Brasil tem um dos maiores níveis de ansiedade matemática

Fenômeno atinge professores e alunos, mas ainda falta reconhecimento nas políticas educacionais e apoio psicológico nas escolas

Por Vanessa Ayres Pereira

Na manhã de uma prova, um estudante abre o caderno de questões e sente o corpo reagir: o coração acelera, as mãos tremem e os olhos se enchem de lágrimas. A professora percebe o desconforto e tenta acolher, mas se pergunta com genuína preocupação: o que aconteceu? O que devo fazer? A cena, presente em escolas brasileiras, não é um caso isolado. Ela reflete um fenômeno que afeta milhões de estudantes no Brasil e no mundo: a ansiedade matemática.

Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em inglês) de 2022 sugerem que o Brasil está entre os países com maiores índices de ansiedade matemática entre os participantes avaliados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): o país ocupa a 10ª posição entre 76 nações com dados disponíveis. Embora o tema seja amplamente estudado no país e no exterior, ele ainda não aparece de forma explícita em políticas educacionais brasileiras – o que dificulta a criação de estratégias estruturadas de prevenção e cuidado dentro das escolas.

A ansiedade matemática é um estado de tensão e medo que ultrapassa o nervosismo habitual ao lidar com números, cálculos e avaliações, especialmente em contextos acadêmicos. Esse quadro pode prejudicar o aprendizado, a autoestima e influencia escolhas profissionais.

Para a professora Patrícia Rosana Linardi, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o quadro não deve ser tratado como um transtorno clínico individual a ser medicalizado, mas como um fenômeno social. Segundo ela, currículos rígidos e práticas pedagógicas baseadas em punição constituem ambientes que intensificam o medo da disciplina.

Linardi explica que a ansiedade matemática decorre de experiências acumuladas dentro e fora da escola, incluindo microagressões e padrões culturais que desestimulam, especialmente, meninas e mulheres a se perceberem como competentes na área. As microagressões – muitas vezes naturalizadas como brincadeiras – expõem, constragem ou humilham estudantes, por exemplo, chamando à lousa justamente quem tem dificuldade ou dividindo a turma entre “mais” e “menos inteligentes”. Ainda que sutis ou sem intenção de causar dano, tais práticas operam como uma forma de violência simbólica, contribuindo para o quadro ansioso.

A dissertação de mestrado de Caroline Rodrigues, orientada por Linardi e defendida em 2024 na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que o fenômeno também afeta professores. O estudo, conduzido com docentes da rede pública de Diadema (SP), investigou como microagressões vividas ao longo da escolarização se relacionam com níveis de ansiedade matemática. Quanto mais vivências desse tipo os professores relataram ter vivenciado ao longo da vida, maiores os níveis de ansiedade.

Linardi, que atuou por 12 anos como professora na rede pública, reconhece essa dimensão emocional. “Meu maior pesadelo até hoje é chegar a uma prova sem ter estudado. Esse medo consome – e não é só meu”, confessa.

O interesse de Rodrigues pelo tema nasceu da observação cotidiana. A pesquisadora, que também atua como professora no ensino básico, relata que no período de atribuição de aulas, muitos colegas evitavam lecionar matemática. Alguns diziam ter escolhido a pedagogia justamente para escapar da disciplina, mas acabavam responsáveis por ensiná-la, as vezes sem o apoio formativo adequado.

Embora não haja estimativas nacionais consolidadas sobre a prevalência de ansiedade matemática entre docentes, Rodrigues destaca que seus efeitos merecem atenção: professores ansiosos podem transmitir essa insegurança aos alunos e reproduzir crenças equivocadas como “isso é para gênios” ou “meninos são naturalmente melhores que meninas”, perpetuando desigualdades históricas.

Os achados de Rodrigues dialogam com pesquisas internacionais, como o estudo publicado na revista Developmental Science em 2020, que discute como níveis elevados de ansiedade matemática entre professores do ensino fundamental têm impacto direto no desempenho dos alunos já nos primeiros anos de escolarização.

Agravantes

Para a professora Maria Teresa Zampieri, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), condições precárias de trabalho intensificam o estresse docente e prejudicam a qualidade do ensino. Desde 2024, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo adotou materiais e metas padronizados. Ao supervisionar professores, Zampieri relata que muitos se sentem limitados pelas metas e avaliações externas. Embora esses instrumentos facilitem a preparação das aulas, não contemplam diferenças entre turmas e realidades escolares, reduzindo a autonomia dos docentes na adaptação das estratégias de ensino.

Além disso, professores enfrentam desafios adicionais como debates sobre o uso ético de tecnologias como inteligência artificial e ampliação das lacunas de aprendizagem decorrentes da pandemia de covid-19. A defasagem intensifica a frustração e contribui para a rejeição da disciplina, ao mesmo tempo em que a sobrecarga dos professores prejudica a qualidade das interações em sala de aula.

Estratégias de Enfrentamento

Nas últimas décadas, o Brasil promoveu mudanças curriculares com o objetivo de aproximar a matemática da vida cotidiana. Para a professora Letícia Dias Candido Longo, mestre em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), publicados entre 1998 e 2000, representaram um marco ao propor a valorização do conhecimento prévio dos estudantes. Já a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de 2017 e 2018, avançou ao integrar diferentes vertentes da matemática – como álgebra e geometria – ao longo de toda a educação básica e legitimar metodologias ativas, como jogos, antes vistas com desconfiança por parte dos docentes.

“Foi um passo importante contra a ideia de que matemática não serve para nada”, afirma Longo. Mas ela pondera: “É um processo lento. Os alunos ainda não necessariamente enxergam a importância da matemática para a vida deles”.

Linardi ressalta que, apesar das mudanças curriculares, o país ainda carece de políticas públicas que reconheçam explicitamente a ansiedade matemática. Uma vez reconhecida, uma abordagem essencial, segundo ela, é fortalecer políticas de formação docente que abordem diretamente a cultura de microagressões. Isso inclui revisar práticas punitivas e de valorização do erro como parte natural do processo de aprendizagem, além da adoção de estratégias pedagógicas mais plurais e acolhedoras, com diversificação das formas de avaliação.

Longo observa que oportunidades de formação continuada existem na rede pública, mas nem sempre dialogam com as necessidades dos professores. “Durante meus 11 anos na rede pública, os temas vinham de cima, sem relação com a matemática ou com a sala de aula”, lembra. Hoje, trabalhando na rede privada, vive outra realidade: pode escolher trilhas formativas alinhadas a seus interesses e necessidades, o que evidencia a importância da escuta e da personalização na qualificação profissional.

Zampieri destaca ainda a relevância das parcerias entre universidades e escolas. Projetos de pesquisa temáticos, em que equipes amplas investigam questões educacionais de maior complexidade, e programas de extensão como o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), permitem que licenciandos, professores da educação básica e docentes universitários coplanejem aulas, discutam estratégias de ensino e experimentem novas tecnologias educacionais. Segundo ela, essa colaboração fortalece competências pedagógicas e mantém a universidade conectada às demandas reais das escolas – dois passos importantes para enfrentar a ansiedade matemática.

Longo também defende que a presença de psicólogos nas escolas deveria ser política pública. Nas instituições privadas onde atua, esses profissionais acolhem estudantes em momentos de crise e orientam famílias e docentes. Na rede pública, porém, essa responsabilidade costuma recair sobre professores e inspetores. “Toda escola deveria ter pelo menos um psicólogo”, afirma.

Zampieri complementa que a presença de professores auxiliares em sala de aula é outro elemento importante. Com equipes reduzidas e recursos escassos, docentes têm maior dificuldade de acompanhar estudantes com diferentes ritmos de aprendizagem.

Enquanto mudanças estruturais não se consolidam, práticas cotidianas podem aliviar o sofrimento de professores e estudantes. Para Longo, o primeiro passo é evitar reforçar a ideia de que matemática é “difícil demais” ou que exige talento inato. Linardi e Rodrigues lembram que comentários aparentemente inofensivos podem marcar trajetórias inteiras. Zampieri enfatiza a importância da colaboração entre profissionais: buscar apoio em universidades, participar de rodas de conversa, organizar oficinas e convidar professoras da educação básica como coformadoras.

“Ninguém ensina sozinho”, resume Zampieri – frase que sintetiza o espírito de transformação e acolhimento para enfrentar, todos os dias, o medo da matemática.

Vanessa Ayres Pereira é doutora em Análise do Comportamento, pós-doutora em Ciências Psicossociais e Análise do Comportamento e pós-graduanda em Jornalismo Científico

crédito da imagem: JComp/Magnific