Periferia é centro de mobilização pelo fim da jornada 6×1

Longe de ser apenas uma organização de caráter administrativo, a jornada se revela, segundo pesquisadores, um mecanismo de interdição da cidadania, que recai sobre grupos específicos e historicamente prejudicados. 

Por Andrea Rosendo

O debate sobre o fim da escala 6×1 rompeu as bolhas virtuais e ganhou as ruas, especialmente entre a parcela mais afetada de população, os moradores das periferias urbanas. Para Dennis de Oliveira, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e coordenador científico do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação, é preciso compreender como, além da jornada excessiva, também a configuração geográfica das metrópoles afeta a cidadania.

De acordo com o pesquisador, a jornada de seis dias de trabalho semanal torna-se ainda mais degradante quando combinada com a precariedade da mobilidade urbana. “Em São Paulo, por exemplo, o morador de periferia gasta de duas a quatro horas por dia nos deslocamentos entre moradia e local de trabalho. Se acrescentarmos esse tempo à jornada de trabalho, teremos de 10 a 14 horas diárias, 6 dias por semana. Isso dificulta, por exemplo, que haja tempo para lazer, formação ou estudo”, pontua Oliveira. Para ter uma ideia, em São Paulo, a maior linha de ônibus municipal (Ipiranga a Rio Pequeno) percorre cerca de 78 quilômetros. São mais de 100 paradas e viagens de até 3 horas. 

O professor explica que a configuração espacial das grandes metrópoles concentra também os recursos e equipamentos sociais nas regiões centrais. Para o trabalhador ter acesso a áreas de lazer, cultura, esporte ou atendimento social, precisa enfrentar novos deslocamentos. A jornada, portanto, não pode ser contabilizada sem o tempo gasto em deslocamentos. “As periferias são quase senzalas modernas. As pessoas saem de lá somente para trabalhar e voltam para dormir e se recuperar para o dia seguinte”, analisa.

Autor do livro Periferias insurgentes, Oliveira defende que é preciso assegurar o direito para que o trabalhador possa habitar a cidade, vivenciar sua humanidade e decidir sobre o próprio tempo de vida. Para ele, a cidadania exige considerar todas as dimensões da vida humana. “Acabar com essa jornada implica enxergar esse trabalhador, essa trabalhadora, como um sujeito de direito, cujo vínculo de existência não está atrelado apenas à dimensão produtiva”, aponta.

O deslocamento de trabalhadores foi analisado por Viviane de Araújo Menezes, autora de As mulheres da linha 304 e mestre em serviço social, trabalho e questão social pela Universidade Estadual do Ceará. No livro, a pesquisadora analisa o perfil socioeconômico e os trajetos exaustivos de moradoras da periferia de Fortaleza, Ceará.

A pesquisa investigou o cotidiano de sete mulheres em seus percursos casa-trabalho para compreender como as particularidades de gênero determinam violações de direitos. Por meio de observação participante, diários de campo e entrevistas semiestruturadas, a autora analisou os fluxos urbanos que estruturam a mobilidade dessas trabalhadoras nas margens da cidade. “A população segregada que reside nas periferias é a que mais sofre com a mobilidade pois, além de enfrentar longas distâncias ao se deslocar para trabalho/estudo/lazer ou para suprir quaisquer outras necessidades, também é penalizada com serviços de transporte coletivos precários e arca com os altos custos das tarifas”, enfatiza Viviane.

Os resultados e a discussão da pesquisa revelam que as estruturas urbanas estão entremeadas por desigualdades de raça, classe e gênero.

Trabalho doméstico

Dentre os moradores das periferias, destacam-se aqueles dedicados ao trabalho doméstico remunerado – em geral, mulheres negras. Eliete Edwiges Barbosa, doutora em psicologia social, desenvolve a pesquisa Trabalho doméstico, mundo paralelo da relação de trabalho e a feminização da pobreza na Escola de Comunicações e Artes da USP. 

A pesquisa conduzida por Barbosa mapeou não apenas as marcas da violência psicológica e das jornadas abusivas, mas também a persistência de estruturas geracionais de opressão. “Na etapa qualitativa registramos relatos profundos de opressão, violência psicológica e sexual por parte dos empregadores. Na etapa quantitativa, avaliamos o uso de políticas públicas e detectamos a raiz geracional do ofício, já que muitas começam na infância, acompanhando as mães ao trabalho por falta de rede de apoio, perpetuando o ciclo de avó para filha e neta. Contudo, a pesquisa também apontou uma quebra recente desse ciclo geracional graças ao acesso à universidade e às cotas raciais a partir dos anos 2000”, pontua.

Ainda que a lei garanta direitos fundamentais como jornada máxima de 8 horas diárias (44h semanais), Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e seguro-desemprego, a realidade esbarra em abismos práticos, especialmente nas modalidades em que a trabalhadora reside no emprego.

“Essa trabalhadora muitas vezes não tem o horário de almoço ou descanso garantidos, tendo que ficar à noite à disposição. Há os chamados ‘acordos’, pedidos informais que vão muito além do salário e dos afazeres determinados em contrato. Esse ‘favor’ muitas vezes não vem em forma de dinheiro, mas de um agrado — como uma roupa usada, mascarando acordos informais de sobrecarga”, analisa Barbosa.

Essa engrenagem resulta em uma penosa tripla jornada para a mulher negra – que compõe majoritariamente esse grupo. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e do Observatório Brasileiro das Desigualdades mostram que a categoria é composta por 92% de mulheres, das quais quase 70% são negras (pretas e pardas).

Afetadas por altas taxas de informalidade, disparidade salarial e ausência de carteira assinada ou previdência, essas trabalhadoras enfrentam o esgotamento no serviço e as longas horas de deslocamento. Ao fim do dia, retornam aos próprios lares para assumir os cuidados familiares, sendo ajudadas por redes comunitárias diante da ausência de políticas públicas amplas e efetivas.

Andrea Rosendo é mestre em comunicação (UFPR) e cursa especialização em jornalismo científico no Labjor/Unicamp.