Geologia e potencial metalogenético dos elementos de terras raras no Brasil

Atualmente, uma das estratégias mais rápidas e de menor investimento para ampliar a oferta consiste na recuperação desses elementos de terras raras como subprodutos de operações minerais já existentes, como aquelas voltadas à extração de estanho, nióbio e fosfatos. Essa abordagem permite o aproveitamento da infraestrutura instalada e dos processos de cominuição já estabelecidos. Apesar do expressivo potencial, a exploração comercial ainda enfrenta desafios tecnológicos significativos, incluindo a necessidade de desenvolvimento de rotas metalúrgicas específicas para minérios intemperizados ultrafinos, bem como o gerenciamento de subprodutos radioativos, como tório e urânio, presentes em diversas jazidas. O refino individual dos 17 elementos permanece como um processo de elevado custo, alta complexidade tecnológica e amplamente concentrado sob domínio da China.

Por Wilck Guilherme de Campos e Wagner da Silva Amaral

As chamadas terras raras vêm ganhando cada vez mais destaque no cenário mundial por serem fundamentais para tecnologias modernas e para a transição energética. Apesar do nome, esses elementos não são exatamente raros na natureza, mas dificilmente aparecem concentrados em volumes economicamente viáveis. O grupo é formado por 17 elementos químicos metálicos, incluindo os lantanídeos, o escândio e o ítrio, amplamente utilizados em setores estratégicos da economia global.

Os elementos terras raras (ETRs) são insumos essenciais para tecnologias de alta precisão e desempenham papel estratégico no contexto da transição energética global. O avanço acelerado da Inteligência Artificial tem ampliado significativamente a demanda por energia, intensificando a necessidade de diversificação e modernização da matriz energética, tema amplamente debatido na última década (Takehara et al., 2015; Verma et al., 2024; Wentz et al., 2025). Nesse cenário, a busca por fontes energéticas mais sustentáveis e eficientes tem elevado a relevância dos metais estratégicos, considerados fundamentais tanto para o desenvolvimento tecnológico quanto para a reconfiguração da matriz energética mundial (Verma et al., 2024). Entre as principais aplicações dos ETRs destacam-se a fabricação de ímãs permanentes utilizados em turbinas eólicas e veículos elétricos, bem como seu emprego em smartphones, lasers, catalisadores para a indústria do petróleo e componentes de defesa, incluindo submarinos e aeronaves militares (Ji et al., 2021; Loureiro & Santos, 2013).

Sob a perspectiva geológica, os depósitos de ETR ocorrem predominantemente em complexos alcalino-carbonatíticos, granitos anorogênicos do tipo A, pegmatitos e depósitos secundários, como placeres e argilas iônicas (Campos, 2026; Lottermoser, 1992; Loureiro & Santos, 2013; Toledo & Pereira, 2003; Walter et al., 1995). Sua formação está associada, principalmente, a processos magmáticos e hidrotermais, nos quais a diferenciação extrema de magmas e a interação de fluidos ricos em voláteis (e.g., F, Cl, entre outros) com a rocha hospedeira favorecem a concentração desses elementos. Adicionalmente, a atuação de processos supergênicos, especialmente o intemperismo intenso característico de climas tropicais, amplamente observado no território brasileiro, promove a concentração dos ETRs em perfis lateríticos profundos ou sua adsorção em minerais argilosos (Walter et al., 1995). Devido ao fato de esses elementos formarem óxidos e fosfatos altamente estáveis, resistatos, tendem a serem transportados e formar depósitos tipo placares de acumulações de minerais pesados em canais fluviais, areias de praia e cordões litorais (Takehara et al., 2015). Nesses contextos, os principais minerais portadores de ETRs incluem a monazita (fosfato de LREE), o xenotímio (fosfato de Y e HREE), além de alanita, parisita e cerianita (Loureiro & Santos, 2013).

Inicialmente descobertos em uma mina de feldspato na vila de Ytterby, nas proximidades de Estocolmo (Suécia), por Karl Axel Arrhenius, um mineralogista amador, os elementos terras raras ocorriam no mineral iterbita. Já no Brasil, a primeira ocorrência de monazita em Cumuruxatiba, no litoral baiano, é, a priori, relacionada ao elemento tório (Th), descoberto por Claude-Henri Gorceix, em 1885, em Minas Gerais e na Bahia (Loureiro & Santos, 2013). Embora o Th não seja um ETR, essa descrição é de suma importância, pois a monazita constitui um dos principais fosfatos de ETR. Entretanto, somente durante o final do século XIX e o início do século XX o Brasil figurou como o principal produtor mundial de ETR, explorando areias monazíticas no litoral da Bahia e do Espírito Santo (Loureiro & Santos, 2013). Essas explorações chegaram, no início do século XX, a suprir cerca de 50% do consumo mundial de terras raras, utilizadas na fabricação da liga mischmetal, empregada em isqueiros (Behrsing et al., 2014; Loureiro & Santos, 2013).

Com o passar do tempo, o Brasil perdeu sua hegemonia para os Estados Unidos em decorrência da descoberta de depósitos de ETR associados a carbonatitos, especialmente a partir da Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, desde 1985, observa-se a consolidação do domínio chinês na produção desses elementos (Loureiro & Santos, 2013). Atualmente, a China controla mais de 70% da produção primária mundial, além de concentrar cerca de 85% do refino global. O país utiliza cotas de exportação e mecanismos de controle de preços como instrumentos geopolíticos (Casemiro, 2025; Souza, 2025). Além da China, destacam-se os Estados Unidos, responsáveis por aproximadamente 14% da produção mundial, e a Austrália, com cerca de 4%. Nesse contexto, torna-se essencial o aprofundamento do conhecimento sobre o território nacional no que se refere às ocorrências desses elementos, bem como o desenvolvimento de tecnologias de beneficiamento, de modo a possibilitar que o Brasil amplie sua inserção no cenário geopolítico internacional de forma mais competitiva (Casemiro, 2025; Souza, 2025).

O Brasil possui a segunda maior reserva de elementos terras raras do mundo, estimada em mais de 20 milhões de toneladas (cerca de 23% das reservas mundiais, ficando atrás apenas da China) (Casemiro, 2025). Destacam-se, nesse contexto, o carbonatito alcalino de Araxá, no estado de Minas Gerais; o complexo alcalino de Poços de Caldas, também em Minas Gerais; o granito alcalino Madeira, no estado do Amazonas; e o granito biotítico Serra Dourada, pertencente à Província Estanífera de Goiás (Costa et al., 2020; Souza, 2025; Takehara et al., 2015). Em síntese, as principais reservas brasileiras atuais de ETRs estão predominantemente associadas a intrusões alcalinas e a processos de enriquecimento supergênico. Além desses, há depósitos de ETRs do tipo placer marinho presentes em areias de praia e cordões litorâneos, e.g. Cumuruxatiba (BA), Guarapari (ES) e Buena (RJ) (Costa et al., 2020; Cunha et al., 2025; Takehara et al., 2015).

A exploração mineral de Elementos Terras Raras no Brasil e no mundo evoluiu de uma atividade inicialmente concentrada em depósitos de placeres, representados principalmente por areias monazíticas, para a investigação mais complexa de depósitos primários e associados à alteração supergênica (Antoniassi et al., 2020; Costa et al., 2020; Wentz et al., 2025). Entre os principais métodos empregados na exploração destacam-se o mapeamento de estruturas circulares, frequentemente associadas a pipes carbonatíticos, e o uso de radiometria aérea para a detecção de anomalias de Th/U relacionadas aos ETRs (Wentz et al., 2025). Também são amplamente utilizadas técnicas de amostragem de solos e sedimentos, bem como análises geoquímicas por ICP-OES/MS após digestão ácida. Adicionalmente, testes de lixiviação seletiva com sulfato de amônia têm sido aplicados para confirmar o potencial de depósitos de argila iônica, enquanto ensaios geometalúrgicos buscam avaliar a viabilidade técnica, econômica e ambiental da exploração desses recursos (Antoniassi et al., 2020; Costa et al., 2020; Takehara et al., 2015; Wentz et al., 2025).

Atualmente, uma das estratégias mais rápidas e de menor investimento para ampliar a oferta de ETR consiste na recuperação desses elementos como subprodutos de operações minerais já existentes, como aquelas voltadas à extração de estanho, nióbio e fosfatos. Essa abordagem permite o aproveitamento da infraestrutura instalada e dos processos de cominuição já estabelecidos (Alves et al., 2017; Antoniassi et al., 2020; Loureiro & Santos, 2013). Apesar do expressivo potencial, a exploração comercial ainda enfrenta desafios tecnológicos significativos, incluindo a necessidade de desenvolvimento de rotas metalúrgicas específicas para minérios intemperizados ultrafinos, bem como o gerenciamento de subprodutos radioativos, como tório e urânio, presentes em diversas jazidas. Em síntese, o refino individual dos 17 elementos permanece como um processo de elevado custo, alta complexidade tecnológica e amplamente concentrado sob domínio da China (Antoniassi et al., 2020; Loureiro & Santos, 2013; Takehara et al., 2015).

A simples exportação do minério bruto, na condição de commodity, gera baixo retorno financeiro em comparação aos produtos processados. Enquanto as areias monazíticas eram historicamente comercializadas por valores reduzidos, o európio separado da mistura pode alcançar valor até 800 vezes superior (Antoniassi et al., 2020; Casemiro, 2025). O domínio da tecnologia de separação química permite a produção desses compostos de elevado valor agregado. Para países como o Brasil, o objetivo estratégico consiste não apenas em ampliar a atividade minerária, mas também em estabelecer uma cadeia industrial verticalizada, abrangendo desde a extração mineral até a produção de materiais de alta tecnologia (Casemiro, 2025; Souza, 2025).

Os desafios ambientais associados à exploração desses elementos são recorrentes e relevantes. Muitos minerais portadores de ETR, como a monazita, contêm tório e urânio, o que resulta na geração de rejeitos radioativos, elevando os custos operacionais e exigindo protocolos rigorosos de gestão, armazenamento e monitoramento ambiental (Alves et al., 2017; Takehara et al., 2015).

Wilck Guilherme de Campos é mestrando no Instituto de Geociências da Unicamp
Wagner da Silva Amaral é docente do Instituto de Geociências da Unicamp (wamaral@unicamp.br)

Referências bibliográficas

Alves, F. E. A., Garcia, P. H. V, Cidade, T. P., Assumpção, C. S., & Neumann, R. (2017). Minerais carreadores de elementos de terras raras nos pegmatitos da mina da Volta Grande, Nazareno, MG.
Antoniassi, J. L., Uliana, D., Contessotto, R., Kahn, H., & Ulsen, C. (2020). “Process mineralogy of rare earths from deeply weathered alkali-carbonatite deposits in Brazil”. Journal of Materials Research and Technology, 9(4), 8842–8853. https://doi.org/10.1016/j.jmrt.2020.05.128
Behrsing, T., Deacon, G. B., & Junk, P. C. (2014). “The chemistry of rare earth metals, compounds, and corrosion inhibitors”. In Rare Earth-Based Corrosion Inhibitors (pp. 1–37). Elsevier. https://doi.org/10.1533/9780857093585.1
Campos, W. G. de. (2026). Pegmatitos da província pegmatítica de São João Del Rei (MG): caracterização mineralógica, classificação e potencial mineral (Monografia) (p. 114).
Casemiro, P. (2025, July 25). Terras raras: o que são, onde estão e por que os EUA se importam com elas. G1 Globo. https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2025/07/25/terras-raras-o-que-sao.ghtml
Costa, N. O., Botelho, N. F., & Garnier, J. (2020). Concentration of rare earth elements in the Faixa Placha tin deposit, Pedra Branca A-Type Granitic Massif, central Brazil, and its potential for ion-adsorption-type REE-Y mineralization. Ore Geology Reviews, 123. https://doi.org/10.1016/j.oregeorev.2020.103606
Cunha, I. de A., Almeida, R. C. de, Brod, E. R., Santos, N. P. de S., Neto, I. C., Queiroz, L. C., Silva, G. F. da, Silva, A. D. R. da, & Gaia, S. M. de S. (2025). An overview of the critical and strategic minerals potential of Brazil. Geological Survey of Brasil (SGB-CPRM), 72.
Ji, X., Xia, Q., Xu, Y., Feng, H., Wang, P., & Tan, Q. (2021). “A review on progress of lithium-rich manganese-based cathodes for lithium ion batteries”. In Journal of Power Sources (Vol. 487). Elsevier B.V. https://doi.org/10.1016/j.jpowsour.2020.229362
Lottermoser, B. G. (1992). “Rare earth elements and hydrothermal ore formation processes”. In Ore Geology Reviews (Vol. 7).
Loureiro, F. E. L., & Santos, R. L. C. dos. (2013). O Brasil e a reglobalização da indústria das terras raras.
Souza, L. (2025). Serviço Geológico do Brasil esclarece dúvidas sobre potencial do país para terras raras e minerais estratégicos. Serviço Geológico Do Brasil. https://www.sgb.gov.br/w/servico-geologico-do-brasil-esclarece-duvidas-sobre-potencial-do-pais-para-terras-raras-e-minerais-estrategicos

Takehara, L., Silveira, F. V., & Santos, R. V. (2015). Potentiality of Rare Earth Elements in Brazil. In Rare Earths Industry: Technological, Economic, and Environmental Implications (pp. 57–72). Elsevier Inc. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-802328-0.00004-8
Toledo, M. C. M. de, & Pereira, V. P. (2003). Ocorrência e Variabilidade de Composição dos Fosfatos do Grupo da Monazita em Carbonatitos. Pesquisas Em Geociências, 30(1), 83. https://doi.org/10.22456/1807-9806.19583
Verma, J., Sandys, L., Matthews, A., & Goel, S. (2024). Readiness of artificial intelligence technology for managing energy demands from renewable sources. In Engineering Applications of Artificial Intelligence (Vol. 135). Elsevier Ltd. https://doi.org/10.1016/j.engappai.2024.108831
Walter, A.-V., Nahon, D., Flicoteaux, R., Girard, J. P., & Melfi, A. (1995). Behaviour of major and trace elements and fractionation of REE under tropical weathering of a typical apatite-rich carbonatite from Brazil. Earth and Planetary Science Letters, 136(3–4), 591–602. https://doi.org/10.1016/0012-821X(95)00195-I
Wentz, A. P., Korn, M. das G. A., Anjos, J. P. dos, Medeiros, F. F. de, Modesto, P. H. M., Rodrigues, F. D., Alves, S. S., Porto, A., Felix, C. S. A., Guimarães, E. de L., & Guarieiro, L. L. N. (2025). Rare Earth Elements in Bahia, Brazil: Potential for Global Production. Journal of Bioengineering, Technologies and health, 7(4), 363–368. https://doi.org/10.34178/jbth.v7i4.428