova York (NYU). Atualmente, cursa especialização em Jornalismo Científico (Labjor/Unicamp).