Os oráculos da pós-modernidade: ficção científica, ciência e o futuro

Por Vitor Chiodi

Na introdução do clássico A mão esquerda da escuridão, Ursula Le Guin (2014) diz que a ficção científica é muito mais um comentário sobre o presente que uma forma de tentar prever o futuro. Ainda assim, é muito comum que se avalie ficções científicas do passado a partir da sua suposta capacidade de antecipar acontecimentos. Um sinal no presente que confirme alguma suspeita e, quase instantaneamente, surge um novo oráculo que já estava ali,  a dizer os próximos passos, e o que e a quem temer. A ficção científica conecta ciência e público em torno de imaginários tecnocientíficos. Em certo sentido se torna uma forma de pensar a ciência e a tecnologia e especular para onde elas podem nos levar. Narrar o futuro se torna uma ferramenta para pensar o presente, como tão bem descreveu Le Guin.

Fora da ficção científica, no capitalismo informacional contemporâneo, acertar o futuro ganha uma força política que até então não havia. Mais do que meramente acertar, o que está em questão é influenciar os tomadores de decisão, de modo a garantir que investimentos, pesquisas e outras formas de influência fortaleçam uma tecnociência cada dia mais integrada com o mercado. Descrever o futuro deixou de ser papel exclusivo da ficção científica e passou a ser uma forma de narrativa fundamental nos centros do capitalismo globalizado e informatizado. As startups são um dos grandes ícones desse tempo, onde uma nova empresa passa a fazer apostas públicas em torno de ideias, em busca de investimentos de empresas maiores e outras fontes de financiamento. A ideia de uma startup nada mais é que uma narrativa futurista, que visa influenciar tomadores de decisões.

Algo de muito particular acontece no nosso tempo, que torna muito frágeis as barreiras que separam as narrativas científicas das ficcionais. No passado ainda era surpreendente que o termo inventado por um escritor de ficção científica batizasse uma nova disciplina científica. A literatura com Isaac Asimov (2014) falou de robótica antes que cientistas falassem, tal como William Burroughs (2016) descreveu uma sociedade de controle muito antes que o fizesse o filósofo Gilles Deleuze (1992), influenciado por sua obra. O mercado e seus defensores aprenderam o que muitos movimentos populares e progressistas ainda ignoram. A forma narrativa da ficção científica se tornou abertamente um instrumento de influência nas tomadas de decisões tecnocientíficas, de modo que livros que se propõem a descrever o futuro se tornam populares sem precisar serem ficções.  A ficção científica já não tem, como no passado, a exclusividade de narrar um futuro hipotético de modo a pensar o presente.

Um olhar atento a um dos principais centros econômicos da tecnociência contemporânea, o Vale do Silício, nos mostrará que nossas elites econômicas compreendem bem os impactos de controlar as narrativas sobre o futuro. Um indício dessa atenção digna de nota pode ser encontrado na medida em que personagens e lugares da obra da escritora Ann Raynd são bastante populares como nomes de empresa na baía de São Francicco. Um exemplo carismático das atentas elites do Vale do Silício vem dos transhumanistas da singularidade: Ray Kurzweil é um inventor e cientista da computação, e um autor extremamente popular. Seus trabalhos já foram traduzidos para dezenas de línguas e todos os seus livros recentes foram best-sellers nos Estados Unidos.

Kurzweil faz parte de um grupo chamado de transhumanistas, pessoas que, de formas diversas, acreditam que a espécie humana será em breve ultrapassada evolutivamente e que isso é desejável. No caso do autor e dos demais defensores da singularidade, o pós-humano viria colocado na fusão definitiva do humano com a máquina, fazendo uso de uma super-inteligência-artificial, muito mais capaz que a de qualquer humano ou grupo de humanos. Esse momento que marca a passagem do humano, obsoleto e atrasado evolutivamente, para um pós-humano, imortal e hibridizado com as máquinas, é chamado de singularidade.  Essas ideias são inclusive compartilhadas em grandes produtos da cultura pop. Em dado momento da popular sitcom americana Friends, Ross, o único cientista no elenco principal, conversa com seu amigo sobre uma das especulações mais populares dos livros de Kurzweil: no futuro poderemos baixar toda a informação de nossos cérebros para um computador!

Quando Kurzweil nos promete a imortalidade e a possibilidade de baixar nosso cérebro para um computador, a forma de seu livro parece indicar um tipo de ficção científica. Na prática, contudo, as previsões colocadas por Kurzweil contam com a autoridade de um escritor que é um cientista e que não se propõe escrever ficção científica. Nomeia seu trabalho como futurismo e afirma que, diferente das ficções científicas, faz especulações enquanto inventor, puramente baseadas em fatos científicos. Há razões para estarmos preocupados?

Ainda que consideremos absolutamente implausíveis as previsões de Kurzweil, precisaremos olhar a questão a partir de uma escala maior. Não importa tanto se suas “especulações cientificamente embasadas” são verossímeis ou não, mas que atores-chave do capitalismo informacional acreditam e apostam nas previsões kurzweilianas.

Uma breve pesquisa acerca dos apoiadores da singularidade nos mostrará alguns dados que fazem a popularidade de Kurzweil muito mais importante. O futurista fundou junto ao empresário Peter Diamandis, em 2008, a Singularity University (SU). Tudo em torno da “universidade” é superlativo. Os textos oficiais descrevem a instituição como o “futuro das universidades”, onde a burocracia  dessas instituições tradicionais seria substituída por um modelo mais moderno, completamente integrado ao mercado. Uma curiosidade importante é sua localização: a SU fica em Mountain View, no coração do Vale do Silício, no campus da Nasa, mais particularmente na seção arrendada pela Nasa ao Google para  a construção de um centro de pesquisa espacial e de robótica.

O principal objetivo da SU é ser uma espécie de grande incubadora de startups e outros projetos que coloquem em prática os princípios singularistas da instituição. Aumentando ainda mais a escala, de modo proporcional às ambições da SU, veremos que a instituição tem um plano ousado de expansão global através das unidades que chamadas de chapters. Os chapters funcionam como pequenas incubadoras de startups e projetos e já estão presentes em todos os continentes, fundados por ex-alunos da SU central do Vale do Silício e financiados por ela. No momento em que escrevo este texto, já existem chapters em seis cidades brasileiras. Pegue um uber para visitar o chapter mais perto de você e verá que estamos mais próximos do Vale do Silício e de seu futuro singularista que podíamos imaginar.

Tendo a Singularity University em perspectiva, fica mais fácil de entender porque a popularidade de Kurzweil vai muito além de um texto com forma de ficção científica. Singularistas das ciências e do mercado impulsionam sua agenda a partir de um conhecimento notável das possibilidades de se vender um futuro verossímil. Se no mercado o dinheiro segue quem convence que produzirá mais dinheiro, Kurzweil e seus seguidores criaram com sucesso uma narrativa de futuro que opera por dentro do sistema, usando o futuro como política de modo exemplar.

Voltando a anedota de Ursula Le Guin que abre este texto, poderemos nos perguntar: o que querem Kurzweil e outros anarco-capitalistas futuristas? Descrever o futuro para repensar o presente? Parece que nesse caso conseguimos entender o que separa essas narrativas da ficção científica. O texto futurista, que parece ficção científica mas se entende como ciência, não pretende meramente descrever um futuro hipotético de modo a nos fazer pensar no presente. Sua ambição, muito mais objetiva e alinhada à tecnociência neoliberal contemporânea, é vender um futuro que não habita o âmbito da especulação mas o da “verdade científica”.

Com as credenciais de gênio visionário construída diariamente em seus livros, programas de TV, revistas e vídeos no Youtube, Ray Kurzweil vende um futuro que interessa ao mercado comprar. Se a ficção científica especula o futuro para pensar o presente, a narrativa futurista vende garantias de um futuro favorável para influenciar a tomada de decisões no presente, tal como a tomada de assalto do universo da predição pelas soluções big data ou as apostas nas bolsas de valores. Não por acaso, parece haver uma oposição diametral entre os futuros distópicos da ficção científica e a utopia tecnocentrada singularista.

Seja na forma de especulação científica, ficção científica ou de futurismo, fica claro que as narrativas sobre o futuro passam a ter um papel particularmente importante na tecnociência da pós-modernidade – para usar o termo do filósofo marxista Frederic Jameson (2015). Está travado em um debate silencioso uma questão de representatividade que foge aos Estados e às formas convencionais de política.  Mesmo sem saber, estamos em processo longo e decisivo para decidir quem serão nossos oráculos. Kurzweil é apenas um dos milhares que se candidatam a essa posição. Tão importante quanto observar quem e de que forma narra nosso futuro é estar atento a quem e de que forma consegue influenciar os tomadores de decisões. Tudo indica que já estamos perdendo o jogo. Se a diferença entre a realidade e a ficção científica é uma ilusão de ótica como disse Donna Haraway (2009), chega um momento de urgência política no qual precisaremos enxergar além da ilusão.

Vitor Chiodi é doutorando no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Sua pesquisa de mestrado “O singularismo como ideologia e a reconstrução da relação centro-periferia no capitalismo informacional” abordou algumas das discussões presentes neste artigo.

  1. Asimov, I. Eu, robô. São Paulo: Aleph. 2014.
  2. Burroughs, W. Almoço nu. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
  3. Deleuze, G. Post Scriptum sobre as sociedades de controle. Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
  4. Haraway, D. “Manifesto ciborgue”. In: Antropologia do ciborgue, Belo Horizonte, Autêntica, 2009.
  5. Jameson, F. “The aesthetics of singularity”. In: New Left Review 92, 2015. Disponível em < https://newleftreview.org/II/92/fredric-jameson-the-aesthetics-of-singularity > Último acesso: 20/06/2017.
  6. Le Guin, U. A mão esquerda da escuridão.  São Paulo: Aleph, 2014