Gênero é barreira para mulheres na carreira musical erudita

Por Sophia La Banca de Oliveira

Apesar de muitas mulheres terem se destacado na história da música, compositoras contemporâneas ainda enfrentam resistência

No início da década de 1970, as mulheres eram menos de 5% dos membros nas orquestras estadunidenses. Quando as seleções passaram a ocorrer com as “audições cegas”, nas quais os candidatos tocavam anonimamente atrás de cortinas, esse número cresceu para mais de 25% no final da década de 1990. Este é apenas um dentre vários exemplos que mostram como o gênero  é, deliberadamente, um fator limitador das carreiras.

De acordo com a compositora Jocy de Oliveira, ainda hoje existe resistência à participação das mulheres na música: “Só não sente quem é totalmente alienada das questões sociais e de gênero”. Apesar de ver avanços, ela, que foi a primeira mulher a compor e dirigir óperas no Brasil, considera que é necessário avançar ainda mais. “Para quem, como eu, que vivi o movimento feminista e transgressor dos anos 1960, creio que nesses 58 anos nossas conquistas ainda não foram suficientes”. A compositora também foi pioneira na utilização de recursos eletrônicos e suporte de multimídia no Brasil, com o teatro musical Apague meu spotlight, que estreou em 1961.

Hoje, chama atenção a disparidade no número de mulheres em posições de destaque dentro da música. Entre os compositores agendados na programação mundial de música clássica, somente 2% são de compositoras-mulheres e 4% são mulheres regentes, segundo levantamento do site Bachtrack.

Outra compositora que aponta a ausência de mulheres nessas posições é Denise Hortência Lopes Garcia, professora no Instituto de Artes da Unicamp. “As mulheres na música erudita atuam normalmente como intérpretes, mais como pianistas, violinistas e cantoras. São muito poucas as regentes e compositoras”, diz. Ela aponta questões culturais como uma possível explicação para esse fato. “As mulheres não são incentivadas a terem papéis de liderança”. Denise também comenta que até alguns dos instrumentos são preferencialmente destinados aos homens: “Há poucas mulheres presentes na área de sopro e de metais, por exemplo. Isso vem da tradição da banda militar”, analisa. Outra causa destacada por Denise para o baixo número de mulheres na composição é a evasão durante os estudos. “Das poucas meninas que entram nos departamentos de música, um número ainda menor se forma”, lamenta.

Apesar disso, um interesse maior pelas composições das mulheres tem emergido. “Estudos de gênero trazem destaque e acabam valorizando autoras que antes não eram valorizadas”, comenta Lenita Waldige Mendes Nogueira, professora do Instituto de Artes da Unicamp.

Grandes compositoras

Considerando a dificuldade imposta ao gênero ao longo da história, é ainda mais interessante notar que uma das primeiras pessoas a assinar suas composições foi uma mulher, Hildegard von Bingen. Nascida em 1098, durante o Sacro Império Romano-Germânico, Hildegard foi oferecida para a igreja ainda quando criança e se tornou uma monja beneditina no mosteiro de Disibodenberg. Formou-se como teóloga, poetisa, dramaturga, compositora e médica. Sua principal obra foi o Scivias, um livro no qual descreve 26 de suas visões. Ao final, ela incluiu duas composições musicais, a Symphonia Armonie Celestium Revelationum e a Ordo Virtutum, dois dos primeiros dramas litúrgicos da história da música.

Na Europa, outras compositoras se destacaram. Durante o período barroco Barbara Strozzi (1619-1677) que foi considerada uma das pessoas com mais composições em Viena, e Élisabeth-Claude Jacquet de la Guerre (1665-1729) que desde criança tocava na corte do rei Luis XIV.

No século XIX, é possível observar vários exemplos de mulheres que abandonaram a composição por motivos, talvez, alheios às suas vontades, como Clara Schummann (1819-1896) que parou de compor após a internação do marido e também compositor Robert Schummann em um hospital psiquiátrico, e Fanny Mendelssohn (1805-1847), incentivada pelo pai a deixar a composição em favor do casamento – e teve várias de suas obras publicadas sob o nome de seu irmão, Felix Mendelssohn.

No Brasil, o primeiro nome feminino a se destacar foi o de Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga (1847-1935). Muito conhecida por suas marchas de carnaval, é considerada por muitos como uma mediadora entre a música erudita e popular. Foi autora de aproximadamente duas mil peças de diversos gêneros musicais. Além de suas composições, Chiquinha também se destaca por ter sido a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.

Fora da vida artística Chiquinha também chamou atenção pela sua atuação política. Participou fortemente de campanhas abolicionistas e republicanas, e arrecadou fundos para o movimento vendendo suas partituras, chegando até a comprar a alforria de um negro escravizado. Em várias ocasiões também desagradou políticos com suas obras. Uma de suas músicas, intitulada Aperte o botão, desagradou tanto o então presidente Floriano Peixoto que foi expedida uma ordem de apreensão para a partitura.

Mesmo com a falta de incentivos, durante o século XX, várias compositoras se destacaram no Brasil, como Marisa Rezende, Vânia Dantas Leite, Maria Helena Rosas Fernandes e Jocy de Oliveira.

Sophia La Banca de Oliveira é farmacêutica (UFPR), mestre em bioquímica (USP) e doutora em psicobiologia (Unifesp). Atualmente é pós-graduanda na especialização em jornalismo científico no Labjor-Unicamp.