Separação dos materiais ainda é desafio, e investimentos se concentram no setor de ímãs permanentes que têm alta procura pelo mercado devido ao uso em veículos elétricos e turbinas eólicas
Por Bruna Mozer
O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas apenas 1% dessa capacidade é explorada. Um dos setores nacionais mais avançados, entretanto, é o de produção de ímãs permanentes – que usam esses elementos em sua composição. Eles são amplamente utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas e outras tecnologias. O desafio, porém, está na capacidade de separação dos elementos de terras raras, processo hoje dominado por poucos países, como a China.
A separação é uma das primeiras etapas do beneficiamento. Para a produção de ímãs permanentes, por exemplo, são utilizados neodímio e praseodímio e, em alguns casos, disprósio e térbio para melhorar a resistência térmica. O Brasil ainda engatinha nesse processo e, atualmente, produz apenas carbonato, um composto químico misto de elementos de terras raras.
O carbonato é exportado como matéria-prima e retorna ao país com alto valor agregado, já na forma de ímãs ou motores prontos para aplicação. Hoje, essa exportação concentra-se na mineradora Serra Verde, instalada em Goiás.
Para André Luiz Nunis da Silva, pesquisador do Laboratório de Processos Metalúrgicos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), os institutos de ciência e tecnologia (ICTs) estão investindo, de modo geral, na verticalização da cadeia de produção de terras raras no Brasil. “Nosso interesse é conseguir produzir o ímã permanente. Em vez de vender a laranja para depois comprar o suco, queremos vender o suco pronto”, afirma.
Várias instituições são referência e dominam alguma etapa da cadeia produtiva desses ímãs, como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), além de abrigarem importantes projetos. Um deles é o INCT Matéria – materiais avançados à base de terras raras: inovações e aplicações, que contará com cerca de R$ 10 milhões em investimentos nos próximos cinco anos para o desenvolvimento de materiais inovadores a partir desses elementos.
Já o Projeto MagBras, liderado pelo Centro de Inovação e Tecnologia (CIT Senai) de Minas Gerais, com a participação de instituições científicas, fundações de apoio e empresas, conta com investimento total de R$ 73 milhões. Um dos grandes diferenciais do projeto é o LabFabITR, o primeiro laboratório-fábrica de ímãs e ligas de terras raras do hemisfério sul.
André Pimenta, coordenador de pesquisa, desenvolvimento e inovação do CIT Senai, avalia que o Brasil tem know-how sólido, por ser um país minerador, mas afirma que a separação é uma das etapas mais complexas e difíceis e, portanto, um desafio. “Hoje quem trabalha com separação é basicamente a academia, não há indústria focada nisso. Temos, então, um problema de escala”, diz.
Apesar de haver pesquisas relacionadas ao processo de separação, a maior parte dos estudos é voltada para outras etapas de produção dos ímãs. “Isso ocorre porque os elementos de terras raras usados para essa produção têm alto valor agregado, devido à demanda de mercado”, afirma Pimenta.
Da bancada para a indústria
Pimenta e Silva concordam que o Brasil tem sólida base de conhecimento sobre ímãs, e o desafio, agora, é ampliar para escala industrial e comercial. “Não temos uma empresa que produza ímãs permanentes”, afirma Pimenta. No projeto MagBras, por exemplo, as empresas estão diretamente ligadas a universidades e centros de pesquisa. “Como estamos desenvolvendo isso há muitos anos, dominamos a tecnologia em escala de bancada, mas precisamos ir para a escala industrial, por isso, a importância do MagBras, que faz essa conexão com as empresas”, diz Silva.
Para Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP e um dos pesquisadores do INCT Matéria, ainda não está claro o interesse das empresas em dominar toda a cadeia produtiva. Segundo ele, a indústria química brasileira — que seria a responsável pela etapa de separação de terras raras — até agora não demonstrou foco nesse processo. Com os investimentos pesados dos Estados Unidos em fábricas de separação e com o lançamento de uma unidade pelos japoneses na Europa, é questionável se há mercado para os elementos já separados.
“Embora cresça cerca de 5% ao ano, temos que considerar que o mercado de terras raras não é muito grande. Acredito que o desafio comercial é mais determinante do que o técnico, mas uma coisa é certa: se não resolvermos esse problema de separação e não dominarmos essa etapa, não vamos produzir ímã”, afirma Landgraf.
Além disso, atualmente não há mercado significativo para outros elementos além daqueles usados para a produção de ímãs permanentes. Cério e lantânio, por exemplo, têm preço mais baixo pela falta de procura. “Existe uso, mas sem muita demanda, então viram rejeitos”, avalia Silva.
Para Landgraf, a comunidade científica possui maturidade para discutir a exploração de terras raras em um plano mais estratégico, mas tem sido pouco acionada. Atualmente, a questão é debatida pelo Ministério de Minas e Energia, que articula um plano nacional, e pelo Congresso, que aprovou a criação de uma frente parlamentar em defesa das terras raras brasileiras. “A comunidade científica é chamada apenas para questões mais técnicas”, aponta Landgraf.
Mão de obra qualificada será uma demanda
Com o aumento da demanda, a qualificação de mão de obra também será um dos desafios, especialmente nas áreas metalúrgica, mineral e química — em todos os níveis, desde os operacionais até os de gestão.
De acordo com Silva, essa dificuldade envolve tanto a diminuição do número de pessoas interessadas em seguir carreira em engenharias quanto o desinteresse em trabalhar em locais remotos, onde estão as mineradoras. “Muitos dos locais ficam afastados das grandes cidades e centros urbanos. Por isso, o treinamento de pessoas da própria região pode ser uma saída”, afirma Silva.
Outro ponto levantado por Landgraf é a falta de espaço no Brasil, neste momento, para que profissionais especializados já possam atuar – fazendo com que muitos sigam para o exterior levando uma expertise importante.
Bruna Mozer é jornalista na Secretaria Executiva de Comunicação (SEC) da Unicamp e responsável pelas mídias sociais da Universidade. Possui MBA em marketing digital e atualmente é aluna do curso de jornalismo científico (Labjor/Unicamp).