Da interpretação de pesquisas eleitorais a riscos com apostas, dificuldades com números e probabilidades repercutem no cotidiano; especialistas apontam a aprendizagem ativa como um caminho para enfrentar o problema.
Por Aline Bragion e Ane Medeiros
De acordo com dados do Todos pela Educação divulgados em agosto deste ano, mais de 80% dos estudantes que concluem o ensino fundamental e mais de 90% dos que terminam o ensino médio não apresentam aprendizagem adequada de matemática. Segundo especialistas, os efeitos dessa defasagem podem ultrapassar a capacidade de fazer cálculos e afetar também a maneira como as pessoas interpretam incertezas, riscos e probabilidades e, consequentemente, tomam decisões diante de informações quantitativas. “A probabilidade é uma forma de olhar para o mundo”, destaca Roberto Imbuzeiro, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).
A defasagem na aprendizagem matemática também ganha relevância diante das formas pelas quais os jovens acessam informações. Dados do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia mostram que a internet é a principal fonte utilizada por esse público para buscar assuntos relacionados à ciência e à tecnologia. Entre as plataformas mais utilizadas estão Google (87%), Instagram (80%), YouTube (77%), WhatsApp (72%) e TikTok (54%). Nesse ambiente, informações sobre saúde, dados governamentais, riscos ou probabilidades circulam ao lado de conteúdos de diferentes procedências e graus de confiabilidade. A capacidade de lidar com grandezas matemáticas pode facilitar a interpretação de notícias – e blindar contra dados falsos ou tendenciosos.
Quando a questão envolve probabilidades, por exemplo, há outras dificuldades envolvidas. Diferentemente de áreas da matemática que permitem aproximação mais concreta, como a aritmética e a geometria, compreender fenômenos aleatórios exige lidar com algo que não é facilmente observável ou manipulável. Imbuzeiro conta que o tema é considerado difícil de ensinar inclusive por professores.
Essa dificuldade não fica restrita ao ambiente escolar. “Não tenho dúvida de que tem impactos reais de todos os níveis para as pessoas”, afirma Samuel Rocha, professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp. Para ele, conhecimentos matemáticos ajudam a avaliar riscos, interpretar informações e perceber os limites de conclusões construídas a partir de casos particulares.
Quando a matemática entra nas decisões
Um exemplo está nas apostas on-line. Rocha considera que uma noção básica de probabilidade, acompanhada de análise crítica, poderia ajudar parte dos apostadores a avaliar melhor suas chances antes de começar a jogar. “Muita gente entrou no canto da sereia de que podia ganhar dinheiro, mas uma noção mínima de probabilidade e um pouco de análise crítica evitaria que alguns caíssem”, afirma. O pesquisador ressalta, porém, que, uma vez estabelecido o comportamento de aposta, entram em ação outros mecanismos e pode ser necessária ajuda para interrompê-lo.
O raciocínio probabilístico também está por trás das pesquisas eleitorais. Os institutos não entrevistam todos os eleitores: selecionam uma parcela para estimar as intenções de voto da população. O objetivo, explica Imbuzeiro, é chegar a uma amostra que represente o eleitorado e evitar que a escolha dos entrevistados privilegie grupos com determinadas características ou preferências políticas.
Compreender esse procedimento ajuda também a interpretar os resultados. Para Rocha, sem algumas noções matemáticas, o leitor pode não perceber as nuances apresentadas pelos dados ou as tendências que uma pesquisa permite ou não identificar.
A capacidade de distinguir um caso particular de uma tendência geral também aparece quando estão em jogo informações sobre saúde. “Não se pode generalizar algumas informações a partir de pequenos casos, isolados”, diz Imbuzeiro. Saber que uma pessoa melhorou depois de tomar determinado medicamento, por exemplo, não permite concluir que o mesmo tratamento será eficaz para outras pessoas. “O particular não justifica o geral”, resume.
É justamente a presença da variabilidade que tornam necessários estudos capazes de comparar grupos e avaliar resultados. Imbuzeiro explica que pacientes podem reagir de maneiras diferentes a um mesmo tratamento e que nem sempre é possível identificar antecipadamente por quê. “Como existe acaso envolvido, usamos a probabilidade para verificar a chance de aquilo acontecer”, explica. A seleção e a distribuição aleatórias dos participantes, o tamanho da amostra e a análise estatística permitem avaliar se as diferenças observadas são suficientemente consistentes para sustentar uma conclusão sobre a eficácia de um medicamento.
Ensino
Para Rocha, que há mais de 30 anos atua na formação de professores e na produção de materiais didáticos, enfrentar a defasagem passa por uma educação matemática ativa e integrada às experiências cotidianas. Para ele, esse trabalho deve começar nos primeiros anos de escolarização. “A alfabetização e a educação matemática, deveriam ser integradas”, afirma. Enquanto aprendem a ler e escrever, as crianças também podem desenvolver noções como comparação e medida. “A tendência é a aprendizagem ativa, em que o estudante não seja somente o receptor da informação”, afirma. Nesse tipo de abordagem, ele interage com o professor e com os materiais, testa o que aprendeu, apresenta dúvidas e recebe respostas durante o processo, destaca, ele, que também participou da produção da coleção M3 Matemática Multimídia, que reúne vídeos, áudios, experimentos e outros recursos de apoio ao ensino de matemática no ensino médio.
Imbuzeiro também aponta a experimentação como uma maneira de aproximar os estudantes. “Tem muitos conceitos em probabilidade, por exemplo, que você ilustra de maneira simples com brincadeiras e jogos”, afirma. Lançamentos de moedas e dados permitem observar na prática que resultados aparentemente improváveis também fazem parte de processos aleatórios. Ao lançar uma moeda algumas dezenas de vezes, é possível obter uma quantidade consideravelmente maior de caras do que de coroas sem que isso signifique que um dos lados tenha maior probabilidade de aparecer. A experiência permite perceber que sequências que parecem indicar um padrão podem ser resultado da aleatoriedade, do acaso. Para o pesquisador, a probabilidade oferece instrumentos para “tentar domar” o impulso de encontrar explicações e padrões em acontecimentos que podem ser simplesmente frutos do acaso.
Aline Bragion é educadora, doutora em linguística pela Unicamp, aluna da especialização em jornalismo científico (Labjor/Unicamp) e bolsista Fapesp de Jornalismo Científico (Mídia Ciência).
Ane Medeiros é cientista e professora universitária na UFSCar na área de genética e cursa especialização em jornalismo científico no Labjor/Unicamp.