Pesquisas mostram que estratégias lúdicas, competições e intervenções psicológicas podem prevenir ou reduzir a ansiedade matemática, fortalecendo a confiança e o interesse dos estudantes
Por Suzana Amyuni
A matemática assusta menos quando vira jogo, história ou desafio coletivo. Em escolas e pesquisas científicas, recursos lúdicos e terapias vêm mostrando que é possível reverter a ansiedade matemática e recuperar o prazer de aprender. Ao contrário do que muitos podem pensar, as ferramentas utilizadas vão para além dos jogos eletrônicos, ampliando o acesso já que não exigem uma infraestrutura escolar diferenciada.
Um exemplo é a história do conde de Buffon, que na corte de Luís XV foi nomeado diretor do Jardim do Rei. Após uma queda, contudo, passou meses de pernas imobilizadas e para se distrair, observava o piso ladrilhado e arremessava no chão a haste do cachimbo notando que ela tinha o mesmo comprimento da largura dos ladrilhos, mas às vezes cruzava as linhas entre as peças, outras não. Daí surgiu o jogo do ladrilho, que levou as crianças a visualizarem nessa brincadeira um grande tabuleiro, onde se podia lançar moedas aleatoriamente.
Reescrito didaticamente com personagens e atividades, o conto convida as crianças a refletirem sobre os fatores que contribuíam para que um deles pudesse ganhar a aposta e ver sua moeda inteiramente dentro de um ladrilho, num lançamento aleatório. Parte integrante da dissertação de Karoline Marcolino Cardoso, orientada pelo pesquisador Ailton Paulo de Oliveira Júnior, da Universidade Federal do ABC (UFABC), a ferramenta é apenas uma das inúmeras possibilidades de lidar com o medo, a tensão ou preocupação que tantos estudantes sentem ao se deparar com números. Esse estado emocional pode prejudicar o raciocínio, a memória de trabalho e o desempenho, mas pode ser prevenido e reduzido.
Uma das frentes estudadas pela academia e aplicadas em escolas é justamente a das tecnologias educacionais e jogos “sérios”, que tornam o aprender mais lúdico e menos ameaçador. Para o pesquisador, trabalhar com jogos é uma possibilidade potente para desmistificar a ideia da matemática como “bicho-papão”.
“Uma das melhores maneiras de quebrar esse aspecto da ansiedade é trazer um ambiente mais leve e lúdico. O jogo, o conto ou o paradidático desviam o foco do medo e permitem que o aluno aprenda brincando, quase sem perceber”, analisa.
Em suas pesquisas, a equipe desenvolveu tanto jogos de tabuleiro (com cartas de perguntas e respostas sobre probabilidade) quanto versões digitais. A validação envolveu aplicação em escolas e análise do ambiente de aprendizagem, considerando a competição saudável, a interação em grupo e a intencionalidade didática de cada carta. “Não é o jogo pelo jogo. Documentamos o passo a passo para que o professor se aproprie da estrutura e crie novas perguntas com objetivos claros, usando o jogo como diagnóstico, reforço ou avaliação”, explica.
Há, porém, um alerta metodológico: as turmas reagem de modo diverso a recursos manipuláveis ou digitais; por isso, planejar variações e observar a “variabilidade” do contexto é parte do desenho pedagógico. O grupo também tem investido em narrativas, como o conto de Buffon, personagens e livros paradidáticos que encenam situações de probabilidade e estatística em linguagem acessível.
Doutor em educação com foco em didática e graduado em estatística, Oliveira Júnior liderou uma pesquisa que avaliou as atitudes de 180 estudantes de um curso interdisciplinar de probabilidade em uma universidade federal paulista. Adaptando a escala de Elena Auzmendi (que inclui alternativas como concordo – parcialmente ou totalmente –, neutro e discordo), os pesquisadores observaram que a dimensão “utilidade” foi a mais bem avaliada, seguida de confiança e motivação.
Ao todo, 87,8% dos estudantes disseram considerar a disciplina Probabilidade necessária para a carreira; 86,2% concordaram que, caso se empenhassem, dominariam os conteúdos probabilísticos; e 83,9% discordaram da afirmação “a probabilidade pode ser útil para aqueles que estão envolvidos na pesquisa, mas não para outros profissionais”, demonstrando que reconhecem a importância desse conhecimento.
Já o componente afetivo mostrou fragilidade: os estudantes não demonstraram prazer em estudar probabilidade, indicando um campo fértil para estratégias que tornem a experiência mais agradável. Perceber essa tendência no comportamento ajuda a desenhar intervenções precisas para reduzir atitudes negativas e fortalecer as positivas.
Outros recursos
A segunda frente de enfrentamento da ansiedade matemática mira as olimpíadas e competições matemáticas. Para além de rankings e medalhas, seu valor pedagógico está em construir trajetórias de desafio progressivo, mentorias e comunidades de prática. Em escolas públicas, clubes de matemática e preparatórios para a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) funcionam como espaço de estudo colaborativo, onde erros são entendidos como etapas do aprendizado. Mais do que “selecionar talentos”, competições bem mediadas convertem curiosidade em autonomia, e pressão em metas parcimoniosas, uma mudança que afeta diretamente a percepção de ameaça.
A terceira frente reúne intervenções psicológicas estruturadas. João dos Santos Carmo (UFSCar), pesquisador em análise do comportamento e ensino-aprendizagem da matemática, coordena um programa de auxílio a estudantes com ansiedade matemática, já testado amplamente em escolas públicas.
“Nem sempre a ansiedade é totalmente reversível, mas pode ser significativamente reduzida”, pontua. O programa atua em três blocos: autocontrole emocional, com técnicas como respiração diafragmática, relaxamento e mindfulness, para que o estudante gerencie suas reações; hábitos de estudo específicos para matemática, incluindo planejamento do ambiente físico, revisão sistemática antes e depois da aula e combate à procrastinação, envolvendo orientações à família; e habilidades sociais em sala, tais como saber pedir a palavra, registrar dúvidas, solicitar feedback do professor, lidar com a exposição diante dos colegas. A formação inclui instrumentos diagnósticos, protocolos de aplicação e devolutivas para estudantes, famílias e docentes.
Carmo destaca o papel da prevenção por meio da “resiliência matemática”, modelo desenvolvido no Reino Unido por Sue Johnston-Wilder e colaboradoras, que propõe empoderar estudantes para lidar com a matemática com segurança, mesmo sem se tornarem especialistas. “O foco está em reduzir fatores de risco, como interações humilhantes, punição com exercícios ou metas irreais impostas pela família, e ampliar fatores de proteção, que vão desde o clima de respeito e mediação cuidadosa de linguagem e símbolos, até rotinas de estudo viáveis”, relata.
Ele também chama atenção para distinções conceituais importantes: discalculia do desenvolvimento e acalculia (pós-lesão) não são sinônimos de ansiedade matemática e rótulos apressados podem agravar sentimentos de baixa autoeficácia. “Evitemos falar em ‘epidemia de ansiedade matemática’. A palavra epidemia sugere patologia contagiosa e só aumenta o pânico”, alerta.
Reduzir a ansiedade matemática depende de um ecossistema integrado. Professores que planejam experiências lúdicas com propósito, escolas que promovem clubes e jornadas de olimpíadas com acompanhamento, famílias que modulam expectativas e apoiam rotinas de estudo e equipes multiprofissionais que ensinam a respirar, organizar-se e pedir ajuda. Tudo isso compõe um caminho possível.
Entre um tabuleiro com cartas de probabilidade, um conto sobre Buffon e uma sessão de mindfulness, vai-se erguendo um ambiente em que o aluno aprende brincando, entende o sentido do que faz e descobre que, com apoio e método, a matemática deixa de ser ameaça para virar linguagem de mundo.
Suzana Amyuni é jornalista, especialista em Gestão da Comunicação Jornalística e pós-graduanda em Jornalismo Científico
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