Pesquisas mostram que a escala 6×1 prejudica a saúde, mas especialistas apontam que a redução requer reorganização produtiva para evitar intensificação do trabalho
Por Vanessa Ayres Pereira
Estudos indicam que jornadas longas de trabalho, como a escala 6×1, tendem a aumentar os índices de adoecimento mental; enquanto jornadas menores podem melhorar o bem-estar sem reduzir a produtividade, desde que acompanhadas de reorganização produtiva eficiente. Mas especialistas alertam: mesmo com planejamento, há risco de intensificação do ritmo de trabalho.
A escala 6×1, que prevê seis dias consecutivos de trabalho e um de descanso, totalizando geralmente 44 horas semanais, predomina nos setores de comércio, serviços e agronegócio no Brasil. Uma mobilização nacional contra o regime ganhou força no fim de 2023, e em 2025 a PEC 8/2025 propôs extingui-lo.
O debate ocorre em meio ao crescimento do adoecimento ocupacional. Em 2025, o Brasil registrou mais de 800 mil comunicações de acidentes de trabalho — o maior número desde 2016 —, sendo 2,8% do total acumulado referentes a doenças decorrentes das condições laborais, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. No mesmo ano, mais de 500 mil afastamentos foram concedidos por transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. E entre 2014 e 2024, as notificações de burnout aumentaram 96,4%, segundo estudo de 2025 da Revista Brasileira de Medicina do Trabalho (RBMT).
Para Ricardo Luiz Coltro Antunes, professor de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, a natureza do adoecimento mudou com o trabalho. Se na era industrial os danos atingiam principalmente o corpo em função do ritmo das máquinas, hoje a pressão por metas e o controle digital tornam o sofrimento mais interiorizado.
Mas a escala 6×1 não explica sozinha o adoecimento, observa Giovanni Antonio Pinto Alves, professor do doutorado em ciências sociais da Unicamp e coautor do livro Precarização do trabalho e saúde mental. A escala funciona como um agravante dentro de uma estrutura que reúne ritmos intensos, salários baixos, gestão por metas e enfraquecimento sindical.

Como a escala afeta a saúde
O principal mecanismo de adoecimento é a redução do tempo de recuperação. Alves chama isso de “erosão das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de vida”. Com apenas um dia de folga, muitos trabalhadores usam o dia livre para tarefas domésticas e descanso físico básico, sem tempo para lazer, convivência, cultura e outras atividades importantes para a saúde mental. O problema se agrava com a necessidade de longos deslocamentos urbanos. Um estudo brasileiro de 2026 na revista Recima documenta esse desequilíbrio e associa a menor frequência de lazer a piores indicadores de saúde mental.
Mulheres podem ser mais afetadas, já que o emprego remunerado se soma ao trabalho doméstico não pago. No estudo da RBMT, mulheres de 35 a 49 anos concentraram 75,6% das notificações de burnout. Os especialistas também apontam trabalhadores mais velhos como grupo vulnerável.
O que acontece com a produtividade
Uma pesquisa publicada em 2025 na Nature Human Behaviour acompanhou 2.896 funcionários de 141 organizações em seis países de língua inglesa, que testaram por seis meses a redução da escala 5×2 para 4×3. Os resultados mostraram melhora nos índices de burnout, satisfação e saúde física e mental, mediadas por menos fadiga, problemas de sono e dificuldade no trabalho.
Segundo Wen Fan, socióloga do Boston College e autora do estudo, 90% das organizações mantiveram a escala após o teste, sem sinais claros de queda de receita, rotatividade ou satisfação dos clientes. Ela ressalta, porém, que é difícil definir produtividade, já que indicadores variam conforme o setor (hospitais e fábricas diferem de escritórios, por exemplo).
O estudo envolveu a escala 4×3, foi conduzida em países desenvolvidos e concentrou-se em empresas de serviços e trabalhadores assalariados, o que limita a generalização das conclusões. Ainda assim, outras pesquisas também associam descanso à eficiência.
Um estudo australiano de 2025 na revista Buildings mostrou que reduzir de seis para cinco dias manteve ou elevou a produtividade percebida na construção civil, com melhor planejamento e menos retrabalho. Já uma pesquisa brasileira de 2024 na revista Aracê indicou que escalas de seis dias ou mais podem prejudicar a produtividade a médio prazo, por fadiga e recuperação ineficiente.
Reorganizar, não apenas comprimir
Antes do teste, as empresas estudadas por Fan passaram por dois meses de preparação. Para a pesquisadora, “a reorganização é elemento-chave” para melhorar o bem-estar sem comprometer produtividade ou receita.
Nessa fase, gestores e empregados revisaram processos, conversaram com organizações que já haviam adotado o modelo e incentivaram as equipes a identificar fluxos de trabalho ineficientes. Para manter o atendimento aos clientes, algumas empresas adotaram equipes em duplas e horários escalonados. Ferramentas de inteligência artificial, segundo Fan, também podem ajudar nesse processo.
Antunes lembra que, apesar da resistência a jornadas mais curtas, as empresas historicamente reagiram à redução investindo em tecnologia e reorganizando o trabalho para preservar a produtividade. “Isso acontece desde os séculos XVIII e XIX quando os ingleses se opunham à redução de jornadas de 18 a 20 horas por dia”, conta o pesquisador.
Não há, porém, fórmula única para reorganização, resume Fan, e ela tende a ser mais difícil em setores como saúde, construção e manufatura, onde a intensidade já é alta.
O risco da intensificação
Ganhos de eficiência não devem ser confundidos com a compressão da carga de trabalho em menos dias. Alves alerta que empresas brasileiras podem tentar compensar a redução da jornada com metas maiores e controle mais intenso sobre quem permanece na equipe.
No estudo de Fan, em casos raros, gestores trataram a redução da escala com ceticismo, mantendo a expectativa de disponibilidade “24×7” (24 horas por dia, sete dias por semana) pelos trabalhadores, o que, segundo ela, pode prejudicar os benefícios do teste.
Do lado dos trabalhadores, alguns continuaram atuando uma ou duas horas no dia de folga, sinal de que ainda estavam se adaptando. Em poucos casos, eles intensificaram o próprio ritmo de trabalho, o que Fan associa, paradoxalmente, a uma tentativa de “retribuir” o benefício recebido.
Para Antunes, porém, esse comportamento pode refletir cobranças por desempenho que persistem após a redução da escala, já que metas crescentes são interiorizadas pelo trabalhador e reforçadas pelos colegas, de modo que a pressão vem não só da chefia, mas da equipe e da cultura de metas. Por isso, reduzir a jornada para promover a saúde também exige revisar metas, dimensionar equipes, acompanhar horas extras e garantir que o dia de descanso seja, de fato, livre.
Antunes resume: “O adoecimento tem a ver com o tempo, mas não só com ele.” E completa “Diminuir o tempo é sempre um ganho para a classe trabalhadora, mas depois ela vai ter uma segunda luta: o empresário vai querer intensificar a jornada, e ela terá que falar: “não, se antes eu produzia 10, eu não vou produzir mais”.
Vanessa Ayres Pereira é graduada em psicologia (UFSCar), com doutorado em análise do comportamento. Bolsista de Jornalismo Científico da Fapesp vinculada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE). Cursa especialização em jornalismo científico no Labjor-Unicamp