Inseto encontrado pelo grupo de José Albertino Rafael na Amazônia e identificado como do gênero Dysonia (Foto: Divulgação/INPA)

Expedições saem em busca de fauna insuspeita na Amazônia

Equipes de pesquisadores do INPA e da USP descobrem novas espécies escondidas nas copas da árvores e nos topos de montanhas

Por Renato Brocchi

Foto: Inseto encontrado pelo grupo de José Albertino Rafael na Amazônia e identificado como do gênero Dysonia (crédito: Divulgação/INPA)

A algumas dezenas de metros do solo da Amazônia, a copa das árvores carrega um segredo inaudito.

Pelo menos é essa a conclusão preliminar que puderam tirar até agora os professores José Albertino Rafael e Dalton Amorim, coordenadores, respectivamente, do BioDossel (CNPq) e do BioInsecta (FAPESP), dois projetos irmãos que examinam a fauna de insetos nas copas das árvores – os dosséis – da floresta Amazônica.

“Para um dos pontos”, conta Rafael, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), “já ultrapassamos 35.000 espécies, chegando a 40.000” em agosto de 2026.

A área fica em Manaus, na margem esquerda do Rio Negro. É uma das três na floresta que foram equipadas com armadilhas de insetos que se estendem do chão à copa das árvores – as outras duas ficam no município de Iranduba, na outra margem do rio, e em Careiro Castanho, na margem direita do rio Solimões.

A ideia é não apenas coletar espécimes e descrever espécies novas, mas também entender a variação da fauna nessas regiões.

As armadilhas, instaladas em 2024, coletaram insetos continuamente durante 14 meses. Depois, o material genético de centenas de milhares de exemplares é analisado para ajudar a separar as espécies, e os insetos são então examinados por uma rede de mais de 200 pesquisadores de instituições do Brasil e do exterior.

As mais de 35.000 espécies já catalogadas contrastam com o conhecimento disponível sobre os insetos brasileiros: ao todo, em torno de 94.000 espécies são conhecidas em solo nacional, explica Rafael, o que significa que o grupo já identificou um pouco mais de um terço desse número – sendo que muitas são espécies novas. O contraste entre os pontos de coleta também surpreendeu: entre os pontos de Manaus e Iranduba, houve apenas cerca de 12 a 15% de semelhança na fauna coletada. A hipótese inicial de que haveria muita variedade mesmo dentro da floresta parece se confirmar.

Subindo em árvores

“A gente cai, a gente escorrega, a gente tropeça, em alguns lugares é extremamente quente, são horas por dia andando, come mal, às vezes se machuca”, conta Amorim,professor da USP em Ribeirão Preto, que chegou a visitar os pontos de coleta na Amazônia 14 vezes. “Tem risco e são muitas horas de trabalho todos os dias”.

As observações resumem bem grande parte da experiência em campo: um trabalho árduo e que envolve muita experiência prática, às vezes na base da “tentativa e erro”.

O grupo de pesquisadores do INPA, por exemplo, teve de desenvolver um método próprio para a montagem e içamento das armadilhas nas árvores.

Para um bom posicionamento das estruturas, elas foram montadas em algumas plantas especiais – as “árvores emergentes”, que por vezes chegam a 60 metros, ultrapassando a altura média do dossel amazônico. A ideia era instalar as armadilhas ao longo da árvore, de sete em sete metros, “em cascata”, ora vertical, ora diagonal.

Mas não seria prático instalá-las diretamente nessas alturas. Uma primeira tentativa, com um especialista em rapel que conseguia colocar as armadilhas nas alturas, foi deixada de lado – deu certo, mas demorou demais para ser útil. O grupo teve de bolar sua própria estratégia: usaram um big shot, uma espécie de grande estilingue que atira uma fina linha num galho nas alturas; depois, a linha é substituída por uma corda mais grossa e, finalmente, a armadilha é içada por um sistema com roldanas.

“O diferencial do nosso método é que você instala a armadilha e ela começa a coletar ininterruptamente – de dia, de noite, faça sol, faça chuva – pelo tempo que você estipular”, conta Rafael. E os pesquisadores concordam ao afirmarem que, além do material recolhido, um dos grandes feitos dessa empreitada foi justamente o desenvolvimento desse sistema, que, dizem, já pode ser empregado em outras pesquisas do mesmo tipo.

Escalando montanhas

Bruno Oliva Gimenez, pesquisador do INPA veterano de vários projetos com trabalho de campo na Amazônia, concorda com essa visão de Rafael e Amorim: lidar com o material em campo é desafiador. 

Primeiro, muitas vezes é preciso importar o instrumento que se vai usar na pesquisa e, depois, levá-lo a campo, muitas vezes em situações adversas: sem estradas abertas e com a chuva desafiando o equipamento pretensamente “à prova d’água” – mas que não foi pensado para enfrentar os níveis de precipitação e umidade da Amazônia.

Além de tudo, há os problemas diários: o suor, a caminhada, a falta de alimento – e a topografia. “A Amazônia não tem um morro para você subir, para você olhar lá de cima. Você está ali no meio daquele universo verde e você não tem horizonte”, explica Gimenez. “Então, você está ‘afogado’ lá no meio e você não consegue subir”.

Foi nos poucos pontos de quebra dessa monotonia topográfica da floresta – as cadeias montanhosas na parte norte da Amazônia brasileira – que a equipe do herpetólogo da USP Miguel Trefaut Rodrigues se embrenhou por três vezes em 2017, 2022 e 2026.

Os pesquisadores liderados por Rodrigues se aventuraram por áreas montanhosas – a região do Pico da Neblina, a Serra do Imeri e a Serra do Aracá, respectivamente – com o objetivo de estudar as espécies do local, em especial as endêmicas – que ocorrem exclusivamente na região.

“Os resultados mostraram que a fauna que está nessas montanhas amazônicas, pelo menos nas mais altas, não tem absolutamente nada a ver com a Amazônia que está embaixo”, diz o pesquisador ao comentar sobre a segunda expedição. Isso se deve, em parte, às variações ambientais provocadas pelo relevo: é como se, no alto das montanhas, houvesse uma Amazônia de altitude.

As espécies que vivem lá estão adaptadas para o clima mais frio dessas elevações. O aquecimento global, portanto, é um sério problema para elas: cercadas de floresta baixa ainda mais quente, elas não têm para onde fugir. Daí a urgência de estudá-las.

E, para tal, é preciso um esforço hercúleo na expedição: montar uma equipe de cerca de 15 cientistas, acompanhados por militares e jornalistas, despachar entre 500 e 700 kg de material de São Paulo por avião, ser levado de helicóptero pelos militares a um ponto a quase 1.900 m de altitude e ficar algumas semanas embrenhado na mata em busca de animais desconhecidos. Depois, a rotina envolve acordar cedo (às 4h da manhã, se for ornitólogo que precisa se preocupar com os pássaros matutinos) e passar o dia visitando as armadilhas. Aí, é questão de tirar sangue, pele e outros tecidos para a análise e conservar os exemplares em álcool. No fim do dia, dormir no acampamento – se você não faz parte do grupo que deve abrir mão de algumas horas de sono para sair em busca de animais noturnos.

Parte dos resultados das expedições ainda está sendo publicada, mas elas já renderam a descrição de duas famílias novas de anfíbios, Neblinaphrynidae e Caligophrynidae, além de outras espécies novas. As duas famílias recém-descritas têm linhagens que se separaram de seus parentes mais próximos há mais ou menos 50 milhões de anos – “quer dizer, eram animais que estavam ali esquecidos pelo tempo no meio da Amazônia”, diz Rodrigues.

Poucos dias após sua conversa com a ComCiência, Rodrigues partiu para sua terceira expedição em terras altas amazônicas. O preparo, conta ele, envolveu muito do mesmo – seleção de pessoal, envio de material de trabalho para a Amazônia, contato com os militares para o apoio logístico. Os resultados desta vez ainda estão por vir.

As pesquisas presentes e passadas na Amazônia convergem em ao menos um ponto: a floresta é o lugar de uma variedade insuspeita de vida e riqueza natural. “A gente vai à mata e praticamente não vê esses bichos, mas a dois, três metros acima da sua cabeça, existem milhares e milhares de espécies que estão vivendo lá. É a casa delas e elas estão dando sustentabilidade e equilíbrio para a manutenção dessa floresta”, lembra Rafael. “E a manutenção dessa floresta é essencial para a manutenção da vida no nosso planeta.”

Renato Brocchi é jornalista pela USP e pós-graduando em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp