Colonialismo digital, um novo nome para a velha exploração

Em Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana, Deivison Faustino e Walter Lippold desmascaram como as Big Techs atualizam velhas estruturas de opressão e racialização, agora também no cenário digital.

Por Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Muito do que acontece por trás das tecnologias digitais utilizadas cotidianamente, como computadores e celulares, não é conhecido amplamente. Além dos princípios computacionais e físicos dos bits e transistores, os processos sociotécnicos envolvidos são opacos – propositalmente. Quando revelados, percebe-se que as tecnologias digitais não são tão inovadoras assim, pois reafirmam dinâmicas antigas de dominação, colonialismo, exploração, imperialismo e racismo.

Esses são alguns dos pontos abordados na obra Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana, publicada em 2023 pela Boitempo, de autoria de Deivison Faustino e Walter Lippold, ambos acadêmicos que refletem e pesquisam o tema. 

O livro analisa como as tecnologias digitais cotidianas — em sua maioria propriedades de enormes empresas como Alphabet (Google) e Meta (Facebook, WhatsApp, Instagram), por exemplo — atualizam e intensificam o modo de exploração capitalista, ao expropriarem de seus usuários o máximo possível de dados e trabalho não remunerado.

Tais corporações, também conhecidas como Big Techs, acumulam quantidade inimaginável de dinheiro e poder ao controlar a maioria dos meios e processos digitais que “permitem” que as comunicações ocorram, empregos funcionem, relacionamentos tenham match. De maneira silenciosa, esses players instauraram um regime chamado por Faustino e Lippold de colonialismo digital, que coloca o Sul Global novamente como colônia a ser explorada. Agora, a commodity são os dados e o trabalho feito de forma não remunerada (ao verificar imagens, por exemplo) ou muito mal remunerada, em trabalhos de moderação de conteúdos abusivos e discurso de ódio na esfera digital.

A obra apresenta a impossibilidade de separação de três conceitos: capitalismo, colonialismo e racismo. Baseados principalmente em escritos do filósofo e psiquiatra martinicano Frantz Fanon, os professores Faustino e Lippold explicam como a racialização foi a base necessária para a exploração colonial, ao colocar os povos não brancos e não europeus em condição de serem explorados.

Assim, funda-se o sistema que permitiu a colonização clássica, expropriando das colônias riquezas, escravizando populações que passam à condição de não humanos, promovendo genocídio e epistemicídio, dominando povos, culturas e imaginários, que hoje se refletem nas desigualdades sociais e raciais.

Sistema que, por sua vez, é também replicado nos meios digitais. Como constantemente lembram os autores de Colonialismo digital, não há software sem hardware, dando destaque à materialidade da tecnologia. As nuvens que hospedam os dados não são estruturas leves e efêmeras como o nome pode transparecer. Na verdade, são enormes data centers que gastam grande quantidade de recursos, como água e energia, emitem poluentes, aquecem sistemas hídricos e necessitam de terras raras obtidas pela mineração – geralmente em áreas que não deveriam permitir esse tipo de atividade.

Em Colonialismo digital também se discute a ideia de soberania a partir da grande influência das Big Techs estadunidenses, assim como o mito da neutralidade da tecnologia, denunciando como os sistemas desenvolvidos e detidos pelo Norte Global representam interesses e vieses específicos.

Frente a tantos desafios, os capítulos finais da obra indicam a necessidade de uma luta anticolonial contemporânea, que exigirá a superação das infraestruturas digitais  nos modelos predominantes atualmente. Movimentos como o de hacktivismo e de software livre são importantes para pensar como promover a soberania digital, não somente no Brasil, mas em todo o Sul Global.

A leitura de Colonialismo digital certamente é pertinente para compreender as amarras tecnológicas, simbólicas e concretas que perpetuam as desigualdades em todos os meios.

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira é bolsista de jornalismo científico (Fapesp, processo 2025/24158-0) no ICMC/USP, especialista em jornalismo científico (Labjor/Unicamp) e doutorando em ensino de ciências (PIEC/USP).