Expedição de 40 dias entre Fortaleza e Gana vai usar um robô para investigar região quase inexplorada; pesquisadores contam como é trabalhar a milhares de metros de profundidade
Por Maria Carolina H. Ribeiro
Foto: Navio de pesquisa Falkor (too) conectado ao veículo operado remotamente (ROV) SuBastian (crédito: Alex Ingle / Schmidt Ocean Institute)
No dia 20 de setembro, o navio de pesquisa Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, organização que cede a embarcação a cientistas de vários países, vai partir de Fortaleza rumo a Tema, em Gana, onde deve chegar em 29 de outubro. No caminho, a equipe vai investigar a zona de fratura Romanche, uma espécie de rachadura gigante que corta uma cordilheira submarina no meio do Atlântico, na altura do Equador. A bordo estarão a oceanógrafa Flávia Masumoto, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), e o professor Paulo Sumida, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).
Liderada por José Angel Perez, da Univali, e Kerry Howell, do Plymouth Marine Laboratory, no Reino Unido, a expedição quer conhecer a vida nessa região de águas internacionais. As poucas coletas indicavam que havia ali poucos seres vivos, mas os cientistas suspeitam que isso se deve à falta de estudos e que, na verdade, o local seja um hotspot de biodiversidade. Não é um caso isolado: embora 28,7% https://seabed2030.org/2026/04/20/global-seabed-mapping-reaches-new-milestone-as-five-million-square-kilometres-added-in-a-year/ do fundo do mar já tenha sido mapeado por sonar, menos de 0,001%, cerca de 3.823 km², foi visto de perto – por câmeras ou por olhos humanos.
Ninguém vai descer: o trabalho no fundo será feito por um ROV (sigla em inglês para veículo operado remotamente), robô ligado ao navio por um cabo e controlado por pilotos a bordo. Ele alcança 4.500 metros, mas a fenda chega a 6 mil, o dobro da altura do Pico da Neblina. “Como é uma zona de fratura, talvez a gente encontre algumas fumarolas”, diz Masumoto, referindo-se a chaminés que expelem água muito quente.
Um mundo de extremos
O mar profundo corresponde à porção da coluna d’água abaixo dos 200 metros, onde a luz solar diminui até a completa escuridão, o que impossibilita a fotossíntese. Quase todo o alimento vem de cima, em partículas de matéria orgânica que afundam lentamente, a chamada neve marinha. Além disso, a pressão aumenta o equivalente a uma atmosfera a cada 10 metros: a 6 mil metros, é cerca de 600 vezes a da superfície.
Mesmo neste ambiente extremo, há muita vida. Em 1977, o submersível estadunidense Alvin revelou, a 2.500 metros, perto de Galápagos, as primeiras fontes hidrotermais: rachaduras por onde sai água aquecida do interior da Terra. Ao redor delas vivem animais sustentados por microrganismos que extraem energia de reações químicas, e não da luz.
Descobertas em águas brasileiras
A área marinha brasileira, a chamada Amazônia Azul, tem cerca de 5,7 milhões de km², incluindo trechos ainda pleiteados na ONU. Não surpreende que ambientes extremos também tenham sido encontrados aqui. Sumida, que coordena o Laboratório de Ecologia e Evolução de Mar Profundo (LAMP) na USP, começou a estudar esse tipo de ambiente como estagiário no Instituto Oceanográfico, ainda na graduação em biologia, estudando pequenos crustáceos da Antártica coletados em grandes profundidades. “Você acaba se apaixonando por aquilo e começa a se dedicar”, conta. Hoje, soma mais de 40 cruzeiros, por quase todas as bacias oceânicas.
Em 2013, ele participou da expedição Iatá-Piúna, parceria entre Brasil e Japão com o submersível japonês Shinkai 6500 – embarcação de pequeno porte projetada para operar debaixo d’água com tripulação a bordo. Entre as Bacias de Campos e de Santos, a equipe achou pontos onde piche vaza naturalmente do fundo, apenas o terceiro caso conhecido no mundo. Por acaso, encontrou também, a mais de 4 mil metros, o esqueleto de uma baleia, a carcaça natural mais profunda descrita até então. Nos ossos viviam 41 espécies, a maioria nova para a ciência, entre elas um verme-zumbi, que perfura ossos para se alimentar.
Como é descer num submersível
O mergulho mais fundo de Sumida foi a 6.009,5 metros, na fossa de Puysegur, na Nova Zelândia, uma fenda onde uma placa tectônica afunda sob outra. Essa oportunidade fez dele, provavelmente, o recordista em profundidade do Brasil.
Segundo o pesquisador, submersíveis de pesquisa são muito seguros. Geralmente, a cabine é uma esfera, formato que distribui a pressão por igual. Nos modelos de acrílico, que vão a menores profundidades, a visão é quase de 360 graus e os mergulhos duram quatro ou cinco horas. Nos submersíveis de titânio, que vão mais fundo, os mergulhos duram de 9 a 15 horas, e só se vê o lado de fora por três janelinhas. A descida é em queda livre, a cerca de 40 metros por minuto, auxiliada por pesos que vão sendo soltos para o veículo parar perto do fundo e, depois, subir.
Na descida, conta Sumida, a escuridão se enche de luzes produzidas pelos próprios animais – a bioluminescência. “Muitas vezes os pilotos piscam a luz do submersível e os organismos todos piscam de volta.”
Cabem duas ou três pessoas no máximo, sendo uma delas o piloto. Antes do mergulho, todos entram no submersível fechado para receber instruções de segurança, e o piloto observa como cada um reage ao confinamento. Quem tem claustrofobia costuma nem entrar. O enjoo aparece na superfície, quando o veículo balança à espera de ser retirado da água. Banheiro não há: só uma cortininha e saquinhos – o de urina, com um gel que a solidifica. Sobre o “número dois”, Sumida garante: “mergulhei várias vezes, nunca aconteceu de alguém ter esse problema. Pelo menos não ficou público.”
Quem explora o fundo do mar
Ter cientistas do Sul Global à frente das expedições ajuda a combater a chamada ciência colonial, em que amostras coletadas no mar de países em desenvolvimento acabam em instituições da Europa e dos Estados Unidos. Na América Latina, mulheres vêm assumindo a liderança dessas viagens.
A argentina María Emilia Bravo, pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet) e da Universidad de Buenos Aires, soma oito cruzeiros, dois deles com mergulhos em submersíveis: um no Sul da Califórnia, a cerca de mil metros, e outro no Alasca, a quase cinco mil. Recentemente, liderou, a bordo do Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, um levantamento sobre ecossistemas extremos na costa de seu país. A equipe investigou a encosta submarina que liga a parte rasa às grandes profundidades e descobriu ali um ponto onde gases como o metano emanam lentamente do fundo, alimentando uma comunidade de animais.
Masumoto representa a geração mais nova. Na graduação, participou do projeto DEEP-OCEAN, do Instituto Oceanográfico da USP, que coletava peixes de mar profundo com redes arrastadas rente ao fundo, entre Ilhabela (SP) e Florianópolis (SC). As redes voltavam também com muito lixo, que virou tema de seu trabalho de conclusão de curso. No mestrado, ela encontrou microplásticos no estômago e no intestino dos peixes. “Estamos impactando um ambiente ali que ninguém olha”, diz. Em expedição recente do Falkor (too) na Zona de Fratura de Doldrums, o robô chegou a retirar uma jaqueta do fundo, a quase 3 mil metros.
Hoje assistente de pesquisa do Laboratório de Estudos Marinhos Aplicados (LEMA) da Univali, Masumoto diz ter sido bem tratada nos embarques, inclusive quando era a única mulher entre dez pessoas num barco de pesca. Mas, refletindo sobre ser mulher na ciência, descreve uma pressão sutil: “às vezes a gente tem aquele sentimento de que tem que se provar um pouco mais […]. Para ter uma maior credibilidade”.
Poucos navios, muitas parcerias
Para Sumida, o Brasil deveria investir mais em pesquisa oceânica, que é cara e depende dos poucos navios acadêmicos existentes, do aluguel de embarcações privadas ou do apoio da Marinha. Parcerias internacionais como a do Schmidt Ocean Institute têm sido a saída. Sempre que o robô descer, as imagens serão transmitidas ao vivo no canal do instituto no YouTube.
Maria Carolina H. Ribeiro é bacharel e mestre em Oceanografia, doutora em Sustentabilidade, engenheira ambiental, especialista em Direito do Mar e estudante de Jornalismo Científico pelo Labjor-Unicamp. Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado pela Pró-Reitoria de Pesquisa da Unicamp, modalidade Educação e Difusão do Conhecimento, junto ao Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn).