Agência Brasil / Jose Cruz

Mesmo com terras raras, Brasil mantém dependência econômica na transição energética

Especialistas apontam que a exploração de terras raras para viabilizar a transição energética só será uma vantagem para o Brasil se houver investimento para produzir tecnologia de alto valor agregado e retorno social e econômico para a sociedade.

Por Gabriela Andrietta

As terras raras são minerais de difícil extração e essenciais para a transição energética e para o desenvolvimento de tecnologias associadas à descarbonização da economia global. Os minerais são usados, por exemplo, na fabricação de turbinas eólicas, motores elétricos, sistemas de energia solar e baterias recarregáveis, como as de lítio para veículos elétricos, além de terem importância estratégica em equipamentos militares e data centers.

Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio eDesenvolvimento (UNCTAD), a demanda por esses minerais deve aumentar 1.500% até 2050. Atualmente, a China domina a cadeia global, pois possui tecnologia avançada de extração e refino, sendo responsável por 70% da exploração mundial.

O Brasil possui a segunda maior reserva do mundo, com depósitos distribuídos nos estados do Amazonas, Bahia, Goiás, Minas Gerais, Piauí, Tocantins, Roraima e Rio Grande do Sul. No entanto, a participação do país ocorre, majoritariamente, na exportação de matéria-prima bruta, sem avançar de forma consistente na cadeia de valor – e compra dos chineses produtos de alto valor agregado, fabricados a partir desses minerais estratégicos. 

“Vendemos minério bruto e compramos o processado de volta, gerando prejuízo econômico e limitando o desenvolvimento local”, afirma João Henrique Stacciarini, pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Goiás.

Exemplos deste tipo de produto importado da China são os painéis solares e semicondutores, além de cartões de memória e chips, itens para smartphones, processadores, controladores e circuitos. Segundo Stacciarini, enquanto a China domina a etapa industrial e tecnológica da cadeia, o Brasil permanece dependente da importação de equipamentos prontos.

A desigualdade social em países ricos em minérios

Ter importantes reservas de minério não significa necessariamente desenvolvimento econômico. Um exemplo é a República Democrática do Congo, responsável por cerca de 74% da produção mundial de cobalto – item essencial para a fabricação de baterias, especialmente para veículos elétricos -, mas onde a população vive em meio à pobreza e condições de trabalho insalubres.

No país, trabalhadores, inclusive crianças, transportam o minério bruto em bicicletas e são expostos a metais tóxicos e a um risco elevado de doenças graves. “Dificilmente esses trabalhadores de países periféricos terão acesso a painéis solares, pás eólicas e carros elétricos, que geralmente são consumidos pela população dos países desenvolvidos”, afirma segundo Stacciarini.

Os impactos ambientais da transição energética

“De qual transição genética estamos falando?”, questiona Daniel Neri,  professor do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) em Ouro Preto e doutor em política científica e tecnológica pela Unicamp, que defende que a transição energética é “apenas uma utopia que reproduz o modelo extrativista capitalista, gerando degradação ambiental e desigualdades sociais”.

Entre as razões, segundo Neri, está o fato de a mineração de terras raras ser altamente poluente, além de a produção de equipamentos ligados à transição energética gerar diversos impactos ambientais. Devido às baterias muito pesadas, os carros elétricos, por exemplo, pesam consideravelmente mais do que veículos similares movidos a gasolina ou álcool e o seu descarte pode ser ainda mais difícil.  Outro exemplo são os painéis solares que têm uma vida útil de 20 a 25 anos, sendo descartados após esse período. 

“É mais barato descartar os painéis solares e iniciar a mineração novamente – um problema relacionado ao lixo eletrônico. Países mais ricos enviam painéis solares para países pobres, pagando para que as pessoas armazenem esse resíduo”, alerta Stacciarini

Além da geração de rejeitos, barragens e mudanças ambientais, as cidades que recebem empresas mineradoras passam por mudanças sociais bruscas. Neri destaca que, muitas vezes, há aumento abrupto da população masculina jovem, o que intensifica problemas como exploração sexual, prostituição e até trabalho infantil. 

Por isso, Neri destaca a importância e a necessidade da presença do Estado, com regulação. “Precisaríamos de uma Agência Nacional de Mineração bem paramentada, com centros públicos e fiscais e de governos estaduais fazendo seu papel no licenciamento ambiental. Que as prefeituras cumpram, minimamente, a parte que lhes cabe no licenciamento ambiental, além de uma imprensa crítica sobre a questão”, detalha. 

Gabriela Andrietta é mestre em estudos culturais (USP) e doutora em artes visuais (Unesp). Aluna do curso de especialização em jornalismo científico do Labjor/Unicamp. É bolsista Fapesp, vinculada à Coordenadoria de Centros e Núcleos da Unicamp (Cocen).