Ansiedade climática desafia a saúde mental e a educação no Brasil

Especialistas apontam que a condição já afeta crianças, adolescentes e adultos, revelando impactos sobre a educação e exigindo estratégias baseadas em ciência, políticas públicas e mudanças culturais

Por Maria Cristina Oliveira Souza

Palpitações, insônia, irritabilidade, tristeza e até perda ou questionamento do sentido da vida, são alguns sintomas físicos e mentais relacionados à ansiedade climática. A expressão ecoansiedade – ou ansiedade climática – surgiu em 2017 no Mental health and our changing climate: impacts, implications, and guidance da American Psychology Association (APA, a associação de psicologia dos EUA). Nessa obra a ecoansiedade é definida como “medo crônico de sofrer um cataclismo ambiental que ocorre ao se observar o impacto, aparentemente irrevogável, das mudanças climáticas, gerando uma preocupação associada ao futuro de si mesmo e das próximas gerações”, afirma a professora do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp) Neri de Barros Almeida, que coordenou o projeto da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) “Abordagens psicossociais e históricas de sociedades em situação de crise”.

A psicóloga clínica e pedagoga Helena Branquinho explica que a ansiedade climática tem um gatilho bastante claro, relacionado à sensação e percepção climática como também um olhar para o futuro. Se diferencia por trazer muitos questionamentos de como será o futuro (e se haverá futuro) diante das instabilidades climáticas, tornando-se um fenômeno contemporâneo. Essa ansiedade tem sido observada em crianças, adolescente e adultos, porém, como salienta a APA, os dois primeiros grupos são mais vulneráveis a um comprometimento do desenvolvimento cognitivo e transtorno depressivo maior.

Um estudo internacional realizado com 10 mil jovens de dez países revelou que 59% dos entrevistados estavam “muito ou extremamente preocupados” com as mudanças climáticas.  A pesquisa também revela que os jovens se sentem traídos, afirmando que as repostas governamentais às mudanças climáticas são falhas e inadequadas.

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Um trabalho focado em áreas periféricas da cidade de São Paulo concluiu que os participantes mais vulneráveis ​​associaram as mudanças climáticas a experiências pessoais, mas não compreenderam suas causas, enquanto estudantes de renda mais alta dependeram da educação formal. A inércia do governo perante as políticas ambientais foi uma preocupação que apareceu em todos os grupos.

Branquinho exemplifica como a preocupação constante com as mudanças climáticas impacta de maneira diferente jovens e adultos. Em crianças, a preocupação ambiental pode comprometer o rendimento escolar e gerar sensação de desconexão com o futuro. Em adultos há um estresse “mais exacerbado e nítido”, “sintomas depressivos mais claros, por acessarem com mais frequência informações relacionadas ao clima, por se sentirem culpados por não conseguir fazer algo mais eficaz a respeito ou até se envolvendo muito nessa tentativa e se esgotando”, detalha a psicóloga.

Para Barros, parte do problema está na lacuna entre consciência e ação social. “A ansiedade climática ou ecoansiedade resulta do encontro entre a consciência de que estamos vivendo um problema gravíssimo e aquela de que as instâncias com maior responsabilidade em seu enfrentamento – governos e empresas – não estão fazendo a sua parte ou, pior ainda, como acontece em diversos países, estão se acomodando ao negacionismo”, afirma.

A sensação de impotência pode ser contornada, diz ela, quando a sociedade se dispôr a mudanças culturais. “Elas consistem fundamentalmente em transformar hábitos de consumo. Não resolve o problema ambiental, mas é um passo importante porque quando nos dedicamos a algo, costumamos nos tornar mais exigentes com os outros a esse respeito e essa exigência pode mudar a política”, afirma.

Branquinho afirma que iniciativas individuais e práticas podem ajudar as pessoas a ter a sensação de movimento. No sentido coletivo, a psicóloga deixa como exemplo campanhas, trabalhos voluntários de coleta de lixo e aqueles relacionados à reciclagem, que contribuem também para engajar pessoas preocupadas com a causa climática.

Ambas reforçam a importância da educação como um dos caminhos centrais para enfrentar a ansiedade climática. Segundo Branquinho, é necessário que a escola e os educadores se esforcem ao máximo para informar baseados em fatos e ciência.

Ao mesmo tempo, a escola deve ser um local de proteção emocional, para acolher os sentimentos que afloram em reação à informação. Como exemplo, Branquinho cita projetos pedagógicos que são voltados ao tema, envolvendo diferentes disciplinas, para que haja lugar e espaço para amenizar a ansiedade climática e “transformar as sensações dela advindas em informação, acolhimento, reflexão e ação”, diz.

Barros ressalta o papel de formação que deve ocorrer na Universidade. “A extensão universitária que estabelece uma parceria duradoura e consequente com a comunidade externa pode ser um elemento crucial na motivação e no enfrentamento aos sentimentos de medo e incapacidade. Para ser plenamente motivador, esse movimento precisa acontecer em comunidades que, a partir de processos de diálogo, atribuem alto valor e reconhecimento a essas ações”, afirma.

O caminho para o enfrentamento das mudanças climáticas e a ansiedade climática depende de governos e sociedades democráticas, ressalta Barros. “Ou seja, de sociedades que valorizam o respeito, o conhecimento e que querem se aplicar à responsabilidade de garantir uma vida boa para as crianças. E vida boa não é ter dinheiro e bens em excesso, mas viver em equilíbrio.”

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