Além do treinamento de máquinas, o microtrabalho em plataformas digitais cumpre um papel central ao amenizar as tensões entre o discurso apresentado pela indústria de tecnologia e a realidade dos processos produtivos da criação de softwares. O batalhão de trabalhadores disponíveis online, realizando centenas de milhares de tarefas repetitivas, possibilita que a indústria de tecnologia se ancore, por um lado, em núcleos de trabalho qualificado e, por outro lado, em trabalho mal pago e precarizado.
Por Guilherme Henrique Guilherme
Quando se discute o trabalho por plataformas, o caso mais evidente é o de empresas como Uber ou iFood, plataformas de entrega ou de transporte. Não à toa, foi o termo “uberização” que se fortaleceu como conceito para pensar a expansão do trabalho subordinado por plataformas. Esses trabalhadores estão visíveis por toda cidade, cortando o tecido urbano com seus veículos (carro, moto ou bicicleta) e um aplicativo de celular. Esse tipo de trabalho, que, embora mediado digitalmente, necessita do trabalhador em uma localidade geográfica específica, é uma das formas pela qual a plataformização do trabalho aparece. Não é, no entanto, a única.
Uma ampla gama de trabalhos online, considerados de “simples execução”, fundamentalmente repetitivos e padronizados, se tornaram uma necessidade premente a partir do crescimento e consolidação da internet, das redes sociais, do Big Data e da assim chamada inteligência artificial. É o trabalho conhecido como de “microtarefas”, ou “microtrabalho”. Corporações como a Amazon, por exemplo, criam plataformas virtuais por meio das quais trabalhadores de todo o mundo podem, de suas casas, realizar tarefas repetitivas em troca de uma remuneração que se assemelha à remuneração por peças, ou melhor, remuneração por tarefas cumpridas.
A plataforma de trabalho mais conhecida do gênero é a Amazon Mechanical Turk (AMT). Seu nome faz referência à uma máquina fraudulenta que supostamente “jogava” xadrez e iludia públicos pela Europa e nas Américas no século XVIII, o “Mechanical Turk”. O truque era simples: as jogadas não eram realizadas pela máquina, mas sim por jogadores de xadrez escondidos em seu interior. O Mechanical Turk da Amazon, de maneira bastante declarada a partir da escolha de nome, também “esconde” trabalho por trás da aparência desse ser realizado por máquinas e softwares. A plataforma se baseia, nas palavras do pesquisador Vili Lehdonvirta (2018), em “inteligência artificial artificial”, ou seja, na força de trabalho realizando tarefas que, inicialmente, deveriam ser realizadas pela inteligência artificial, máquinas e softwares. Estamos tratando aqui da classificação de imagens, identificação de objetos em fotos, fornecimento de respostas curtas que refinam algoritmos e transcrição de pequenos trechos de áudio, por exemplo.
As máquinas, afinal, como afirma o próprio Bezos (proprietário da AMT e um dos homens mais ricos do mundo), não são capazes de atingir seu pleno potencial se não forem ensinadas. Nesse caso, elas são ensinadas por demanda. Mais especificamente, por trabalho humano sob demanda. O famoso machine learning, afinal, não é realizado por professores humanos especialistas em tecnologia, mas por milhares de trabalhadores que fornecem pequenos “exemplos” cada, como explica o professor de sociologia da Télécom Paris, Antonio Casilli (2020).
Embora o nome comumente atribuído a esse trabalho carregue o qualitativo “micro”, não se pode, em absoluto, afirmar que seja “pouco” trabalho. Para os trabalhadores nessa cadeia produtiva, isso significa muitas e muitas pequenas tarefas, realizadas durante muitas e muitas horas diárias.
O papel do microtrabalho na produção de tecnologia
Além do treinamento de máquinas, o microtrabalho em plataformas digitais cumpre um papel central ao amenizar as tensões entre o discurso apresentado pela indústria de tecnologia e a realidade dos processos produtivos da criação de softwares. Explicando: o batalhão de trabalhadores disponíveis online, realizando centenas de milhares de tarefas repetitivas, possibilita que a indústria de tecnologia se ancore, por um lado, em núcleos de trabalho qualificado e, por outro lado, em trabalho mal pago e precarizado. Molda-se, dessa forma, uma indústria de tecnologia em que alguns são “criadores” e “criativos” e outros se tornam o “computador”, ou realizam tarefas que a inteligência artificial não consegue realizar.
É o que a cientista da computação e professora da Universidade da California, Lilly Irani, chama de “trabalho cultural do microtrabalho” (2015). Em outras palavras, a existência de vasta força de trabalho dispersa pelo globo, oculta atrás das telas de computadores e disponível a realizar as microtarefas padronizadas e repetitivas é o que alimenta, ao mesmo tempo, a indústria de softwares e o discurso das empresas de software. Isso porque esse trabalho fornece a base para que os desenvolvedores atuem de forma aparentemente mais criativa e com autonomia, já que seu trabalho se encontra apoiado em um oceano de trabalho padronizado realizado pelos trabalhadores em plataformas digitais. A indústria de tecnologia, assim, se desenha de forma a permitir que um pequeno núcleo de trabalhadores seja “construtores”, enquanto uma enormidade de trabalhadores é força braçal computacional, possibilitando o funcionamento das máquinas que conhecemos hoje.
Essa relação não é exatamente uma novidade na indústria da tecnologia. Cowie (1999) e Nakamura (2014), por exemplo, apontaram para o papel central da exploração intensiva da força de trabalho das mulheres no circuito produtivo da tecnologia, que vai das empresas maquiladoras da fronteira mexicana às montadoras de eletrônicos nos arredores do Vale do Silício, passando inclusive por plantas industriais instaladas em reservas indígenas. Esse, também, é trabalho ocultado da totalidade dos processos produtivos referentes à tecnologia. Estamos falando, aqui, do trabalho da produção dos semicondutores e de componentes essenciais para o funcionamento da infraestrutura que mantém de pé a tecnologia “digital”.
Na contramão da imagem predominante do trabalho em tecnologia, do “dev” que tem pufe, mesa de ping-pong e happy-hour na empresa (quando não trabalha de sua casa), essa indústria é assentada em extrativismo mineral, extrativismo de dados e, também, trabalho intenso.
No entanto, mesmo essa imagem do “dev” acima é também cada vez mais falsa. Não é apenas o trabalho considerado “repetitivo” ou de microtarefas que vem sendo precarizado e realizado online em plataformas digitais. Existem diversas plataformas em que se encontra o próprio trabalho do desenvolvimento de softwares, ou seja, o trabalho da produção dos produtos mais valorizados socialmente nos dias de hoje, os aplicativos, os softwares, a inteligência artificial.
“Até tu”? O dev e a uberização do trabalho
Hoje um número cada vez maior de trabalhadores e trabalhadoras de tecnologia se encontram logados em plataformas digitais, por meio de seus computadores pessoais, executando diversas tarefas e projetos típicos do desenvolvimento de programas de computador, de aplicativos, de websites, enfim, a concepção e programação de softwares os mais variados.
Os números são difíceis de estimar, já que as plataformas digitais têm funcionado como “caixas-pretas” que selam em si mesmas informações sobre funcionamento de seus algoritmos e informações sobre seus trabalhadores. É também muito difícil que esses dados sejam captados por pesquisas nos formatos de censos nacionais ou contagens populacionais. Mais ainda, na maioria dos casos, por não serem consideradas “empregadoras”, tampouco essas plataformas prestam contas de sua força de trabalho ou remuneração dos trabalhadores às instituições públicas.
Alguns pesquisadores buscaram construir métodos para tentar compreender os números desse trabalho. Ainda em 2020, mas refletindo uma média dos 5 anos anteriores, números da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Oxford Internet Institute apontavam: os países que mais demandam trabalho online buscaram a maior parte desse trabalho na categoria de desenvolvimento de software e tecnologia (Stephany et al., 2021). O Brasil, segundo a mesma pesquisa, responde por 0,5% da força de trabalho global dos desenvolvedores de softwares trabalhando em plataformas digitais, número que mais do que dobrou entre 2018 e 2024.
Por que esse debate importa? Bem, o trabalho desses “tech workers”, como são conhecidos em outros países, foi, por muito tempo, considerado o trabalho que representaria uma transição: de uma sociedade de trabalho fabril, de atividades padronizadas e previamente concebidas pela gerência da fábrica, para uma sociedade do conhecimento, na qual o processo de trabalho seria baseado na criatividade do trabalhador, em sua autonomia perante a organização do próprio trabalho. Nesse sentido, o trabalho do desenvolvimento de tecnologia foi analisado como um trabalho “imune” aos ditames da gerência, do controle e do monitoramento por parte das empresas.
No entanto, como afirmamos acima, mesmo esse trabalho tem passado por seu processo de “uberização”. Em nossa pesquisa de doutorado, estamos tentando compreender esse movimento, que chamamos de “externalização plataformizada”, por entender que estamos diante de um aprofundamento das terceirizações conhecidas da “produção enxuta”. Em uma primeira tentativa de levantamento de plataformas em que tarefas relativas ao desenvolvimento de softwares são realizadas, foi possível categorizar três tipos diferentes de plataformas que subordinam o trabalho dos desenvolvedores de software online.
O primeiro deles é o chamado crowdtesting, o “teste em multidão”, formado por plataformas dedicadas a uma etapa específica do processo produtivo da programação: a de teste do produto desenvolvido, que se assemelha a um controle de qualidade. A forma de funcionamento dessas empresas é geralmente a remuneração por peças (ou por teste), ou, mais especificamente, em algumas delas, por “peças encontradas”. Utilizamos essa nomenclatura porque os trabalhadores cadastrados em várias dessas plataformas são remunerados com base na quantidade de erros de software que eles identificam. Esse é o chamado pay-per-bug: paga-se apenas quando um erro é encontrado. Sem erros, sem pagamento, e o tempo de trabalho acaba sem qualquer remuneração.
Existem outras plataformas em que é possível encontrar diversas etapas do processo produtivo do software. É o caso, por exemplo, da TopCoder, que cobre todo o ciclo produtivo do desenvolvimento, da elaboração ao lançamento da mercadoria, e que torna possível criar um “chamado aberto” para cada uma dessas fases. O modelo da plataforma supracitada é o da competição em uma mesma tarefa. Aqui, como em determinadas plataformas de teste, muitos trabalhadores podem trabalhar sem remuneração, já que o “prêmio” pelo trabalho é pago ao desenvolvedor ou à equipe considerada a vencedora do “desafio”. Esse modelo se assemelha a uma versão online dos hackathons, períodos intensivos de programação, nos quais desenvolvedores se agrupam, formando equipes para trabalhar na resolução de determinado problema de software ou para desenvolver um programa específico. Geralmente, são eventos curtos, com premiação para as melhores equipes.
Há, por fim, as plataformas de trabalho freelance em que não há esse modelo de competição em que vários trabalhadores realizam um mesmo trabalho mas, sim, o acerto entre contratante e um trabalhador específico, para uma tarefa específica. A competição aqui ocorre apenas previamente à realização da tarefa, quando os trabalhadores aplicam e concorrem a um trabalho, e são escolhidos, principalmente, com base em: 1) no preço que propuseram e; 2) na sua avaliação na plataforma feita por clientes anteriores. O efeito mais claro é o de uma “corrida ao fundo”, ou um “leilão ao contrário” (termos pronunciados por trabalhadores em entrevista para nossa pesquisa), já que os trabalhadores lançam preços menores do que o que avaliam ser o preço de mercado da tarefa.
A partir desses três tipos diferentes de plataformas, é possível apontar para a capacidade delas em articular, sob novas mediações técnicas, formas clássicas de organização industrial do trabalho. Os sociólogos Henrique Amorim, Maria Aparecida Bridi e Ana Cardoso falam, por exemplo, em um “capitalismo industrial de plataformas” (2022). Essas formas são reconfiguradas em um regime flexível, globalizado e profundamente assimétrico, movendo coletivos de trabalho de um lado a outro, ainda que não se movam de seus computadores, e possibilitando diversas combinações de organização do trabalho coletivo.
Com base nessa síntese, é possível somar esforços para conectar as pontas da cadeia global de produção hoje. Fica evidente que o trabalhador que treina a inteligência artificial por centavos, o programador que desenvolve o aplicativo plataformizado e o entregador que cruza a cidade de bicicleta compartilham, no fundo, uma mesma lógica global de gestão do trabalho.
Não se pode, obviamente, fazer uma comparação direta entre as condições de trabalho dos entregadores e de um desenvolvedor de softwares. Mas é possível apontar para uma substância comum, que vem moldando cada vez mais os coletivos de trabalhadores: a informalidade do trabalho, a ausência de garantias, a responsabilização individual do trabalhador pelos riscos do trabalho e a gerência por algoritmos desses coletivos. Afinal, mesmo em categorias de trabalhadores antes consideradas a porta de entrada em um mundo de trabalho criativo, autônomo e com flexibilidade de horários, como a dos tech workers, é possível identificar um processo crescente de plataformização do trabalho.
Guilherme Henrique Guilherme é pesquisador e doutorando em ciências sociais no Programa de Pós-Graduação da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Referências
Amorim, H.; Cardoso, A. C. M.; Bridi, M. A. “Capitalismo industrial de plataforma: externalizações, sínteses e resistências”. Caderno CRH, [s. l.], v. 35, p. 1–15, 2022.
Casilli, A. A. “From the virtual class to the click workers: the transformation of work into service in the era of digital platforms”. Matrizes, [s. l.], v. 14, n. 1, p. 13–21, 2020.
Cowie, J. Capital moves: RCA’s seventy-year quest for cheap labor. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1999.
IraniI, L. “The cultural work of microwork”. New Media & Society, [s. l.], v. 17, n. 5, p. 720–739, 2015.
Lehdonvirta, V. “Flexibility in the gig economy: managing time on three online piecework platforms”. New Technology, Work and Employment, [s. l.], v. 33, n. 1, p. 13–29, 2018.
Nakamura, L. “Indigenous Circuits: Navajo Women and the Racialization of Early Electronic Manufacture”. American quarterly, College Park, v. 66, n. 4, p. 919–941, 2014.
Stephany, F. et al. “Online Labour Index 2020: New ways to measure the world’s remote freelancing market”. Big Data & Society, [s. l.], v. 8, n. 2, p. 20539517211043240, 2021.