Plataformas prometem autonomia, mas dados do IBGE e pesquisas mostram jornadas mais longas, remuneração quase estagnada e decisões sobre o trabalho concentradas em sistemas opacos
Por Suzana Amyuni
“Você será mestre de seu destino”, “A escolha é sua”. As promessas feitas ao entregador Ricky Turner no filme Você não estava aqui, de Ken Loach, poderiam estar na tela de cadastro para trabalho em uma plataforma digital. Mas a resposta do personagem expõe a engrenagem escondida no discurso de liberdade: “Eu não tenho escolha”. Em tese, esses profissionais definem quando se conectar. Na prática, algoritmos estipulam o valor das tarefas, distribuem chamadas, oferecem bônus, impõem metas e transformam cada minuto sem corrida em tempo disponível, mas não remunerado.
No Brasil, cerca de 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais de serviços em sua ocupação principal em 2024, segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 2022 e 2024, esse contingente cresceu 25,4%, enquanto o rendimento médio real aumentou 1,2%, ante 6,2% entre os demais ocupados do setor privado.
Segundo Cássio da Silva Calvete, doutor em economia social e do trabalho pela Unicamp e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a disputa sobre quem se apropria do tempo de vida do trabalhador é antiga. A novidade está na capacidade das plataformas em acompanhar comportamentos, individualizar estímulos e interferir na duração, na distribuição e na intensidade do trabalho.
“A liberdade é falsa quando a baixa remuneração obriga o trabalhador a permanecer conectado por longos períodos para atingir uma renda mínima”, afirma. “O algoritmo usa bônus, metas e a lógica dos jogos para distribuir a mão de obra nos horários que interessam à empresa e estender a jornada”, completa.
Maurício Janjacomo, de 51 anos, tornou-se motorista de aplicativo em 2019, atraído pela possibilidade de obter bons rendimentos. “Eu não tinha alternativa mas, naquela época, o poder aquisitivo de quem trabalhava com aplicativo era bom. Apenas mais tarde percebi que esse sistema deixa a gente doente”, relata.
Segundo ele, as corridas foram se tornando cada vez menos vantajosas. “Hoje aparecem corridas de R$ 5 ou R$ 6 em São Paulo, onde sempre há trânsito; não compensa aceitar”. Para alcançar uma renda suficiente, diz, muitos motoristas passam o dia nas ruas. “Mas é péssimo, não há banheiro, as despesas aumentam e a saúde vai embora”, arremata.
O trabalho que não entra na conta
Um dos principais conflitos desse tipo de ocupação está na definição do tempo de trabalho. As empresas tendem a contabilizar somente o período da corrida ou da entrega, o que gera insatisfação. No fim de julho, motoristas e entregadores paralisaram as atividades em diferentes regiões do país contra mudanças realizadas pelo iFood, Uber e 99, que teriam reduzido a rentabilidade e aumentado os custos dos trabalhadores. A categoria também reivindica o reconhecimento do período em que permanece conectada, aguardando chamadas.
Para Calvete, o pedido é justo. “Se um garçom está no restaurante esperando um cliente, ele continua trabalhando. Se um vendedor aguarda alguém entrar na loja, também. Por que o trabalhador conectado ao aplicativo, esperando uma demanda, não estaria em serviço?”, questiona. “Remunerar apenas a tarefa leva ao limite a tentativa de eliminar intervalos e pagar somente o instante considerado produtivo”, observa.
Laura Valle Gontijo, doutora em sociologia e pesquisadora da Universidade de Brasília, encontrou essa questão nas 65 entrevistas realizadas para a tese de doutorado Produção de valor nas plataformas digitais: um estudo comparado Brasil–Reino Unido. “O chamado ‘tempo ocioso’ não é tempo livre. O trabalhador está conectado e à disposição, mas não recebe enquanto alguma entrega não aparece. Só que quem distribui as chamadas são as empresas, que acabam dominando os algoritmos, mantendo o entregador conectado por mais tempo”, explica.
Gontijo relaciona o modelo ao salário por peça, forma de remuneração baseada na produtividade, e descrita por Karl Marx (1818 – 1883). “Sem uma jornada previamente remunerada, o trabalhador tenta compensar o baixo valor da entrega ou da corrida realizando mais tarefas, e a aparente liberdade de trabalhar quanto quiser se converte em jornadas prolongadas e insanas”, diz.
Nas entrevistas de campo, encontrou jornadas que comprimem o convívio familiar, o lazer e o descanso. Alguns trabalhadores compararam a relação com o aplicativo a um “vício”, pois permaneciam atentos às notificações mesmo fora do horário de trabalho. Gontijo também ouviu relatos de entregadores expostos por longos períodos ao frio e à chuva e de pessoas que deixavam de fazer pausas básicas por falta de acesso a banheiros. “Se o trabalhador não controla nem quando pode parar, não existe a autonomia anunciada pelas plataformas”, defende.
Os números do IBGE ajudam a medir essa dependência. Em 2024, 91,2% dos trabalhadores de aplicativos de transporte particular de passageiros afirmaram que a plataforma definia o valor de cada tarefa. Entre os entregadores, o percentual chegou a 81,3%. Metade deles (50,1%) disse ainda que incentivos, bônus ou promoções influenciavam sua jornada, enquanto 30,5% relataram influência de ameaças de punição ou bloqueio.
O chefe que ninguém vê
O algoritmo ocupa um lugar que antes pertencia ao supervisor. Distribui serviços, mede desempenho, altera preços, oferece recompensas e aplica sanções. A diferença é que suas decisões são pouco transparentes e podem ser ajustadas a cada trabalhador.
Calvete cita a chamada remuneração personalizada. Ao acumular dados sobre horários, hábitos e metas financeiras, o sistema pode estimar o menor valor capaz de convencer um motorista a aceitar uma corrida. Assim, duas pessoas podem realizar o mesmo serviço para a empresa, e receber valores diferentes. “A plataforma conhece o padrão do trabalhador, sabe quanto tempo ele aceita esperar e que remuneração o fará estender a jornada. Com isso, consegue adotar estratégias para intensificar o ritmo e ampliar o tempo conectado”, explica.
Em centros de distribuição, por exemplo, sistemas calculam o tempo médio para a execução de cada tarefa e pressionam quem fica acima desse parâmetro. “Quando a produtividade aumenta, a média é recalculada e o ritmo exigido se torna cada vez maior”, observa Calvete. Não à toa, o lema usado por trabalhadores da Amazon em mobilizações era “Nós não somos robôs”.
Para Lucia dos Santos Garcia, pesquisadora do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a plataformização é um novo vetor de precarização. “O trabalho plataformizado é casual, descontínuo e imprevisível. A plataforma transforma serviços e trajetórias muito diferentes em uma mercadoria homogênea, vendida pelo menor preço possível”, critica. Esse processo também apaga experiências profissionais anteriores, igualando e reduzindo os profissionais.
Uma conta que chega à sociedade
Jornadas extensas, ausência de descanso e insegurança de renda podem provocar adoecimento e transferir custos aos sistemas públicos de saúde e previdência. “Quando não há férias, licença médica, proteção contra acidentes ou perspectiva de aposentadoria, o risco fica com o trabalhador e, depois, com toda a sociedade”, afirma Lucia. Para ela, é preciso construir um estatuto de proteção capaz de alcançar diferentes vínculos e formas de inserção laboral.
Os pesquisadores concordam que a regulação das plataformas de transporte seria uma solução. Entre os pontos centrais estão a transparência dos critérios algorítmicos, a proteção dos dados dos trabalhadores, o reconhecimento do tempo à disposição, os limites de jornada, a contribuição previdenciária e a possibilidade de contestar bloqueios e decisões automatizadas. “A tecnologia não determina se haverá ganhos ou perdas, depende da forma como a sociedade a utiliza. A inovação não deve ser contida, mas submetida a limites que impeçam discriminação, manipulação e jornadas incompatíveis com uma vida digna”, conclui Calvete.
Suzana Amyuni é jornalista, autora de livros e especialista em gestão da comunicação jornalística. Cursa especialização em jornalismo científico pelo Labjor/Unicamp.