Arquipélago de São Pedro e São Paulo, no Oceano Atlântico (Foto: Lucas Nunes)

A meta de quem faz ciência nas ilhas é ‘retornar com todos vivos e com os dados coletados’

Em territórios isolados e altamente protegidos, pesquisadores enfrentam travessias longas, infraestrutura limitada e condições extremas para produzir conhecimento essencial à conservação e à soberania nacional

Por Suzana Amyuni

Foto: Arquipélago de São Pedro e São Paulo, no Oceano Atlântico (crédito: Lucas Nunes)

Vistas de longe, as ilhas brasileiras compõem o imaginário do paraíso, com águas transparentes, paisagens preservadas e biodiversidade abundante. Para quem desembarca ali com o objetivo de pesquisar, contudo, elas parecem o lugar do imprevisto. O mar determina quando chegar, trabalhar e partir; a infraestrutura é limitada; e qualquer falha precisa ser resolvida a centenas de quilômetros do continente. Fazer ciência nesses territórios exige enfrentar condições extremas e riscos para produzir dados essenciais à conservação.

As ilhas oceânicas são territórios afastados do continente, cercados por águas profundas e marcados pelo isolamento geográfico, que favorece trajetórias evolutivas próprias e espécies exclusivas. Embora estejam em um único e imenso corpo de água (o oceano), representam um “divisor de águas” na formação de quem participa de uma expedição.

O pesquisador Lucas Nunes, da Universidade Federal Fluminense (UFF), já se encantava por elas desde a graduação, quando analisava vídeos dos recifes, e imaginava como poderia conhecê-las. Até que no mestrado, surgiu uma vaga em uma expedição para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Ele aceitou na hora. E foi o que lhe abriu as portas para pesquisar ecologia de peixes recifais no doutorado, há dez anos, e integrar o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração nas Ilhas Oceânicas Brasileiras (PELD-ILOC).

Antes de pisar naquele conjunto de rochas a mais de mil quilômetros do continente, Nunes precisou aprender que chegar ao paraíso exige preparo. São quatro dias de barco pesqueiro desde Natal (RN), não há pista para avião nem espaço para helicóptero, e em uma emergência, o socorro está a dias de distância. Quatro pesquisadores permanecem, em geral, por 15 dias em uma estação pequena, entre rochas pontiagudas, por vezes mais perigosas do que o mergulho.

Depois de 14 expedições, Nunes resume a regra: “Nas ilhas, não há nada. Cada equipamento importante viaja em dobro. Se faltar um parafuso, não existe loja onde comprá-lo”.

Para chegar ao Atol das Rocas, são 24 horas em um veleiro que sai de Natal, alugado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A exposição ao sol é constante, milhares de aves cantam e não existe banheiro convencional. O banho é de mar e o grupo é pequeno para reduzir o impacto na reserva biológica. Na Ilha da Trindade, a navegação parte de Niterói (RJ) e também leva quatro dias, sendo que a permanência pode chegar a três meses, sem data exata de retorno, já que uma emergência pode alterar a rota do navio da Marinha, responsável pelo transporte de cientistas.

Marina Sissini, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e também do PELD-ILOC e da Rede IntegraMar, já passou 70 dias em uma expedição só com homens. Além do preparo físico e emocional, precisava pensar na roupa, na maneira de falar e até no quanto poderia ser simpática. Mais tarde, usou essa experiência para orientar outras pesquisadoras e seus colegas.

No campo, o trabalho ocupa as 24 horas. Não há fim de semana se o mar oferece uma boa janela para coleta, e os desafios são constantes. “O canto das aves é permanente, a comida pode acabar, assim como a água doce, equipamentos quebram e os problemas familiares precisam ser enfrentados sem possibilidade de voltar”, relata Sissini. À exaustão soma-se a convivência entre pessoas que nem sempre se conheciam. “A meta é simples e nada pequena, retornar com todos vivos e com os dados coletados”, diz.

Um observatório no meio do oceano

Aprovado em 2013, o PELD-ILOC monitora São Pedro e São Paulo, Atol das Rocas, Fernando de Noronha e Trindade. O programa integra uma rede do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) dedicada a acompanhar ambientes por longos períodos. Repetir medições permite distinguir uma oscilação passageira de uma mudança consistente.

Cerca de 25 projetos monitoram peixes, corais, algas e tubarões, estudam espécies invasoras e estimam como a pesca e as mudanças climáticas alteram cadeias alimentares. “A ciência se baseia em provas”, lembra Nunes. As séries históricas fundamentam regras de uso e medidas de manejo.

A Marinha do Brasil tem papel decisivo. Mantém estações, transporta suprimentos e treina pesquisadores para São Pedro e São Paulo e Trindade, onde o acesso é controlado. No Atol das Rocas, reserva biológica federal, a autorização cabe ao ICMBio. Fernando de Noronha tem acesso aéreo, mas também reúne áreas protegidas sob gestão do órgão.

A ocupação científica amplia o conhecimento sobre o território marinho, fortalece o pertencimento dos brasileiros a regiões distantes e contribui para a soberania nacional. Em São Pedro e São Paulo, a estação permanente ajuda ainda a sustentar a reivindicação brasileira sobre a Zona Econômica Exclusiva (ZEE), faixa marítima que pode alcançar 200 milhas náuticas – cerca de 370 quilômetros a partir da costa ou das ilhas, em que o país detém direitos sobre a exploração, o aproveitamento, a conservação e a gestão dos recursos naturais das águas, do leito e do subsolo marinhos.

Sissini define essas ilhas como “respiros da utopia”. “Mergulhar em águas claras, entre cardumes, raias e tubarões pouco vistos na costa, mostra que oceanos conservados são possíveis quando os recursos são bem manejados. Esses locais também são laboratórios naturais, já que o isolamento favorece altas taxas de endemismo [espécies exclusivas] e organismos ainda pouco conhecidos”, observa.

Parte desse potencial é investigada pela Rede ProspecMar, coordenada por Letícia Costa-Lotufo (USP), que prospecta recursos naturais e serviços ecossistêmicos marinhos, incluindo substâncias com possível atividade anticâncer. “As ilhas guardam respostas sobre como a vida se adapta e recursos de interesse médico e econômico”, destaca Sissini.

O conhecimento não fica nos artigos. Em Trindade, militares participam de ciência cidadã; em Noronha, há oficinas com estudantes e guias, além de apoio a quem maneja o invasor peixe-leão. Sissini também transformou o resgate de uma ave no livro infantil “Mergulhando nas ilhas oceânicas brasileiras”, sobre a fauna, a flora e as unidades de conservação do PELD-ILOC. Parte dos exemplares é destinada a instituições de ensino.

A ilha das cobras

A 30 quilômetros da costa paulista, Queimada Grande está sobre a plataforma continental, sendo uma ilha costeira. Ainda assim, impõe desafios semelhantes aos das ilhas oceânicas. A travessia desde Itanhaém leva duas horas, mas não há praia. A equipe salta de um bote inflável sobre as pedras com equipamentos, alimentos e água. Se o tempo muda, a viagem pode terminar antes mesmo de começar.

Famosa como ilha das cobras, Queimada Grande abriga a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), que não existe em outro lugar. Os pesquisadores acampam perto do farol e trabalham em turnos. Encontrada uma serpente, usam um tubo transparente para contê-la, inserem um microchip e registram alimentação, reprodução, temperatura e localização. O cuidado vale para ambos: é preciso evitar a picada e não machucar o animal.

O biólogo Otavio Marques, do Instituto Butantan, participou durante décadas dessas viagens. Em um estudo populacional publicado em 2008, os pesquisadores calcularam o número de cobras avistadas por pessoa a cada dia de expedição. Na comparação com os registros obtidos na década de 1990, a taxa de avistamento havia caído pela metade.

Restrita a uma área mínima e sujeita à perda de habitat e ao tráfico, a jararaca-ilhoa é criticamente ameaçada. Uma pesquisadora chegou a receber a oferta de R$ 20 mil por um exemplar. Apesar do risco de extinção, não existe hoje um monitoramento periódico da população, mas segundo Marques, a estimativa é que a ilha tenha cerca de 3 mil cobras.

Os dados orientam agora a implantação de um serpentário para manter uma população no Butantan. Inicialmente, foram levados 20 animais da ilha, mas com o tempo – e com as reproduções, hoje já são quase 60. O objetivo é conservar uma população ex situ – fora de seu habitat natural – capaz de contribuir até para uma eventual reintrodução da espécie, caso ela desapareça da ilha.

O novo espaço, com 250 metros quadrados, deve reproduzir a estrutura e o microclima da floresta da ilha, para que as serpentes preservem comportamentos como se locomover pela vegetação e capturar aves. Os pesquisadores querem descobrir onde e como a serpente caça e se escolhe plantas cujos frutos atraem as aves das quais se alimenta. São perguntas que atravessam o mar até o laboratório e podem, um dia, voltar à Queimada Grande em forma de proteção.

Suzana Amyuni é jornalista, especialista em Gestão da Comunicação Jornalística e pós-graduanda em Jornalismo Científico pela Unicamp. Trabalha há 25 anos na área e já escreveu cinco livros.