Pesquisadores defendem que o uso da inteligência artificial requer formação docente, transparência e desenvolvimento de pensamento crítico.
Por Aline Bragion e Suzana Amyuni
A inteligência artificial já se tornou parte inevitável da educação. Para os especialistas, o desafio agora é compreender como incorporá-la de forma ética, crítica e pedagógica, sem comprometer a criatividade, a autonomia intelectual e o processo formativo dos estudantes.
O debate ganhou ainda mais espaço na esfera pública após a aprovação, pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), de diretrizes para o uso da IA nas escolas brasileiras. O texto, que segue agora para consulta pública, busca justamente orientar a utilização dessas tecnologias de maneira ética, transparente e pedagogicamente responsável, defendendo princípios como supervisão humana, proteção de dados dos estudantes e fortalecimento do pensamento crítico no ambiente escolar. As diretrizes também reforçam que a inteligência artificial não deve substituir o papel do professor nem reduzir os processos educativos à simples automatização de tarefas — preocupação compartilhada por pesquisadores da área, que alertam para os riscos de a tecnologia reforçar modelos educacionais centrados na repetição de respostas prontas.
Para o coordenador do Laboratório Experimental de Arte-Educação & Cultura (Lab_Arte) da USP, Rogério de Almeida, doutor em Educação, a discussão sobre IA expõe uma tensão entre duas concepções distintas sobre educar. De um lado, está uma perspectiva formativa, em que o estudante se apropria do conhecimento de maneira significativa, incorporando-o à sua forma de compreender e se situar no mundo. De outro, uma lógica mais mecânica baseada na repetição de respostas previamente estabelecidas. “Se a educação for reprodutivista, a IA vai substituir”, afirma.
Apesar do alerta, o pesquisador não vê a inteligência artificial como ameaça. “A tecnologia pode atuar como uma espécie de assistente no processo de aprendizagem, ajudando o estudante a identificar fragilidades e potencializar características individuais mais fortes. Mas para isso, é preciso um período de adaptação das escolas e de maior compreensão das IAs, sem ignorar que elas também vão se aperfeiçoando”, ressalta.
Nessa perspectiva, a noção de educação vai além do compartilhamento de conteúdos. “A educação é um processo de longa duração em que eu me transformo, em que eu me torno aquilo que eu sou, num devir constante”, explica Almeida. O papel da escola, portanto, não pode ser reduzido à entrega rápida de respostas, mas deve envolver experiências capazes de desenvolver reflexão, interpretação e autonomia intelectual.
O vice-diretor do Advanced Institute for Artificial Intelligence de São Paulo, Walter Carnielli, professor do Departamento de Filosofia e pesquisador sênior do Centro de Lógica da Unicamp defende que a IA representa uma ruptura cultural comparável a grandes transformações tecnológicas da história, como o advento da escrita — analogia também feita pelo professor Rogério de Almeida ao mencionar o impacto provocado pela prensa de Gutenberg. Assim como ocorreu com a invenção da escrita, a sociedade precisou aprender novas formas de produzir, transmitir e acessar o conhecimento, o que também exigiu mudanças nos processos educativos.
Os desafios da IA na prática
Enquanto escolas e redes de ensino ainda discutem formas de regulamentar o uso dessas ferramentas, algumas experiências já buscam incorporar a IA diretamente ao currículo escolar. No Piauí, a inteligência artificial se tornou disciplina obrigatória para estudantes da rede pública estadual, em uma iniciativa que busca combinar conteúdos técnicos com discussões sobre ética, pensamento crítico e impactos sociais da tecnologia. A proposta procura ensinar os alunos a utilizar ferramentas de IA e a compreender seus limites e efeitos sobre a sociedade.
Em contraste, o uso da inteligência artificial pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo na elaboração de materiais didáticos gerou críticas entre especialistas e professores. A adoção da ferramenta levantou questionamentos sobre possíveis erros conceituais, perda de qualidade pedagógica e redução da participação docente na produção dos conteúdos escolares. O caso intensificou o debate sobre os limites da automatização na educação e sobre os riscos de utilizar soluções orientadas apenas pela eficiência técnica.
Os desafios da implementação já começam a aparecer em pesquisas. Um estudo em desenvolvimento conduzido por pesquisadores da USP, Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e do Instituto Significare aponta que 80,3% dos educadores afirmam ter apenas conhecimento básico ou limitado sobre inteligência artificial. Apesar disso, 80,6% demonstraram interesse em aplicar a tecnologia no contexto educacional.
O levantamento identificou ainda obstáculos estruturais importantes, como falta de treinamento docente (43,4%), ausência de suporte técnico (41,9%) e limitações de infraestrutura, incluindo acesso insuficiente a computadores, internet confiável e recursos multimídia nas escolas. Os dados divulgados em um pré-print ainda são preliminares mas já apontam para a necessidade mencionada pelos pesquisadores brasileiros.
“Em vez de usar IA para substituir o professor ou para facilitar a reprodução, as secretarias de educação poderiam investir em cursos de formação de professores da rede pública para que eles utilizem a IA no seu dia-a-dia, mas também para que eles ensinem os estudantes a utilizá-la”, opina Almeida.
Nesse contexto, Carnielli ressalta os riscos de o educando se deixar levar pelos enganos produzidos pela IA. Para explicar essa relação, ele recorre ao “paradigma do espelho”, formulado pelo psicanalista Jacques Lacan. Assim como a imagem refletida no espelho não corresponde exatamente ao sujeito real, a inteligência artificial produz uma representação distorcida da experiência humana.
Para ele, trata-se de um simulacro: uma imitação capaz de reproduzir padrões de linguagem e comportamento sem, de fato, possuir consciência ou experiência humana. “Aquilo que você vê no espelho não é você”, explica. Compreender essa diferença, argumenta, é essencial para evitar que estudantes atribuam à IA capacidades humanas que ela não possui.
Outro aspecto ressaltado é a tendência de sistemas de IA sempre validarem aquilo que o usuário diz ou pensa. Carnielli associa esse comportamento ao conceito de sycophancy, termo utilizado para descrever respostas complacentes ou bajuladoras produzidas pela inteligência artificial. “Ela fala: ‘que ótima ideia’, ‘ninguém nunca pensou nisso’, e você se engana, você se infla”, comenta.
Embora reconheça que esse tipo de interação possa parecer acolhedora, Carnielli alerta para os riscos desse excesso de validação. Na avaliação do pesquisador, esse mecanismo pode enfraquecer a capacidade crítica e a disposição para o confronto de ideias, aspectos considerados centrais no processo educativo.
Políticas educacionais
Apesar das preocupações levantadas pelos pesquisadores, a inteligência artificial não é vista como um risco na educação. Para Almeida, o problema central está na forma como políticas educacionais vêm reduzindo o processo educativo à mera instrução técnica e ao desempenho mensurável.
“As verdadeiras ameaças da educação são os gestores das políticas públicas que fazem com que ela se transforme em uma espécie de instrução, perdendo de vista o aspecto da formação humana”, afirma.
Para Carnielli, a sociedade já entrou em uma nova etapa tecnológica e precisará aprender a lidar com ela de maneira crítica e responsável. “Nós ganhamos um monte de dragões e agora temos que aprender a voar com eles”, conclui.
Aline Bragion é educadora, doutora em linguística e aluna da especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp.
Suzana Amyuni é jornalista, pós-graduada em gestão da comunicação jornalística e aluna da especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp.