Dirigido por Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin, The Rescue transforma uma história acompanhada pelo mundo em 2018 em um suspense sobre perícia técnica e trabalho coletivo
Por Thabata Oliveira
Imagem: The Rescue (crédito: National Geographic)
Por nove dias, ninguém sabia se os 12 meninos de um time de futebol e seu técnico ainda estavam vivos dentro da caverna Tham Luang, no norte da Tailândia. Então, dois ingleses de meia-idade emergem da água barrenta numa câmara escura, apontam as lanternas para uma fileira de garotos encolhidos na lama e perguntam:
– How many of you?
– Thirteen.
– Brilliant.
A contenção da resposta – um brilliant britânico – diz muito sobre The Rescue (2021), documentário dirigido por Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin para a National Geographic. O filme reconstitui os 18 dias de 2018 em que os garotos, de 11 a 16 anos, e o técnico, de 25, do time Wild Boars ficaram presos na caverna inundada.
O desfecho é conhecido: o mundo acompanhou o caso em tempo real e sabe que os 13 saíram vivos. Ainda assim, o documentário prende porque desloca a pergunta. Não importa tanto se eles sairão, mas como seria possível tirá-los dali.
A operação mobilizou milhares de pessoas, de militares tailandeses e americanos a equipes de bombeamento e especialistas em hidrologia. Mas faltava uma competência que nenhuma instituição possuía. Os próprios SEALs, força de elite da Marinha Real tailandesa, reconhecem no filme que sua experiência não era suficiente para aquela situação: mergulhar em uma caverna inundada exige habilidades muito diferentes das de um mergulho convencional. Quem as dominava era um punhado de civis que praticava espeleomergulho como hobby.
É nesse ponto que Vasarhelyi e Chin fazem o que sabem fazer melhor. Free Solo (2018), que lhes rendeu o Oscar, já acompanhava alguém que dominou um ambiente hostil por pura obsessão – o escalador Alex Honnold em sua tentativa de escalar sem equipamentos de segurança a parede de El Capitan, no Parque Nacional de Yosemite. A mesma obsessão reaparece aqui. O filme mostra a relação de fascínio dos mergulhadores com as cavernas. Muitos eram crianças pouco sociáveis e ruins em esportes coletivos. Nas cavernas encontraram um lugar onde se sentiam confortáveis. A diferença é que The Rescue vai além. Em Free Solo, a perícia serve à superação de um limite pessoal. Aqui, ela é posta a serviço de 13 desconhecidos.
Boa parte da força do filme está em tornar inteligível o ambiente. Tham Luang é um sistema de cavernas de cerca de dez quilômetros sob a serra de Doi Nang Non, e a monção transforma trechos dele em rios subterrâneos de água barrenta e visibilidade nula. Nesse escuro, os mergulhadores avançam guiados por bússola e linha-guia, além dos mapas que o espeleólogo britânico Vern Unsworth havia produzido ao longo de anos explorando a caverna. O conhecimento acumulado em anos de expedições acabou se tornando parte da infraestrutura que tornou o resgate possível.
Os momentos mais decisivos quase não puderam ser registrados em 2018: ninguém filmava em água barrenta e visibilidade nula. O filme precisou reconstruir aquilo que as câmeras não alcançaram, e é dessa reconstrução que vem boa parte de sua força.
O documentário combina arquivo, entrevistas, animações e reconstituições. As animações em 3D foram construídas a partir de um levantamento LiDAR realizado pela National Geographic para a série Drain the Oceans: centenas de escaneamentos a laser e milhares de fotografias deram origem a uma representação digital detalhada da caverna. Com ela, o filme mostra as câmaras, os trechos inundados e as passagens estreitas que, durante o resgate, existiam apenas como um caminho tateado no escuro.
Nas reconstituições, os próprios mergulhadores interpretam a si mesmos em trechos recriados nos estúdios Pinewood, na Inglaterra. Não são atores dramatizando uma aventura alheia, mas os protagonistas repetindo gestos que fizeram anos antes em condições de vida ou morte.
O limite mais visível é quem fala: os meninos e o técnico não aparecem para contar sua experiência. Isso não é escolha narrativa. A Netflix comprou os direitos sobre as experiências do time para sua própria minissérie; à National Geographic coube a dos mergulhadores. Vasarhelyi, em entrevista à IndieWire, conta que tentaram de tudo para obter ao menos um minuto com uma criança ou um pai, em vão. “Foi a experiência criativa mais dolorosa das nossas vidas”, disse. Dos milhares de envolvidos, muitos permanecem anônimos.
Ainda assim, é difícil imaginar um registro melhor do que aconteceu em Tham Luang. Não há um herói: há uma sucessão de problemas concretos e competências que precisam se encaixar. É um documentário sobre perícia técnica e altruísmo do qual é difícil sair sem alguma fé restaurada na humanidade.
The Rescue (2021, 1h49) estreou no Festival de Telluride, venceu o prêmio do público de melhor documentário no Festival de Toronto em 2021 e foi indicado ao BAFTA. No Brasil, está disponível no Disney+.
Thabata Oliveira é bióloga e designer pela USP, pós-graduanda em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp e bolsista Mídia Ciência da FAPESP.