Peggy Greb, US department of agriculture, Public domain / Wikimedia Commons

Líder em terras raras, China investe no setor desde a década de 1980

Aposta na etapa de separação dos elementos foi feita nos anos 2000, e hoje o país responde por 90% da produção mundial

 Por Henrique Marinho Dassi

O território brasileiro possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo; 13,9% segundo o Sumário Mineral 2025; ficando atrás apenas da China, com 54,2%. Mas, diferente do país asiático, o Brasil tem pouca participação mundial nas importeantes – e mais valiosas – etapas de separação e fabricação dos produtos. Segundo Neusa Bojikian, doutora em relações internacionais e docente colaboradora da Unicamp, “O Brasil carrega uma herança colonial e periférica de exportador de commodities, reforçada por quem lucra com as rendas imediatas da exportação de produtos brutos”, afirmou.

A posição atual da China é resultado de um movimento pioneiro em relação aos outros países, tomado nos anos 1980. Segundo Bojikian, o investimento em terras raras ocorreu no contexto das reformas econômicas de Deng Xiaoping, que identificou esses elementos como futuro recurso estratégico, comparando-os ao petróleo.

O projeto chinês engatou na década seguinte, com investimentos em extração do minério bruto e custos de produção baixos – e a compra por preços acessíveis desincentivou, naquele momento, o investimento de outros países no setor, como  Estados Unidos.

Já o desenvolvimento na separação de terras raras foi feito nos anos 2000, por meio de grande investimento econômico por parte do Estado, tornando a China líder definitiva desse setor produtivo. Atualmente o país é responsável por mais de 90% dessa etapa de produção no mundo, segundo a International Energy Agency (IEA).

A China passou a ter a cadeia produtiva toda integrada ao introduzir, também, a fabricação de produtos por meio da produção de ímãs permanentes, utilizados em carros elétricos, turbinas eólicas e na indústria de defesa; despontando hoje com quase 95% da produção global, segundo mesmo relatório da IEA.

Exportações e guerra comercial

A possibilidade de o país asiático interromper o fornecimento de minérios por questões geopolíticas acendeu um sinal de alerta já por volta de 2010. Isso fez países como os Estados Unidos reativarem minas de extração de terras raras e a desenvolver uma política industrial direcionada ao tema.

Como estratégia nacional, a China impôs cotas de exportação, que eram os limites máximos de volume que o governo liberava  para a venda de terras raras ao exterior. Estados Unidos, União Europeia e Japão acionaram a Organização Mundial do Comério contra a medida em 2012. “Os EUA pressionam a China contra o uso de cotas e vencem em 2014”, afirma a professora Bojikian.

Ainda segundo Bojikian, essa influência dos Estados Unidos em instituições internacionais também perpassa a maneira como o país se relaciona com o Brasil nos acordos propostos. “É uma cooperação sem transferência de tecnologia, na qual o Brasil exporta o básico, o minério cru. Uma cooperação assimétrica”, adverte Bojikian, reforçando a ideia de que esse tipo de acordo ajuda a fortalecer o Brasil como um país exportador apenas de matéria-bruta.

O desenvolvimento brasileiro

Diferentemente da China, com políticas de um Estado que investe em pesquisas de longo prazo, o Brasil engatinha na questão, e permanece dependente de outros países que desenvolvem tecnologia para produtos de maior valor agregado.

Assim, segundo Sidney Ribeiro, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no Brasil há muito pouco investimento em processos de escala laboratorial, atrasando o desenvolvimento industrial. O MagBras, por exemplo, que é o primeiro laboratório-fábrica de ímãs permanentes e ligas de terras raras do hemisfério sul, importa minério em forma de pó – por não encontrar em larga escala no país.

Henrique Marinho Dassi é formado em comunicação social – midialogia pela Unicamp e aluno da especialização em jornalismo científico (Labjor).