Comunicação de conflito presidencial: da doutrina militar de John Boyd à desinformação de Putin

Por Douglas Donin [ilustração de Dinho Lascoski]

Um grande problema da análise da comunicação do governo Bolsonaro – e que provavelmente ficará sem solução definitiva – é saber o quanto da ação midiática do governo é acidental, fruto dos caprichos momentâneos da família presidencial, e o quanto é feita dentro de um esquema estratégico deliberado, consciente, visando objetivos de longo prazo e dentro de um método definido.

De toda forma, acidental ou deliberadamente, o que se observa é que o presidente, frequentemente com a colaboração de seus filhos e de uma parcela do governo que se convencionou chamar de “núcleo ideológico”, dominam, invertem e atravessam as pautas jornalísticas diárias com uma enxurrada de declarações, opiniões, ofensas, ameaças, gafes e gestos que impõem uma alta rotatividade de assuntos às redações. Os jornais, limitados por fatores materiais de tempo, pessoal – e mesmo pela limitação de atenção disponível dos espectadores – tentam dar alguma ordem ao caos diário com margens de sucesso variáveis, pois a eclosão quase diária de novos “faits divers” presidenciais – uma categoria até pouco tempo impensável e paradoxal – frequentemente impõe a interrupção da cobertura da alteração anterior, para abrir espaço à alteração do momento.

Evidentemente, é difícil supor, do ponto de vista da doutrina (militar ou de comunicação), alguma sofisticação na estratégia de discurso do presidente. Treinamento formal em comunicação de conflito não possui: Bolsonaro, um oficial de relativamente baixa patente em sua época de militar da ativa, até chegou a cursar a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais em 1987, após ser promovido a capitão (já em 1988, sem diploma, apenas “agregado” à EsAO enquanto seus colegas de curso já haviam voltados aos quartéis, abandonou a vida militar e entrou para a política, pois durante o curso de aperfeiçoamento eclodiu o escândalo da operação “Beco Sem Saída”[1]). Entretanto, o aperfeiçoamento – obrigatório – da EsAO é no sentido de habilitar os novos promovidos à patente de capitão, acostumados com as tarefas de subcomando ou ligação, típicas da tenência e do oficialato subalterno, com as novas tarefas requeridas pelo maior escopo de atuação e responsabilidade dos oficiais intermediários. São conhecimentos mais práticos e operacionais, relativos aos comandos de unidade, para quem o treinamento de questões políticas e de Estado seria exorbitante. Quanto à disciplina de estratégia, são apenas 15 horas, em uma carga horária voltada a aspectos introdutórios.

Também, o presidente é cercado por um grande número de oficiais superiores e generais, cujo aperfeiçoamento – inclusive na Escola Superior de Guerra – inclui considerações mais avançadas de estratégia política, ideológica e gestão de ambiente psicológico. Apesar disso, não aparenta vir da doutrina militar da ESG (excessivamente formalista e ortodoxa) a provável orientação da gestão estratégico-midiática do Planalto.

Suas fontes principais parecem vir de dois conjuntos teóricos diferentes, cada qual surgido de um lado da polarização da Guerra Fria: doutrinas militares americanas, mais arrojadas e modernas, que refletem as exigências de combate em ambientes totalmente diversos, muito mais dinâmicos (principalmente inspiradas no trabalho do coronel John Boyd), e doutrinas russas, desenvolvidas inicialmente ainda na época da União Soviética, no que se convencionou chamar à época, eufemisticamente, de “medidas ativas” (e que significam, na prática, o manejo maciço de desinformação), aperfeiçoadas para o ambiente da internet por Vladimir Putin, egresso dos quadros da KGB.

O interessante é que essas doutrinas possivelmente chegam ao Planalto em sua forma não teórica, mas aplicada, já destiladas em um receituário de ação, e não através de seus conselheiros militares, mas por meio de estrategistas políticos civis, escolados não nos teatros de operações marciais, mas no digladio virtual da política moderna, formados em conhecimentos não desenvolvidos na academia, mas nas “fazendas de trolls”[2] da alt-right[3] americana[4] – comunidades de ativistas virtuais fartamente irrigadas com dinheiro de financiadores, vários deles bilionários, interessados na eleição de seus intercessores políticos de preferência[5].

As duas formas de pensar o embate virtual, a americana e a russa, chegaram a tais enclaves por duas vias: a primeira de um modo mais sofisticado, por meio da influência teórica de diversos institutos, think tanks, empresas de consultoria e autores individuais que já vêm, há anos, efetivamente informando a política e a arte da mobilização de grupos eleitorais com afluências das ciências militares; a segunda de um modo mais prático, pela simples mimetização do sucesso das experiências russas com as suas próprias “fazendas de trolls”, que operavam não só a partir da Rússia, como da Ucrânia (e que influíram, inclusive, nas eleições presidenciais americanas)[6].

O resultado é que esse campo de batalha, novo, dinâmico, mas que se mostrou decisivo, ganhou o foco da guerra política com a extremamente bem-sucedida campanha de Obama na internet, mas foi de fato dominado com alguma facilidade pela alt-right no período Trump[7].

A verdade é que Obama, um indivíduo culto, educado, articulado, cosmopolita, era um representante do usuário de internet do começo dos anos 2000. À medida que a web se popularizou – e principalmente as redes sociais se tornaram praticamente sinônimos de internet para a maioria das pessoas – a alt-right assumiu a dianteira da guerra cultural online, falando a um cidadão intelectualmente mais limitado, desconfiado da educação superior e do cosmopolitismo e relativamente ignorante acerca de assuntos científicos, diplomáticos e de alta política. Ela soube magistralmente catalisar sentimentos incipientes, fomentar inseguranças e incentivar animosidades e teorias da conspiração. Trump, com o auxílio das tropas virtuais de alta mobilidade da alt-right, ignorou o debate de alto nível e falou à classe mais numerosa de “homens comuns” que Hannah Arendt chamou de “ralé”[8]: a camada de desfavorecidos excluídos do debate, desprezados, sempre tomados como objeto mas nunca como agentes da política, cujas ideias e anseios dificilmente encontraram espaço ou mesmo ressonância na política tradicional, e que encarou na súbita possibilidade de voz uma oportunidade de desforra, vingança, contra um discurso político ao seu ver elitizado. Na sacralidade da urna, elegeram aquele que mais falou sua língua.

O mero fato de isso contrariar tendências de pesquisas é indício de que o que se procedeu no sigilo da cabine de votação era indicativo de que aquele discurso estabelecido entre Trump, alt-right e eleitores era algo reprimido, mantido em envergonhado segredo – somente o meio de comunicação mais direto das redes sociais permitiu o trânsito de certas ideias, inconcebíveis no discurso amplo e aberto dos meios tradicionais.

Não é segredo algum que tais práticas e todo o método de enfrentamento e mobilização virtual que ajudaram a compor e consolidar acabaram por aterrissar na gestão de mídia de Bolsonaro, principalmente na estruturação inicial dos bastidores do atual governo, pela influência de Steve Bannon, estrategista da campanha de Trump, de polemistas ligados ao escritor Olavo de Carvalho e de outros atores hábeis no entendimento da mecânica das redes sociais, que obtiveram acesso aos gabinetes executivos através dos filhos do presidente – principalmente através de Carlos. No Brasil, o sucesso da experiência americana se repetiu, como testemunhamos em 2018 e ainda testemunhamos, com a Presidência cultivando uma numerosa massa (que as pesquisas apontam ser de aproximadamente um terço dos brasileiros) absolutamente monolítica, impenetrável, irredutível, incapaz de qualquer crítica ao presidente e absolutamente suscetível às ordens da máquina de propaganda instalada no Planalto.

Convém, então, para que entendamos os mecanismos que descrevem a eficiência dessas táticas, uma rápida análise dessas prováveis fontes.

O ciclo de Boyd

John Boyd foi um coronel aviador da força aérea americana, tido como um dos mais revolucionários pensadores da doutrina militar moderna. Uma verdadeira celebridade no meio militar americano[9], proporcionou aos Estados Unidos não somente um arcabouço teórico que revolucionou o combate aéreo, mas a estratégia como um todo – suas teorias, hoje, são utilizadas amplamente nos negócios, indústria, esportes, política e advocacia.

Boyd interessou-se por um fato curioso da Guerra da Coreia: os americanos, pilotando caças F-86 Sabre, repetidamente entravam em combate com caças MIG-15 russos, maiores, mais velozes e mais potentes. Entretanto, ao contrário do que se poderia imaginar, o poderio e velocidade superiores dos russos não se revertia em maior número de vitórias. De fato, para cada avião americano abatido, os russos tinham dez derrubados.

A resposta a esse fato contraintuitivo, segundo Boyd, estava no maior campo de visão do F-86, que dava ao piloto maior “consciência situacional”, e sobretudo na sua capacidade de manobra superior. Seus apontamentos levaram ao desenvolvimento de chamada Teoria de Energia-Manobrabilidade (“EM-Theory”), formulada em conjunto com o matemático civil Thomas Christie, e que se tornou paradigma mundial para o desenvolvimento de novas gerações de caças leves e manobráveis, embora mais lentos e com menor poder de fogo, quebrando a tendência de construção de máquinas cada vez mais potentes.

Mas Boyd não se limitou à teoria do combate aéreo: percebeu que a capacidade superior de manobra era o alicerce no qual se sustentavam boa parte das grandes vitórias militares da história. Dos gregos à guerra de manobra de Napoleão, da blitzkrieg alemã às “operações em profundidade” soviéticas, o que parecia determinar, com maior frequência do que outros fatores, a vitória de forças muitas vezes menores contra adversários mais fortes era a capacidade de criar paralisia estratégica através da capacidade superior de manobra.

Isso levou à sistematização, por Boyd, do célebre Ciclo OODA (observação-orientação-decisão-ação), modelo que descreve como ambos os lados do conflito executam ciclos decisórios simultaneamente, e que permitiu a visualização de como, em uma disputa, um adversário pode ser mantido em estado de perplexidade e paralisia por uma força que simplesmente consegue finalizar o seu próprio ciclo mais rápido – na terminologia de Boyd, emprestada do combate aéreo, “getting inside the enemy loop” (“penetrar no ciclo do inimigo”).

O primeiro passo do ciclo de Boyd é a observação: a simples coleta de impressões do contexto, indicativas de que se precisa tomar alguma resposta a um evento do mundo externo, e que irão provocar os demais passos do ciclo. O segundo passo (e, na opinião de Boyd, o mais importante) é a orientação, quando as impressões observadas são alinhadas com os objetivos, o contexto, os valores e os vieses comportamentais do observador, sua história, sua cultura, e transformadas em informação interpretada e analisada. No terceiro passo, ocorre a decisão, e no quarto, a ação propriamente dita.

São etapas lógicas e que ocorrem em sequência. Podem durar, juntas, frações de segundo (como no contexto do combate aéreo) ou dias. Mas todos os beligerantes – aliás, todas as forças adversárias em qualquer contexto – executam continuamente, ininterruptamente, esse ciclo.

A inovação de Boyd foi perceber e esquematizar que, se um beligerante termina seu ciclo antes, e age enquanto o adversário está processando o seu ciclo, ele sobrepõe ao ciclo adversário, ainda incompleto, uma nova observação. O adversário, então, é confrontado com um dilema: ou segue o processamento da informação anterior, até o final (e termina em uma posição potencialmente inadequada em relação à nova situação dada) ou interrompe o seu ciclo, o deixa incompleto, e reinicia o processamento de um novo ciclo sobre a nova observação. De toda forma, despendeu energia (recursos, tempo) no processamento de uma situação de maneira sub-ótima, frequentemente a fundo perdido. E, se isso ocorrer repetidamente – se o ritmo de giro do loop de uma das forças for irremediavelmente maior – o adversário pode ser induzido a um permanente estado de perplexidade e inação.

Foi exatamente essa a receita de Napoleão, que impunha aos poderes europeus uma guerra mais rápida e imprevisível do que as observações e comunicações da época podiam coordenar, com um exército ágil, sempre em marcha rápida, que dominou no campo de batalha forças às vezes cinco vezes maiores.  Foi também a razão do sucesso da blitzkrieg alemã, com suas unidades blindadas ágeis destacadas da lenta infantaria levando a guerra às profundezas do território atacado, atrás das linhas de confronto.

Boyd percebeu que a superioridade da agilidade sobre a potência era uma receita geral para o sucesso no conflito. Com isso, determinou o novo rumo da estratégia militar americana (foi a maior mente estratégica por trás do plano de invasão do Iraque na Guerra do Golfo), oferecendo complemento a uma nova era de teorias de comando e controle (C²), como a abordagem cibernética, formatando um paradigma de análise e decisão mais compatível com uma era onde a informação não era escassa, mas superabundante[10].

Ocorre que, como é típico daquele povo, os princípios marciais de Boyd foram logo sistematizados para o mundo empresarial, negocial, judicial, esportivo e artístico. Onde houvesse conflito e disputa, os americanos se acostumaram a enxergar as rodas do ciclo de Boyd competindo, uma batalha por tempo e ritmo, mais do que por força e potência. Os think tanks da nova direita conservadora, bebendo dessa fonte altamente representativa do pensamento norte-americano, destilaram esse método a receitas retóricas simples, de negação do argumento e ataque constante – táticas nada secretas, mas sistematizadas, difundidas e recomendadas por retóricos da alt right como Ben Shapiro (são notórias as suas “aulas”, palestras e livros de como debater com a esquerda[11]) e que, no Brasil, chegaram ao debate público principalmente pela tutoria de Olavo de Carvalho (atraiu bastante atenção um dos primeiros discursos de Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação, durante a Cúpula Conservadora das Américas, em que falou à plateia que os militantes de direita deveriam adaptar as teorias de Olavo para vencer os embates teóricos com os militantes de esquerda simplesmente recusando o diálogo e interrompendo-os com xingamentos[12]).

Isso, trazido à “guerra cultural” online, explica por que a “nova direita” não pensa em termos de vitórias esmagadoras, como é a característica da esquerda, preocupada com o resultado do processo histórico de suas lutas. Diferentemente dos engajados em argumentos marxistas, os agitadores da alt-right não têm perspectiva histórica, são homens do momento. Para eles, uma sequência infinita de minúsculas perturbações – em assuntos aparentemente sem importância, pequenas peças, pequenos memes, pequenos embaraços – traz maior ganho agregado no longo prazo do que um grande esforço mobilizado na política institucional.

Os “grupos de assalto” da alt-right possuem extrema agilidade e fazem a oposição dançar no ritmo da música que tocam – e trocam de música quando os adversários estão começando a aprender os passos. Giram o ciclo de Boyd em velocidade frenética, não esperam os resultados da perturbação anterior serem processados antes de iniciarem uma nova carga, o que mantém o adversário ideológico em estado de estupor, de paralisia, de suspensão. Parece, ao observador, que “nada se possa fazer”, que debater é improdutivo, pois o debate não segue um modelo dialético completo: o diálogo bilateral é substituído por um modelo de comunicação onde só um lado fala (e pauta a fala), o outro, é interrompido antes de concluir sua resposta. O método pode parecer caótico e desorganizado, mas o caos e a desorganização são o método.

O objetivo de tais manobras é colocar os adversários em permanente paralização pela perplexidade, negar um grande embate, um confronto democrático definitivo, e avançar aproveitando a paralisia estratégica – uma perfeita guerrilha de escaramuças. E, frequentemente, como previa Boyd, o manobrar ágil faz o adversário insuspeito acabar por cair justamente na alça de mira.

Um exemplo – um de muitos no mesmo formato – ajuda a compreender esse efeito. No 4chan, fórum anônimo que é popular reduto da alt right americana, foi elaborada uma fraude entre os usuários: a ideia de que beber leite seria símbolo de orgulho racial branco. Um dos usuários fez uma montagem com um mapa de regiões onde, por tradição, mais se bebe leite (“lactose hotspots”), criando uma correlação com a brancura da pele dos habitantes e dando à mensagem acentuado tom racista. A ideia seria ver até onde a imprensa poderia ser ridicularizada, o que ocorreu com relativa facilidade: em pouco tempo, sem saber da fraude, e diversos veículos noticiaram que beber leite seria uma espécie de código de comunicação nazista[13] [14] [15] [16] [17]

O passo seguinte da fraude seria executar o código ostensivamente, negar a intenção e rir da imprensa noticiando com preocupação o fato. Isso foi feito em larga escala – inclusive por neonazistas legítimos, que adotaram a ideia, proporcionando à imprensa um papel que, à maioria das pessoas, pareceria absurdo e ridículo: alertar que o simples ato de beber leite seria algo relacionado ao nazismo.

A tática, conhecida como dogwhistle[18], é usada insistentemente pela alt right, com resultados consistentes. Já foram diversos os “símbolos da extrema-direita” arquitetados no 4chan e outros fóruns anônimos com o objetivo de fazer a imprensa andar em círculos, se desgastar e efetivamente direcionar sua atenção para miragens.

Quase a totalidade desses símbolos falsos é adotada efusivamente no Brasil pelos filhos do presidente Bolsonaro, seus aliados parlamentares e apoiadores ideológicos. Quando, por exemplo, a imprensa internacional começou a noticiar que o uso da estética vaporwave[19] seria um “símbolo da extrema-direita”[20] [21], Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Abraham Weintraub e um sem-número de apoiadores bolsonaristas a adotou imediata, ostensiva e sincronizadamente, em seus perfis nas redes sociais e material de comunicação, certamente com o objetivo de provocar revolta pela ostentação do código nos poucos que podiam interpretá-lo. A própria ostentação do “copo de leite” não passou batida por aqui: em uma semana onde praticamente toda cúpula ideológica bolsonarista participou de um “desafio do leite”, os mais indiscretos, como Allan dos Santos, o fizeram aos risos, louvando a mensagem “subliminar” e dizendo que “entendedores entenderão”[22].

No governo Bolsonaro a eficiência desse método de carga rápida se tornou clara. O presidente, replicando a experiência de Trump – método que caiu como uma luva em suas características pessoais históricas – foi pródigo em declarações polêmicas, despropositadas, acintosas e revoltantes. Institui, inclusive, duas novidades: o “cercadinho”, local onde frequentemente começava o dia, desperdiçando tempo útil da concorrida agenda presidencial para um contato com poucos apoiadores, que o auxiliavam naquele espetáculo midiático, e as “lives”, conversas informais periódicas com seus apoiadores nas redes sociais. Embora o público-alvo imediato fosse sua diminuta base de fãs, o que falava nesses dois espaços frequentemente pautava o noticiário do resto do dia, gerando perplexidade e indignação pelo teor dos disparos.

O resultado é que a ação de pastas importantes, como a Economia, passou a perder espaço para efemeridades, em tese, menos urgentes, mas que impressionavam pela crueza, potencial de revolta e, sobretudo, implacável frequência. O público por vezes era surpreendido com uma seleção de não uma, mas várias gafes diárias que os telejornais levavam ao seu testemunho, tornadas inclusive mais espetaculares pela superposição a contextos dramáticos, como uma grave pandemia – e todo o caos sanitário e econômico que ela produz. Não só as ações do presidente eram motivo de alarde, como também suas omissões.

Mas o público não era o adversário a quem se devia paralisar. A imprensa era a principal atingida. A cobertura jornalística se tornou uma enumeração de horrores, brigas e polêmicas, cansativa, sem ordem ou sentido. À parte de canais que podiam se dar ao luxo de uma cobertura intensa, 24 horas por dia, quem dependia de telejornais diários de uma hora de duração passou a viver em um mundo incompreensível, repetitivo e cansativo. A uma parte do público, a própria instituição da imprensa pareceu ter se contaminado com a qualidade rasa do que é forçada a noticiar – ao ponto de passar a impressão de parcialidade, de deliberado antagonismo com o próprio país, de falta de otimismo ou patriotismo, como se se regozijasse com a tragédia, torcesse pelo fracasso.

A “mangueira de bombeiro” de falsidades

Mas não só a sobrecarga de estímulos rápidos e manobras diversionistas, herdada da experiência da alt right americana, flagela a imprensa.  A técnica de comunicação de Bolsonaro também é tributária de outra influência, datada do período soviético mas aperfeiçoada, principalmente, por Vladimir Putin a partir da invasão da Crimeia em 2014: a desinformação em massa com o simples objetivo de neutralização da imprensa de oposição.

O modelo de Putin é simples, bruto e efetivo. Não se trata de uma disputa pela verdade, mas sim, da sobrecarga do adversário pela simples repetição insistente de uma grande quantidade de mentiras – inconsequências, de até fácil verificação e checagem, pouco elaboradas e casuais, mas que mesmo assim promovem, pelo aspecto quantitativo, um bloqueio na capacidade de resposta hábil do adversário. A Rand Corporation, instituto de pesquisa civil americano ligado à defesa, identificou essa estratégia de comunicação como “firehose of falsehoods”[23] [24].

O modelo se funda em alguns fatos. Primeiro, não há punição para a simples mentira dita pelo governante, desde que esta não configure crime mais grave (ainda mais em países acentuadamente autoritários, como a Rússia, e em outros países onde a tática passou a ser empregada, como a Hungria, de Viktor Orbán) – de fato, há uma larga margem de tolerância para a mentira na política, questão que parece apenas afeita ao cálculo eleitoral. Segundo, o esforço (material, laboral, humano) de desmentir uma alegação é muitas vezes maior do que o esforço de, casualmente, mentir: envolve checagem, pesquisa, contraprova. O “loop” do ciclo de Boyd do mentiroso é mais ágil e mais rápido do que o do checador. Terceiro, a imprensa, pela própria missão institucional, está relativamente obrigada a dispender recursos (que são limitados) com a verificação da mentira, então, a mentira dá ao governante certo poder de definição sobre a pauta jornalística.

Putin notou isso na invasão da Crimeia, em 2014. Ao invés de justificar a ação das tropas russas, simplesmente negou qualquer ato de invasão ou presença de tropas – mesmo contra toda a evidência, definindo, ao final, a pauta sobre a realidade ou não da invasão (fato, afinal, notório) e abandonando o debate das razões, que não o favorecia. No final, o líder russo conseguiu prender a imprensa em um ciclo repetitivo e infértil.

A técnica foi utilizada por Putin, novamente, para espalhar falsidades claras e diretas sobre a participação russa na guerra da Síria, para espalhar mentiras sobre membros da Otan e para negar interferência nas eleições americanas de 2016, sempre de modo consistente.

A tática chegou ao Brasil, novamente, através dos EUA. Trump adotou um modelo de comunicação parcialmente inspirado por Putin, em parte devido à admiração de seu estrategista, Steve Bannon, pelo método, que se provava também vitorioso na Hungria. Bannon chegou à família Bolsonaro através da influência de Olavo de Carvalho, munindo a nova direita brasileira, ao mesmo tempo, com as influências americanas e russas.

A “firehose of falsehood” é particularmente perniciosa pois se aproveita de alguns efeitos e mecânicas psicossociais influentes sobre o resultado da opinião pública. Primeiro, organicamente, pelo menos algumas pessoas irão dar crédito à mentira. Entretanto, pesquisas mostram que a repetição do conteúdo mentiroso pelo checador, no ato da checagem, mesmo com todo o alerta, também promove a mentira[25]. A mentira original também é favorecida por um maior poder de convencimento da primeira versão em relação à revisitação da matéria (por isso os analistas da Rand Corporation advogam que a prevenção, ou forewarning, pode ser mais eficaz que a desmentida posterior). Por ser um empreendimento geralmente multicanal, total, a mentira disseminada se beneficia de um efeito de ressonância: o ganho de crédito de uma mensagem pela repetição em canais e fontes diferentes.

O fato é que está estabelecida uma luta desigual, que importa em bem maior esforço e dificuldade do lado da imprensa. Mas se a análise da doutrina de Boyd e das considerações da Corporação Rand ajudam a entender as causas da dificuldade, também ajudam a apontar para caminhos de contra-ataque. E isso não passa pelos caminhos ortodoxos da contrainformação, que restam obsoletos e ineficientes frente a esses novos cenários, mas pela reestruturação dos mecanismos de comunicação e democráticos, para responder com agilidade a essa inversão moderna que transforma a comunicação política não em uma guerra, mas em uma permanente, cansativa, custosa e atritiva guerrilha.

Douglas Oliveira Donin é mestre em Direito Civil e Empresarial e especialista em Direito Internacional e Direito da Integração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisa as relações da tecnologia e das redes com o Direito, a política e a democracia.

[1] Plano que envolvia a explosão de bombas em diversas instalações militares e civis, como método de pressão do comando do Exército por aumentos salariais.

[2] Organizações informais de agitadores virtuais (trolls, na linguagem da rede), cujo objetivo é promover distensões, brigas, ofensas, falsidades, acusações ou fomentar de outras formas indisposição e dissenso entre usuários das redes sociais.

[3] “Direita alternativa”, ou “nova direita”, fenômeno de renovação conservadora bem mais ligado à internet, ao uso do humor/escárnio, aos memes, à comunicação de guerrilha.

[4] Nagle, A.. Kill all normies: Online culture wars from 4chan and Tumblr to Trump and the alt-right. Hampshire: John Hunt Publishing, 2017

[5] Mayer, J.. Dark money: The hidden history of the billionaires behind the rise of the radical right. New York: Doubleday, 2016

[6] Barsotti, S.. “Weaponizing social media: Heinz experts on troll farms and fake news”. 2018. Disponível em: </media/2018/October/troll-farms-and-fake-news-social-media-weaponization>. Acesso em: 4 jul. 2020

[7] Nelson, A.. Shadow network: Media, money, and the secret hub of the radical right. Londres: Bloomsbury Publishing, 2019

[8] Arendt, H.. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2013

[9] Apesar de considerado um dos maiores pilotos de todos os tempos, jamais teve registrada um abate. Chegou a voar na Guerra da Coreia, mas foi transferido na eclosão da Guerra do Vietnã para posições de comando e consultoria

[10] Brehmer, B.. “The dynamic OODA loop: amalgamating Boyd’s OODA loop and the cybernetic approach to command and control”. In: 11th International Command and Control Research and Technology Symposium 2005, McLean. Anais… In: Proceedings of the 11th International Command and Control Research and Technology Symposium

[11] Shapiro, B.. How to debate leftists and destroy them: 11 rules for winning the argument. Sherman Oaks: David Horowitz Freedom Center, 2014

[12] https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,irmaos-weintraub-defendem-adaptar-teoria-de-olavo-de-carvalho-para-vencer-a-esquerda,70002638650

[13] https://metro.co.uk/2017/02/21/secret-nazi-code-kept-hidden-by-milk-and-vegan-agenda-6463079/

[14] https://www.mic.com/articles/168188/milk-nazis-white-supremacists-creamy-pseudo-science-trump-shia-labeouf#.oJvzWRvct

[15] https://www.washingtontimes.com/news/2017/mar/17/milk-new-symbol-racism-donald-trumps-america/

[16] https://forward.com/fast-forward/362986/got-nazis-milk-is-new-symbol-of-racial-purity-for-white-nationalists/

[17] https://www.vice.com/en_us/article/kbka39/got-milk-neo-nazi-trolls-sure-as-hell-do

[18] “Apito de cachorro”: difundir mensagens que só alguns conseguem interpretar, geralmente propiciando sentimento de impotência nos poucos ultrajados.

[19] Estética retrofuturista que remete ao dos anos1980, às imagens em VHS, ao neon, ao eletrônico, com paleta de cores azuis e lilás.

[20] https://www.vice.com/en_us/article/mgwk7b/trumpwave-fashwave-far-right-appropriation-vaporwave-synthwave

[21] https://www.splcenter.org/hatewatch/2017/10/17/fashwave-electronic-music-alt-right-just-more-hateful-subterfuge

[22] https://twitter.com/rvianna/status/1266516855293988864

[23] “Mangueira de bombeiro de falsidades”, em tradução aproximada.

[24] Paul, C.; Matthews, M.. The russian “firehose of falsehood” propaganda model. 2016. Disponível em: <https://www.rand.org/pubs/perspectives/PE198.html>. Acesso em: 9 ago. 2019.

[25] Tworek, H.. Political communications in the “fake news” era: Six lessons for Europe. Washington, D.C.: German Marshall Fund of the United States, 2017. Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/resrep18898>. Acesso em: 6 jul. 2020.