Mais do que elementos químicos: terras raras são ponto de encontro entre ciência, economia e geopolítica

A disputa por terras raras é, em essência, a disputa pelo futuro: energia limpa, segurança digital, autonomia militar e estabilidade econômica. E, como mostram os dados, nenhuma dessas dimensões pode ser compreendida isoladamente — trata-se de um sistema global interdependente, no qual ciência, política e recursos naturais caminham lado a lado. 

Por Felipe Toledo

O termo terras raras parece ser um assunto extremamente acadêmico, distante e até misterioso, porém está literalmente no seu bolso, no seu carro, na sua televisão e, cada vez mais, no centro das disputas internacionais. As terras raras, grupo de 17 elementos químicos* essenciais para tecnologias de ponta, tornaram‑se um dos pilares estratégicos da economia global no século XXI. Para países com grande diversidade de recursos como o Brasil, compreender a dinâmica do uso desses elementos significa entender o espaço entre oportunidades de desenvolvimento e riscos de dependência externa, especialmente quando tais recursos se entrelaçam com políticas ambientais, diplomáticas e industriais.

Embora o termo sugira escassez, muitos desses elementos são relativamente abundantes na crosta terrestre, o que é raro, na verdade, são depósitos economicamente exploráveis, porque costumam ocorrer dispersos e misturados, exigindo processos complexos de concentração e exploração.

Do ponto de vista geológico, as terras raras aparecem em rochas muito específicas: carbonatitos, complexos alcalinos, solo tropical profundamente alterado e também na forma de nódulos metálicos no fundo dos oceanos (ISA, 2023). Essa diversidade de ambientes faz das terras raras um objeto de estudo interdisciplinar, envolvendo geologia econômica, oceanografia, geoquímica e políticas sobre o uso sustentável do subsolo e do fundo marinho.

Não é a geologia que explica a importância das terras raras. É a política internacional. Hoje, mais de 80% de todo o refino mundial destes elementos está concentrado em um único país, a China (IEA, 2023). Isso significa que mesmo nações que possuem depósitos, como Brasil, Austrália, Canadá e Estados Unidos, ainda dependem do processamento chinês para transformar o minério bruto em materiais tecnológicos. E essa dependência já foi usada como ferramenta diplomática. Em 2010, durante uma crise territorial com o Japão, a China simplesmente restringiu as exportações de terras raras. O impacto foi imediato: a indústria japonesa desacelerou, os preços dispararam, e o mundo percebeu o tamanho da sua vulnerabilidade. Desde então, EUA, União Europeia e Japão passaram a chamar esses elementos de materiais críticos e iniciaram programas de diversificação de fornecedores.

A demanda global cresce em paralelo ao avanço das energias renováveis. Ímãs permanentes compostos por elementos como neodímio e disprósio são críticos para turbinas eólicas offshore; já os elementos praseodímio e samário são utilizados para construção de motores de alto desempenho em veículos elétricos. Assim, quem controla esses materiais controla, em parte, o ritmo da descarbonização global.

Isto leva a disputa por novas fronteiras e a questão de onde buscar novas fontes. O Brasil possui grandes depósitos de terras raras em Catalão, Araxá e Serra Verde, localizados em regiões tropicais, onde solos lateríticos concentram elementos pesados. Existe também potencial de exploração em áreas profundas dos oceanos, como a zona Clarion–Clipperton (Pacífico Norte), mar do Japão e trechos das margens continentais brasileira e africana. A exploração do fundo marinho, porém, abre um dilema ético e ambiental: como extrair recursos essenciais à transição energética sem destruir ecossistemas oceânicos que ainda conhecemos muito pouco? A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos – uma espécie de ‘ONU dos oceanos profundos’ – está no centro desse debate.

Com grandes reservas geológicas, o Brasil poderia ser protagonista neste tabuleiro global. Mas há desafios importantes, como a falta de capacidade de refino, dependência tecnológica estrangeira, riscos ambientais em áreas sensíveis e pressões internacionais sobre a Amazônia.

Para transformar potencial geológico em autonomia estratégica, o país precisa investir em ciência e tecnologia, desenvolver políticas industriais de longo prazo, garantir governança ambiental forte e integrar a cadeia de valor, em vez de exportar apenas os elementos brutos.

No século XX, o petróleo moldou alianças, guerras e a economia global. No século XXI, as terras raras desempenham papel semelhante — mas com o detalhe de que elas são o coração tecnológico da transição energética. Sem elas, não há turbina eólica, carro elétrico, bateria moderna ou sistema de defesa avançado. E isso significa que a disputa por esses elementos vai crescer.

As terras raras conectam geologia, geopolítica, transição energética e diplomacia ambiental. Em uma economia global baseada em tecnologias verdes e sistemas digitais, esses elementos tornaram-se instrumentos de poder tanto quanto o petróleo e o gás foram no século XX. Para países como o Brasil, o desafio está em transformar abundância geológica em soberania tecnológica, garantindo desenvolvimento científico, governança transparente, proteção socioambiental, integração industrial de alto valor agregado.

A disputa por terras raras é, em essência, a disputa pelo futuro: energia limpa, segurança digital, autonomia militar e estabilidade econômica. E, como mostram os dados, nenhuma dessas dimensões pode ser compreendida isoladamente — trata-se de um sistema global interdependente, no qual ciência, política e recursos naturais caminham lado a lado.

O fator ambiental: um dilema inevitável

A extração e o refino de terras raras geram resíduos tóxicos e, em alguns casos, radioativos. Países com legislações ambientais rígidas enfrentam custos elevados para processar estes materiais, o que ajuda a explicar a migração histórica da indústria de diversos países para a Ásia nas últimas décadas.

Agora, na era da transição energética, surge um paradoxo: para reduzir emissões globais de gases do efeito estufa, o mundo precisa de materiais cuja produção pode gerar impactos ambientais significativos. Isso recoloca a ciência, a diplomacia e a responsabilidade socioambiental no centro da discussão.

Um recurso que distribui poder

A importância das terras raras na política internacional reside em três fatores fundamentais:

  • Dependência tecnológica: Sem esses elementos, cadeias industriais inteiras param.
  • Assimetria produtiva: Poucos países dominam etapas críticas da cadeia.
  • Capacidade de pressão: Quem controla o fornecimento controla o ritmo da inovação.

No século XXI, poder não se mede apenas por petróleo, armas ou territórios, mas também por materiais capazes de sustentar a infraestrutura digital e energética global.

No fim das contas, o que está em jogo?

As terras raras são mais do que simples elementos químicos: representam o ponto de encontro entre ciência, economia e geopolítica. Em um mundo que luta contra as mudanças climáticas e disputa a liderança tecnológica, esses elementos se tornaram peças-chave do jogo global.

Para países como Brasil, EUA, China e Austrália, o desafio vai além de extrair: é necessário dominar o conhecimento, construir indústrias, garantir a sustentabilidade e negociar com inteligência. A corrida está apenas começando — e dela dependerá boa parte do futuro energético, tecnológico e diplomático do planeta.

Dádiva ou maldição?

A presença de terras raras em um território nacional pode representar uma oportunidade única: atrair investimentos, estimular pesquisa tecnológica e integrar o país a cadeias industriais de alto valor. Mas pode também revelar‑se uma maldição, caso a exploração ocorra sem planejamento, sem valor agregado local ou políticas ambientais robustas — cenário que já se viu em diversos locais do planeta. Depender demais da exportação bruta desses elementos pode aprisionar nações em um ciclo de volatilidade econômica e dependência externa. Por outro lado, ignorar seu potencial estratégico pode significar perder terreno em setores fundamentais da economia verde e da inovação tecnológica. Assim, para qualquer país — inclusive o Brasil — o verdadeiro desafio não está apenas em possuir terras raras, mas em saber transformá‑las em desenvolvimento sustentável, soberania e progresso científico.

Felipe Toledo é professor no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO/USP), onde coordena o laboratório de paleoceanografia do Atlântico Sul (LaPAS). 

Nota
* Lantânio (La), Cério (Ce), Praseodímio (Pr), Neodímio (Nd), Promécio (Pm), Samário (Sm), Európio (Eu), Gadolínio (Gd), Térbio (Tb), Disprósio (Dy), Hólmio (Ho), Érbio (Er), Túlio (Tm), Itérbio (Yb), Lutécio (Lu), Escândio (Sc), Ítrio (Y).

Referências
International Energy Agency (IEA). The role of critical minerals in clean energy transitions. Paris: IEA, 2023.
International Seabed Authority (ISA). Deep seabed mining regulatory framework report. Kingston: ISA, 2023.
United States Goelogical Survey (USGS). Rare earth statistics and information. Reston: USGS, 2024.
Verplanck, P. L.; Hitzman, M. W. Rare earth and critical elements in ore deposits. Society of Economic Geologists, 2016.
Morrison, W. M. China’s rare earth industry and export regime. Congressional Research Service, 2021.