Por Naiana Rodrigues
Era 2020, a pandemia se apresentava no horizonte, mas ainda não sabíamos bem o que fazer em relação à covid-19. Ainda alheia sobre as formas de prevenção e sobre o contágio pela doença, saí da sala de cinema afetada por uma imensa tristeza e vazio depois de assistir ao filme Você não estava aqui (2019). Com mais crueza e objetividade que a película sul coreana Parasita (Bong Joo-ho, 2019), que também causou muito burburinho à época por colocar o dedo numa das feridas da sociedade contemporânea – a desigualdade social -, o longa Sorry we missed you, no original, do cineasta veterano Ken Loach, é um verdadeiro ensaio audiovisual sobre as mudanças no mundo do trabalho e no sistema produtivo.
A história gira em torno dos problemas financeiros e de relacionamentos de uma família cujo pai é seduzido pelo discurso do empreendedorismo baseado no trabalho mediado por plataformas. “Você é seu próprio chefe”; “você está adquirindo uma franquia, é um autônomo”; “você tem o controle da sua vida”, “não seja um perdedor”, são slogans, ao melhor estilo “Ted talks”, que ecoam na trama, enchendo o personagem de esperança e revelando ao espectador atento a retórica de uma sociedade que exalta o produtivismo, valoriza o desempenho e enaltece o empreendedor de si mesmo, definição do filósofo Byung-Chul Han para aquele que acredita ser o próprio chefe.
É a mesma sociedade que considera o trabalhador que tem garantias sociais como um perdedor. Ser CLT, ou seja, ter um contrato formal de trabalho regido pelas leis trabalhistas nacionais, é visto por muitos jovens, sobretudo aspirantes a influenciadores, como sinônimo de fracasso. Enquanto para os millenials, a estabilidade garantida por um contrato de trabalho ou mesmo por um concurso público era um verdadeiro eldorado, um objetivo herdado dos que nasceram ainda na metade do século XX; para os Gen Z, isso já não faz mais tanto sentido assim. Ser assalariado, ter que cumprir uma jornada de trabalho fixa, bater ponto e cumprir metas não está nos sonhos de muitos jovens adultos ou de adolescentes que se ocupam em usar as redes sociais para exaltar o empreendedorismo e depreciar o trabalho formal.
Esse canto da sereia conquista os sujeitos ao fazê-los acreditar que estão se libertando do fardo do controle de uma organização para serem “homens-empresas”, indivíduos que governam suas vidas como se estivessem gerindo uma empresa, como explicam os autores Pierre Dardot e Christian Laval, no livro A nova razão do mundo (2016).
Contudo, o filme de Loach nos mostra exatamente que em vez de autonomia e prosperidade, a maioria dos empreendedores de si mesmos só encontra sofrimento e servidão. Mas, infelizmente, o discurso do cineasta é uma voz rouca frente aos gritos estridentes da mídia, de influenciadores, de deputados e até mesmo de outros trabalhadores que defendem esse modelo empreendedor do século XXI.
O empreendedor de hoje (a mulher que sustenta a família vendendo bolo; o homem que montou uma banca de lanches no condomínio onde mora; a dona de casa que cuida das crianças das vizinhas para incrementar a renda) é apresentado como um indivíduo corajoso que não desanima frente às adversidades. Esse tipo de discurso remete a uma formação discursiva do capitalismo e à ideologia das classes hegemônicas que não se interessam em problematizar as consequências da informalidade, positivando seu sentido, pois quanto mais trabalhadores disponíveis no mercado, mais barato será o preço da força de trabalho para o capitalista e para o burguês. O que resulta em uma precarização das relações e condições de trabalho mesmo para aqueles que estão sob a tutela das leis trabalhistas.
Voltando ao filme, quando o personagem Ricky assina contrato para ser “franqueado” de uma empresa de logística e distribuição que presta serviços para gigantes como a Amazon, e passa cerca de 14 horas por dia entregando mercadorias (com uma van comprada a prazo), o empreendedor que ele encarna é um trabalhador informal, desesperado para manter o sustento de si e da família que se “vira” como pode, a despeito da falta de capital e de meios de trabalho. É essa imagem que as empresas de plataformas como Amazon, Uber, iFood, entre outras, querem apagar de nossas memórias, pois ela traduz o modo de operação do sistema produtivo plataformizado.
As longas jornadas de trabalho, a vigilância por meio de dispositivos eletrônicos e multas por faltas e afastamentos, ainda que justificados, são algumas marcas, bem descritas no filme, do trabalho realizado graças à mediação de plataformas digitais. Na trama, elas são diretamente responsáveis pelo sofrimento de Ricky e de toda a família, cujas relações se degradam porque entre eles não há tempo para lazer, educação e afeto, apenas para a sobrevivência.
A obra de Loach se torna atemporal, pois a angústia desses personagens, infelizmente, não terminou com o fim da projeção do filme. Ela é o real, está entre nós, presente no cansaço do motorista do Uber, nos acidentes com os entregadores de comida por aplicativos e em todos os trabalhadores que encontram nas plataformas uma via de sustento em meio ao desalento ou que escolhem ser burgueses de si próprios, como prefere nomear o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes.
Vale relembrar que a trama do filme se desenvolve no Reino Unido, onde o discurso colonialista nos diz que tudo é mais “desenvolvido”. Agora, imaginem a consolidação desse modelo produtivo plataformizado no Brasil de 2026, nação latino-americana cujas feridas da exploração colonial ainda estão abertas e que se encontra em uma verdadeira batalha de resistência contra as investidas imperialistas do governo Trump. Aqui, o capitalismo é mais que selvagem, é predatório e se prevalece das fendas sociais para espraiar suas “novidades”, apresentando-se como a solução para problemas produtivos que ele mesmo criou.
É assim que as plataformas se imiscuem na vida e no trabalho, afirmando-se como indispensáveis para as atividades produtivas desde a pandemia, mas deixando como resultado um rastro de degradação da saúde mental, cansaço e solidão. E tudo isso inteligentemente orquestrado sobre um discurso de autonomia, liberdade e sucesso, o qual é vendido incansavelmente por coaches, verdadeiros “gurus” do contemporâneo, que nunca vão te ensinar a ganhar seu primeiro milhão de reais, mas sim te doutrinar a aderir à lógica neoliberal. Ensinamentos estes que se mesclam a outros discursos, como o dos red pills ou até mesmo das trad wives.
A ideologia e as práticas neoliberais nos cercam por muitos lados, mas não basta fechar as abas dos aplicativos para fazer justiça social, pois as plataformas são verdadeiras caixas-pretas, cujas operações, valores e decisões se diluem na capa de mediação tecnológica e comunicacional que elas se arrogam, mascarando sua identidade como meios de produção.
A complexidade desse sistema que é tecnológico, comunicacional e produtivo ao mesmo tempo exige medidas diversas para conter a perversidade da lógica algorítmica que controla não somente as atividades de trabalho de motoristas e entregadores, mas a de professores, jornalistas, juízes, advogados, médicos, nutricionistas, enfim, de todos os profissionais que se valem de aplicações e serviços de plataformas para realizar suas atividades de trabalho.
Ter a assinatura de uma área virtual de trabalho hoje é aceitar que a plataforma seja seu chefe, que ela vigie, controle e se aproprie de informações decorrentes de suas ações de trabalho. Assim, as empresas de plataformas são uma espécie de big brother, aos moldes do que preconizou George Orwell. Elas observam os gestos simples do trabalho para monopolizar o conhecimento proveniente deles e assim ocupam o lugar do “olho do mestre”, como compara o filósofo Matteo Pasquinelli em sua obra The eye of the master: A social history of artificial intelligence (2023).
O olho do mestre é uma alusão ao controle do trabalho exercido pelos gestores nas fábricas e que hoje passa a ser executado pela máquina, neste caso, por um algoritmo e por outras ferramentas de inteligência artificial. Assim, os gestos do trabalho são datificados, semantizados e geram um novo gerente do trabalho. Quer dizer, as informações geradas pelas atividades humanas realizadas nessas interfaces são capturadas, organizadas e classificadas pelo próprio sistema da plataforma, que deixa de ser um meio de trabalho e torna-se também um gerente de mensuração e de controle do trabalho.
De posse das métricas do trabalho vendidas pelas empresas de plataformas para as organizações que empregam ou contratam os profissionais, o trabalhador pode ter feedbacks sobre sua performance. O que por si só não é ruim, pois a avaliação é sempre uma etapa em qualquer atividade de trabalho, mas que ganha contornos prejudiciais quando é usada pela organização para cobrar mais produtividade sem levar em consideração a dimensão qualitativa das ações do trabalhador, ou seja, suas demais competências que não podem ser mensuradas por cliques, pela velocidade de digitação, pelo movimento do olho na tela ou ainda pelo tempo gasto em uma tarefa.
A pesquisadora e coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT), da Universidade de São Paulo (USP), Roseli Fígaro, propõe o conceito de “materialidades sensíveis” para nomear os gestos do trabalho humano vivo, (na terminologia marxista, o trabalho vivo é todo o trabalho realizado pelo humano enquanto o trabalho morto é aquele feito pelas máquinas), capturados pelas empresas de plataformas. Ou seja, ao trabalhar utilizando algum produto ou serviço plataformizado, estamos inserindo informações singulares, exclusivamente nossas, em um sistema tecnológico que as transforma em dados.
Ao investigar a datificação do trabalho de comunicadores, Fígaro observa que ao trabalhar e produzir mercadorias comercializadas no âmbito da comunicação, o comunicador (jornalista, publicitário, gestor de mídias sociais etc) cede suas informações pessoais e de rotinas e procedimentos no trabalho, tornando-se assim ele próprio a mercadoria, ou melhor, uma força de trabalho não remunerada pelas plataformas. Estas se valem de suas informações para gerar dados que serão úteis para sua atualização algorítmica, ou seja, para a oferta de novos produtos e serviços plataformizados.
Diante disso, todos nós, sujeitos produtivos em atividade de trabalho com recursos digitais e online – considerando que a internet hoje é controlada pelas big techs – trabalhamos, em uma certa medida, para as plataformas. E, em nossas narrativas reais, também amargamos com a auto cobrança por produtividade, com a sensação de isolamento, com o desgaste cognitivo do excesso de telas e com várias outras consequências que atribuímos a “desvios de comportamento” individuais, mas que são o resultado da gestão do big boss, da empresa de plataforma.