Com mais de 26 mil cavidades naturais registradas no país, pesquisadores brasileiros investigam os registros climáticos e biológicos preservados nas cavernas. Para avançar no conhecimento desses ambientes, é preciso enfrentar desafios que vão do mapeamento de campo à prevenção de infecções por fungos e parasitas.
Por Taimá Furuyama
Foto: Caverna Garganta do Bacupari, localizada em São Desidério, na Bahia (crédito: Lucas Padoan de Sá Godinho)
Em meio à Mata Atlântica do Vale do Ribeira, o imponente portal de 197 metros de altura da Caverna Casa de Pedra, em Iporanga (SP), sintetiza a dualidade do subterrâneo brasileiro: fascínio geológico e risco iminente. Considerada uma joia geoturística do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) e dona do maior pórtico vertical desse tipo de ambiente no mundo, a caverna está fechada à visitação desde 2003, quando uma enxurrada repentina matou um visitante e um guia. Mais de duas décadas após a tragédia, a ciência tenta reescrever esse cenário.
Uma pesquisa de mestrado defendida em agosto de 2026 no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc/USP) por Vanessa Faria Bohrer, sob orientação do geólogo Nicolás Misailidis Stríkis, reconstituiu a dinâmica das enchentes na cavidade para criar ferramentas que avaliem o risco de novas inundações – um passo indispensável para checar se o local poderá, enfim, voltar a receber turistas.
Em relevos cársticos, formados por rochas solúveis como o calcário, a água incorpora ácidos naturais ao atravessar o solo e dissolve a rocha lentamente, abrindo fissuras e galerias. Parte dos minerais dissolvidos volta a se depositar dentro da caverna, formando espeleotemas como estalagmites e estalactites. Eles crescem em camadas e a composição química de cada faixa guarda informações sobre o clima da época em que se formou – registros de chuva e seca muito anteriores às primeiras medições modernas.
Chegar a esses registros é a parte difícil. Segundo o último Anuário Estatístico do Patrimônio Espeleológico Brasileiro (Cecav/ICMBio), o Brasil conta com 26.046 cavidades subterrâneas registradas, espalhadas por biomas que vão do cerrado à floresta tropical. Seja para avaliar a segurança de uma caverna para turismo ou para coletar amostras de difícil acesso, os especialistas enfrentam os mesmos obstáculos: a logística e os perigos reais de trabalhar no subterrâneo. Trilhas que desaparecem na mata, galerias labirínticas e alterações de temperatura exigem um preparo cuidadoso para que a investigação científica não termine em acidente.
Antes da pesquisa, o mapa
Para o geólogo Lucas Padoan de Sá Godinho, doutor pela USP e especialista no estudo de cavernas, muito do que se construiu na espeleologia, ciência que estuda cavidades subterrâneas, nasceu de explorações que não tinham necessariamente objetivos científicos – e essa base empírica é indispensável. “Sem o mapa da caverna, não tem nem como começar a fazer nenhuma pesquisa lá dentro, seja de biologia, geologia ou arqueologia”, explica.
Muitas vezes, quem detém o conhecimento sobre a localização de cavernas ou mesmo sobre o seu interior são moradores locais. Na região de São Desidério, na Bahia, onde Godinho fez o doutorado, uma das maiores cavernas do país, a Garganta do Bacupari, foi descoberta por um jovem entusiasta de cavernas, o Jussyklebson da Silva de Souza. “Ele encontrou uma gruta gigantesca e supôs que outras duas cavernas já conhecidas na região estariam interligadas. Entrou em contato com o Ézio Luiz Rubbioli, do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas https://bambuiespeleo.wordpress.com/ (GBPE), explicou a situação e uma equipe foi verificar”, conta o geólogo. Esse grupo já havia estado no local anteriormente e não viu a entrada da caverna, que foi posteriormente apresentada pelo jovem. Hoje, Souza é guia local e espeleólogo de referência na região.
Planejamento
“É preciso saber planejar uma expedição com muito cuidado e prever todos os riscos”, conta Godinho. O especialista ainda exemplifica: “A caverna é um lugar frio e às vezes a pessoa está com a roupa molhada e pode entrar em hipotermia” – quando a temperatura do corpo cai abaixo de 35°C e pode causar tremores, confusão mental e até morte. Treinado em resgate em cavernas, ele conta que já precisou tirar colegas desse estado mais de uma vez. Em 2025, foram registrados cinco acidentes relacionados à espeleologia no país, segundo a Seção de Espeleorresgate da Sociedade Brasileira de Espeleologia, que reconhece a subnotificação dos casos.
O que se leva para dentro da caverna depende da atividade. Além dos equipamentos de pesquisa, a carga contém materiais de primeiros socorros e de resgate, mantas térmicas, pilhas, fita adesiva, tubo de dejetos (shit tube), barracas, sacos de dormir, água e comida, por exemplo. A vestimenta também é importante e inclui equipamentos de proteção individual (EPIs): camisa de manga comprida, calça, máscara, bota, capacete com lanterna e, em alguns casos, luvas para manipular morcegos – manejo que exige autorização específica e recomenda-se vacinação antirrábica pré-exposição.
Coleta de amostras e atenção constante
Na pesquisa, às vezes é necessário coletar amostras e isso requer atenção especial. A ordem de entrada da equipe é um dos cuidados adotados por Joenny Maria da Silveira de Lima, bióloga e pós-doutoranda do Departamento de Micologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que estuda fungos presentes no guano dos morcegos – as fezes do animal acumuladas no chão das cavernas. “Os responsáveis pela coleta dos fungos do ar entram primeiro, para evitar ao máximo o pisoteio na área da caverna para não subir poeira nem nada do tipo”, descreve. “Só posteriormente a essa coleta, entra a coleta do sedimento e do guano e, por fim, dos espeleotemas.” Nada disso acontece sem permissão legal. A coleta de material biológico e a pesquisa em cavernas e unidades de conservação federais exigem o cadastro pelo Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (Sisbio), do ICMBio, conforme a Portaria 748/2022.
Os estudos também ajudam a identificar riscos biológicos e orientar a visitação. As expedições da equipe de Lima são definidas de acordo com as prioridades do Cecav/ICMBio. “Se existe a possibilidade de a caverna abrir para turismo, precisamos saber quais fungos estão presentes naquele ambiente: se é um fungo patogênico ou não; se a visitação pode ser liberada com uso de máscara ou sem; até qual salão os turistas podem adentrar”, aponta a pesquisadora. Salões com colônias de morcegos e muito guano podem apresentar risco de infecção por Histoplasma capsulatum, fungo que causa a histoplasmose.
O perigo nas cavernas pode aparecer de diferentes formas. Em uma expedição com alunos no Mato Grosso, todos devidamente paramentados, Stríkis percebeu um carrapato no ombro de um aluno. Depois, viu outro em um segundo aluno e, em seguida, nele mesmo. “Carrapato, geralmente, você vê quando está subindo em você: na canela ou no joelho, mas não no ombro. Aí eu olho para cima e vejo os carrapatos se desprendendo dos morcegos”. O grupo deixou o local imediatamente. Já do lado de fora, por volta das 3 horas da tarde, Stríkis viu um morcego voando e ficou alerta: comportamentos diurnos podem indicar que o animal está doente, inclusive infectado pelo vírus da raiva. Associando os riscos, ele procurou a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que informou não haver risco de transmissão de raiva pelo carrapato, pois a transmissão ocorre pela saliva do animal infectado. Mas o pesquisador foi orientado a buscar auxílio médico em caso de sintomas e a informar o serviço de saúde que houve contato com carrapatos, devido à possibilidade de borreliose, uma infecção bacteriana transmitida por carrapatos.
“Eu faço curso de resgate, me reciclo e indico para os alunos. Mas um conhecimento básico de doenças infecciosas ajuda muito e pouca gente dá importância. Já tive colegas que pegaram histoplasmose e leptospirose em cavernas, por exemplo”, diz. A responsabilidade, resume ele citando um amigo, nunca é só consigo mesmo: “Quando você está levando seus alunos em uma visita de campo, você tem que lembrar que está levando o filho dos outros”.
Taimá Furuyama é doutora em ciências (Unifesp). Cursa especialização em jornalismo científico no Labjor/Unicamp e é bolsista Mídia Ciência da FAPESP pela Universidade Federal de São Carlos.