Risco, impulsividade e desobediência na adolescência são vantagens evolutivas

Por Sabine Pompeia e Diana Zatz Mussi

Pesquisadores verificam comportamentos similares aos de adolescentes em outras espécies de animais. 

Assim como um passarinho precisa, em algum momento, se lançar ao ar pela primeira vez sem saber se consegue voar, comportamentos arrojados são comuns em indivíduos  de diferentes espécies, sejam humanos ou outros animais, na fase entre a infância e a idade adulta (no caso das pessoas, chamada de adolescência). Apesar da grande variação observada tanto entre indivíduos quanto entre espécies, há diversas alterações fisiológicas e muitos outros comportamentos que são também comparáveis durante essa fase. Isso não é observado só em mamíferos, mas também em aves, répteis, peixes e até invertebrados. Comportamentos observados em mariscos, por exemplo, indicam que formas especiais de agir nessa época da vida podem ser importantes para a sobrevivência de todo tipo de animal.

No livro Wildhood (“idade selvagem”) as pesquisadoras Barbara Natterson-Horowitz e Kathryn Bowers da Universidade da Califórnia (UCLA) explicam que a adolescência em animais costuma ter duas etapas principais. A primeira é a puberdade, um conjunto de alterações fisiológicas que levam ao crescimento e amadurecimento de órgãos necessários para preparar o corpo para a reprodução. Isso decorre do aumento na produção de uma série de substâncias como hormônios, que também afetam comportamentos: jovens têm variações de humor, vermes ficam mais abertos para ter novas experiências e cães ficam mais rebeldes – mas só em relação a seus tutores. Segundo Carolina Azevedo, do Laboratório de Cronobiologia e Comportamento da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, outro comportamento comum nessa fase em algumas espécies diurnas é começar a ficar mais ativo que adultos/pais em horários mais tardios. Isso é verificado em fêmeas de saguis-de-tufos-brancos, mostrando que há variação comportamental também entre os sexos nesta idade que são associados a diferentes papéis na reprodução.

Ficar com a aparência de adulto, porém, não torna um indivíduo adulto. Para isso, é necessário que sejam adotados comportamentos amadurecidos. Isso é atingido ao longo da segunda etapa da adolescência: um período longo de aprendizado que se estende até o início da idade adulta, durante o qual é refinada a capacidade de reagir ao ambiente. Aprender como cortejar potenciais parceiros, por exemplo, é uma dessas habilidades. Albatroses adolescentes aperfeiçoam essas táticas observando adultos e treinando entre si. Pais ajudam em muitas espécies, ensinando filhotes adolescentes a se alimentar ou se proteger, e adultos que não são os pais também participam desses ensinamentos, tal como lobos. Membros mais novos da matilha são periodicamente convidados a se juntar a expedições de caça e, quando atrapalham a empreitada devido à sua inexperiência, não são punidos da mesma forma que um adulto.

Arriscar

Contudo, ganhar experiências na adolescência sem a mediação de adultos é mais comum na maior parte das espécies e isso é possível graças a uma característica especial dessa idade: a menor aversão a riscos.  Não se trata de qualquer tipo de risco, entretanto. No caso de meninos e meninas, verifica-se que quando eles sabem que há alta probabilidade de um desfecho desfavorável (ao menos sob suas próprias perspectivas), eles agem mais como adultos do que crianças nas mesmas condições. Isto mostra que já aprenderam, ao menos um pouco, como se comportar de forma mais adaptativa.

Mas há um tipo particular de risco ao qual adolescentes de muitas espécies estudadas têm menos aversão que crianças e adultos: aquelas situações com chance razoável de levar a algo positivo, incluindo ganhar experiências, como explica o pesquisador Daniel Siegel, da UCLA, em seu livro O cérebro do adolescente. Isso também é observado em chimpanzés adolescentes.

Experimento de artigo da Journal of Experimental Psychology: General que consistiu em oferecer a chimpanzés de várias idades a opção de receber um alimento um pouco apreciado (amendoim) ou fazer uma aposta: arriscar ganhar (1) algo mais desejado (banana) ou (2) uma comida boa, mas menos popular (pepino). Chimpanzés adolescentes (dos cerca de 6 a 15 anos) mostraram-se mais abertos a arriscar ganhar banana, mesmo com a chance de 50% de a aposta resultar em pepino (que levou a frustração semelhante em todas as idades: gritos, gemidos, choramingos e protestos como bater na mesa que continha as recompensas – não mostrada na figura, mas descrita na publicação).

É difícil saber o que motiva um animal a fazer algo arriscado, mas dá para perguntar isso a adolescentes, e uma pesquisa publicada na revista Frontiers in Psychology em 2022 trouxe as respostas. Sobre riscos como usar álcool e drogas, por exemplo, adolescentes consideraram como pequena a probabilidade de dar algo errado e isso teve menos peso que “se divertir, experimentar e aprender a lidar com coisas novas, sentir-se cool e parte de seu grupo”. Além de demonstrarem baixa aversão a riscos (em outras palavras, serem mais corajosos), isso explica também o comportamento grupal: adotam as preferências de seu bando (incluindo formar gangues), afastam-se dos pais e ficam rebeldes. Isso é também verificado em pinguins, lontras, baleias e hienas, entre outros animais, como detalhado no livro Wildhood.

Pesquisadores apontam que adolescentes precisam ganhar autonomia e é vantajoso que isso seja feito junto a outros indivíduos audazes. Assim, ao mesmo tempo em que se protegem entre si, maximizam as oportunidades de aprender observando os desfechos dos comportamentos alheios. Correr riscos pode dar errado para alguns deles, mas para a maioria promove aprendizagem – o que é essencial para que sobrevivam a consigam ter seus próprios filhotes. Como pais e filhos tendem a ser parecidos, tais comportamentos destemidos nesta idade tendem a se manter nas gerações seguintes. Isso se aplica a muitas espécies e também a outros comportamentos específicos da adolescência, e é explicado pela teoria da seleção natural, que envolve muitos mecanismos, incluindo a transmissão de genes entre gerações.

Fase de alta vulnerabilidade e desafios sociais

Em quase todas as espécies, explicam as autoras do livro Wildhood, adolescentes e jovens adultos apresentam vulnerabilidade. São inexperientes e se arriscam bastante diante do novo, como atiçar ou chegar perto demais de predadores; no caso de seres humanos, é comum que enfrentem autoridades. Predadores de muitas espécies aproveitam-se sistematicamente disso e costumam selecionar presas dessa idade como alvos da caça, pois jovens não sabem ainda como agir e geralmente não são mais tão protegidos pelos adultos.

Outro ponto a se considerar é que as experiências vividas na infância e adolescência, em todas as espécies, moldam comportamentos futuros, pois deixam marcas no cérebro que ainda está em desenvolvimento. Segundo Deborah Suchecki, professora do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo, “assim como adolescentes da espécie humana, ratos na mesma fase da vida mostram comportamentos que podem ser associados a transtornos mentais quando são submetidos a muito estresse na infância”.  Ou seja, ser exposto a adversidades durante o desenvolvimento prepara os organismos a estarem continuamente alerta a potenciais perigos – em seres humanos isso é chamado de ansiedade. Não é agradável, mas aumenta a chance de sobrevivência e reprodução.

Aprender os meandros da vida social exige também muito treino em todos os animais sociais, algo mais complexo entre seres humanos devido às imensas variações de expectativas e valores socioculturais. Ademais, no livro Wildhood é apontado que, atualmente, os adolescentes têm que fazer isto em dobro: precisam também aprender a se relacionar no mundo virtual, que tem outras regras.

São desafios também de seres humanos enfrentar grandes desigualdades sociais e manejar o complexo e prolongado período de treinamento acadêmico/profissional. Isso demanda políticas públicas que considerem a função evolutiva dos comportamentos exploratórios naturais desta idade, como as experiências com drogas, por exemplo. Segundo a Unicef, ainda não é garantido aos adolescentes “um balanço entre liberdade e proteção” para que sejam amparados quando seus comportamentos levem a consequências negativas.

Punições desmedidas como serem expulsos da escola e encarceramento só pioram seus comportamentos, como destaca um artigo que esmiuçou a base evolutiva das atitudes de risco de adolescentes, publicado na Developmental Psychology. Um editorial do prestigioso periódico Nature, intitulado “A ciência da adolescência precisa amadurecer”, resume bem esta questão: “É difícil se tornar adulto. Em muitas culturas, pais, educadores, médicos e aqueles que fazem políticas públicas criticam adolescentes por sua impulsividade, não entendem sua raiva e ridicularizam sua linguagem e costumes. A próxima geração merece mais”.

Diana Zatz Mussi é formada em geografia (USP), mestre em divulgação científica e cultural e cursa especialização em jornalismo científico (Labjor/Unicamp)

Sabine Pompeia é doutora em psicobiologia (Unifesp) e cursa especialização em jornalismo científico (Labjor/Unicamp)