Estação Antártica Comandante Ferraz, localizada na Ilha Rei George, na Antártica (Foto: Gabriela Elidio)

Perto demais para ignorar, a Antártica vira laboratório brasileiro

Todos os verões austrais, dezenas de pesquisadores brasileiros trocam laboratórios por acampamentos, navios e temperaturas negativas para estudar um continente que influencia diretamente o clima e os oceanos da América do Sul

Por Thabata Oliveira

Foto: Estação Antártica Comandante Ferraz, localizada na Ilha Rei George, na Antártica (crédito: Gabriela Elidio)

“Está vendo essas caixas aqui?”, pergunta Paulo Câmara, apontando para o chão do laboratório. “Amanhã, todas elas seguem para a Marinha, que vai levá-las até a Antártica.” Era 26 de agosto. Dentro das caixas ia tudo o que ele e sua equipe usariam no continente nos próximos meses. O material viaja de navio com antecedência, e não há segunda chance: na Antártica não existe loja nem entrega. O que ficar para trás, fica.

Professor de botânica na Universidade de Brasília (UnB), Câmara embarca anualmente rumo ao sul desde 2013. Ele coordena o BryoAntar, projeto voltado aos musgos que formam os tapetes vegetais predominantes na paisagem polar. A iniciativa integra o Programa Antártico Brasileiro (Proantar), criado em 1982 sob o apoio logístico da Marinha e da Força Aérea Brasileira, com financiamento do CNPq e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Para o botânico, a dedicação contínua ao continente não é por acaso: “A Antártica é grande demais e está perto demais para fazermos de conta que ela não existe”. Além de influenciar diretamente o clima e as correntes marítimas da América do Sul, a ciência polar brasileira tem peso geopolítico direto. Foi ela que garantiu – e sustenta até hoje – o status do Brasil como Parte Consultiva do Tratado da Antártica, conferindo ao país direito a voz e voto nas decisões sobre o futuro do território.

Pisar nesse santuário inóspito, contudo, é apenas o desfecho de uma longa jornada: antes de qualquer embarque, pesquisadores e equipes técnicas dedicam meses ao rigor logístico e à adaptação às condições extremas que os aguardam no fim do mundo.

Preparo

Na temporada vigente, foram aprovados 29 projetos. Cada equipe organiza a própria expedição: decide quem vai, o que levar e onde coletar as amostras. “A gente passa, basicamente, um ano inteiro nessa organização”, resume Câmara.

Para quem viaja pela primeira vez, a Antártica começa na Ilha da Marambaia, no Rio de Janeiro. É ali que acontece o Treinamento Pré-Antártico, ministrado pela Marinha. Durante uma semana, os pesquisadores aprendem sobre o ambiente antártico, a logística do Proantar e os procedimentos da viagem, além de testar os equipamentos que usarão no continente.

O treinamento inclui uma etapa menos teórica: vestido com o macacão flutuante laranja, conhecido como mustang, o pesquisador precisa saltar de uma plataforma para o mar, nadar até um bote, subir nele e aprender a desvirá-lo. Há também testes físicos.

“Se você passar nos testes, recebe a carteirinha e está apto a ir para a Antártica”, explica Amanda Bendia, pesquisadora do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), que já participou de quatro expedições ao continente.

Bendia coordena o AeroMicroAntar, projeto que nasceu da descoberta de microrganismos tipicamente marinhos em camadas profundas de neve no módulo científico Criosfera 1, situado a mais de 800 quilômetros da costa antártica. Intrigada com a forma como essa biota chegou ao interior do continente, a equipe investiga os mecanismos de dispersão e transporte atmosférico desses organismos microscópicos a partir da água do mar.

Deslocamento

A viagem costuma começar em um avião militar que sai do Rio de Janeiro, faz escala em Pelotas (RS) – onde cada pesquisador recebe as roupas emprestadas pela Marinha – e segue para Punta Arenas, no extremo sul do Chile.

A travessia final pode ser feita por voo até a Base Presidente Eduardo Frei Montalva, na Ilha Rei George, no arquipélago Shetland do Sul, ou a bordo do Navio Polar Almirante Maximiano. Pelo mar, o trajeto cruza a temida Passagem de Drake, conhecida pelas tempestades e pelo mar agitado.

“Tudo no navio sai amarrado. O navio balança continuamente e quase ninguém fica nos corredores”, relata Gabriela Elidio, mestranda no laboratório coordenado por Bendia, que participou de sua primeira expedição entre o fim de 2025 e o início de 2026.

Campo

Uma vez na Antártica, a experiência varia conforme o projeto. Há pesquisadores que permanecem na Estação Antártica Comandante Ferraz, a base brasileira na Ilha Rei George; outros acompanham todo o trajeto a bordo do navio, estudando o oceano; e há equipes que desembarcam de bote ou helicóptero para alcançar pontos específicos.

Câmara conhece bem as dificuldades do trabalho de campo. “Você trabalha o dia inteiro, o sol não se põe e, às vezes, passa dias em um acampamento sem tomar banho. O vento pode chegar a 200 quilômetros por hora e querer carregar sua barraca. Você volta do campo cansado, ainda precisa cozinhar e lavar a panela – e não tem água líquida. Então você escolhe: ou bebe água, ou toma banho e lava a panela. Dentro do navio também não há glamour: às vezes o mar fica grosso, todo mundo passa mal e, quando você desce de bote, é frio, respingo, água salgada. É um trabalho e, inclusive, um trabalho arriscado. Em certas circunstâncias, a gente arrisca até a vida”, descreve.

Em meio ao isolamento e às dificuldades, a colaboração se torna parte da rotina: pesquisadores dividem guloseimas trazidas do Brasil, revezam as tarefas de cozinha na estação e ajudam nas pesquisas uns dos outros. “O mais comum é as pessoas se ajudarem”, afirma Bendia.

Vulcão de gelo e fogo

Entre os destinos das expedições está a Ilha Deception, uma caldeira vulcânica parcialmente inundada pelo mar. Para Bendia, é um dos lugares mais marcantes da Antártica. “É o meu lugar preferido. Parece que você está em outro planeta”, define a pesquisadora, que carrega as coordenadas da ilha tatuadas no braço.

Nas praias de areia escura, o mar encontra montanhas cobertas de neve e geleiras. Em alguns pontos, fumarolas aquecem o solo. “O calor de 100 graus é muito pontual. Se você der alguns passos para o lado, o ar já está a zero ou a dez graus negativos”, conta.

A ilha também funciona como um laboratório natural ideal para investigar os limites extremos da vida. Foi a partir de amostras recolhidas nas fumarolas que o grupo de Bendia descreveu um novo gênero e espécie de arqueia hipertermófila, capaz de proliferar a 100 °C. A Pyroantarcticum pellizari recebeu esse nome em homenagem à professora Vivian Pellizari, do IO-USP, pioneira da microbiologia antártica no Brasil.

Retorno

O fim da expedição não significa o fim da pesquisa. Da Antártica regressam sedimentos, filtros, camadas de neve, musgos, invertebrados. O material fica nos navios e só chega aos pesquisadores meses depois. “A gente coleta e só sabe o que tem depois que analisa no laboratório. Às vezes, meses, anos depois”, explica Bendia.

Parte do material coletado pode integrar coleções científicas. O herbário da UnB abriga cerca de 10 mil exemplares de briófitas antárticas, formando o maior acervo desse tipo na América Latina. As amostras permitem novas pesquisas sem que os cientistas precisem retornar ao continente.

As expedições também deixam um legado entre quem está começando. Elidio assistiu às palestras virtuais de Bendia durante a pandemia e, anos depois, conquistou uma vaga no mestrado sob a orientação dela. Ao desembarcar na Antártica, levou uma pequena placa de madeira com o nome de sua cidade natal, Cáceres (MT), para fixar na estação brasileira.

A história repercutiu em sua cidade e nas redes sociais. A bióloga passou a receber mensagens de adolescentes e meninas mais novas que se sentiram inspiradas por sua presença na expedição. Elidio acredita que “quando a gente vê alguém que veio de uma realidade parecida, ainda mais de uma universidade do interior, ocupando esses espaços, fica mais fácil acreditar que a gente também pode chegar lá”.

Thabata Oliveira é bióloga e designer pela USP, pós-graduanda em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp e bolsista Mídia Ciência da FAPESP.