Bases biológicas da agressividade

Por Sophia La Banca de Oliveira e Eduardo Cruz Moraes

Lesões cerebrais, hormônios e estresse na infância são alguns dos fatores que podem levar ao comportamento agressivo e antissocial.


O dia 13 de setembro de 1848 era um dia como qualquer outro para Phineas P. Gage, um homem de 25 anos encarregado da construção de ferrovias no estado americano de Vermont. Entre outras funções, Gage era responsável pela denotação de rochas a fim de aplainar o terreno por onde passariam os trilhos. Naquele dia, no entanto, uma explosão fez com que um bastão de ferro de cerca de três centímetros de diâmetro e mais de um metro de comprimento fosse atirado como uma bala de revólver em direção ao rosto de Gage. O bastão o perfurou pela parte inferior da bochecha esquerda, atravessando o olho e a parte frontal do cérebro, rompendo pelo topo do crânio. Para a surpresa de todos, ele não somente sobreviveu, como em poucas semanas já era capaz de andar e falar normalmente. Fora a perda do olho esquerdo e as cicatrizes, não apresentou qualquer tipo de alteração motora, de inteligência ou de memória.

No entanto, algo havia mudado. “Gage não era mais Gage”, seus conhecidos relatavam. Ele passou a apresentar um comportamento impulsivo, ofensivo e indiferente às convenções sociais. Antes um trabalhador responsável, perdera o senso de responsabilidade e não mais obedecia às ordens de seus superiores, o que o levou a ser demitido. Nunca mais teve um emprego fixo. Passou a viajar e a se apresentar como uma aberração em circos, ao lado do bastão de ferro que lhe causou o ferimento. Morreu 13 anos após o acidente devido a complicações provocadas por ataques epiléticos.

Cinco anos após sua morte, o médico que o atendeu, John Harlow, solicitou à família que seu corpo fosse exumado para que seu crânio fosse mantido como um registro médico. Harlow entrevistou pessoas próximas à vítima e publicou um ensaio em 1868 intitulado “Recuperação da passagem de uma barra de ferro pela cabeça”, correlacionando, de maneira inédita, o comportamento agressivo de Gage com as regiões do cérebro lesadas. O caso se tornaria o marco zero de estudos sobre a neurologia do comportamento humano e daria um fim ao dualismo mente-corpo postulada por René Descartes no século XVI. A mente, até então vista como algo imaterial e separada do corpo, passou a fazer parte do corpo físico.

Há alguns anos, os pesquisadores lusitanos Hanna e Antonio Damasio, da Universidade de Iowa, publicaram resultados sobre a reconstituição do caso de Phineas Gage na revista Science. Utilizando técnicas modernas de tomografia computadorizada, concluíram que a trajetória da barra de ferro afetou a região ventromedial dos lobos frontais do cérebro. Os pesquisadores, ao correlacionar os resultados de seu estudo com o registro médico de outros pacientes, constataram que existe um padrão de alteração de comportamento. Ou seja, lesões em determinadas regiões do cérebro podem afetar o processamento de emoções e comprometer questões sociais, mudando a personalidade da pessoa.

Danos em diferentes partes do cérebro e o papel dos neurotransmissores

O cérebro é uma estrutura complexa, e cada região comprometida irá gerar uma resposta diferente. Assim, uma das formas de estudar a função de diferentes estruturas é observar o que acontece quando elas são afetadas.

No caso de Phineas Gage, foi afetado o córtex pré-frontal. Essa é uma região envolvida na tomada de decisões, no planejamento de atividades complexas, no controle de impulsos e na modulação do comportamento social. Várias pesquisas realizadas usando imagem por ressonância magnética mostram que essa região é menos ativa – ou até menor – em criminosos violentos e em pacientes com transtorno de personalidade antissocial (comumente conhecido como sociopatia).

Outro exemplo de problema causado por danos no córtex pré-frontal é a demência fronto-temporal. Esse transtorno normalmente se manifesta entre os 55 e 65 anos e é o segundo mais comum dentre as doenças neurodegenerativas, depois do Alzheimer. Entre outros sintomas, como prejuízo na linguagem, pacientes também apresentam dificuldades em controlar impulsos e respeitar convenções sociais.

Um caso que se tornou objeto de estudo foi o do universitário americano Charles Whitman. Em 1966, ele procurou ajuda de um psiquiatra alegando sofrer com estresse e isolamento. Meses mais tarde, esfaqueou sua mãe e esposa, subiu em uma torre na Universidade do Texas e, usando um rifle, matou 17 pessoas e feriu outras 32. Foi morto na ação por policiais. Em uma carta deixada, alega estar “fora de si” e “tendo pensamentos irracionais”, e instrui que o seu seguro de vida fosse doado a uma fundação de doentes mentais para prevenir tragédias como a que ele estava prestes a cometer. Uma autópsia revelou a existência de um tumor em seu cérebro, pressionando a região da amígdala, localizada no sistema límbico.

O sistema límbico é um conjunto de estruturas envolvidas em várias funções, como controle da emoção, motivação, aprendizado e memória. Desse sistema, duas estruturas estão relacionadas ao comportamento agressivo: a amígdala e o hipotálamo lateral.

Estudos mostram que lesões que reduzam a atividade da amígdala causam também a diminuição do comportamento agressivo. Usando aparelhos de ressonância magnética, pesquisadores observaram que existe um aumento da atividade da amígdala quando as pessoas veem rostos com expressões agressivas. Outra pesquisa mostrou que aqueles que possuem uma maior atividade nessa estrutura tendem a julgar as pessoas como menos confiáveis.

Neurotransmissores também podem modular o comportamento social e a agressividade. O principal é a serotonina – experimentos apontam que a diminuição da substância no córtex pré-frontal aumenta o comportamento violento. Algumas pessoas, por exemplo, nascem com uma variação no gene responsável pelo processamento da serotonina (MAOA). Essa variação, por si, não causa alterações no comportamento, mas quando pessoas com essa variante ficam isoladas, elas se tornam mais agressivas do que aquelas que não possuem a variação.

Dessa forma, é importante destacar que a predisposição genética não é garantia de que determinadas atitudes vão se desencadear. A interação com o ambiente pode ser o diferencial para que atitudes distintas se manifestem.

Estresse na infância

Em 1966 um decreto proibiu o aborto e os contraceptivos na Romênia, proibição mantida até 1989, com o fim do regime do ditador Nicolae Ceauşescu. Nesse período aumentou o número de crianças abandonadas, expostas a condições terríveis. Além da falta de comida, água e eletricidade, muitas eram amarradas aos seus berços e camas e sofriam abuso físico e sexual dos funcionários dos orfanatos. Com o fim do regime, muitas foram adotadas e vieram à tona os efeitos nocivos que o estresse nos primeiros anos de vida pode ter no comportamento social.

Ainda durante a infância, elas já mostravam comportamentos anormais, como chacoalhar as mãos e se balançar para frente e para trás constantemente. Depois, apresentaram dificuldade em formar vínculos afetivos com os pais adotivos. Usando ressonância magnética, foi possível ver que a amígdala dessas crianças reagia de maneira diferente do normal tanto quando elas viam fotos de pessoas estranhas quanto também de familiares. Depois de adultos, se tornaram pessoas muito agressivas e antissociais.

Deborah Suchecki, professora do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, explica que vários modelos animais foram desenvolvidos para verificar os efeitos da negligência na infância. De acordo com ela, mesmo períodos curtos de privação materna em ratos mostram efeitos que se prolongam por toda a vida. “Em ratos adolescentes, notamos que eles são mais ansiosos e deprimidos. Os machos apresentam uma fuga social, não têm curiosidade em explorar outros ratos, o que seria o comportamento natural”.

O estresse na infância também pode alterar a forma como o corpo responde ao estresse durante toda a vida. Quando exposto ao estresse, o corpo reage liberando glicocorticóides. Esses hormônios são necessários para modular a resposta ao estresse, mas quando os níveis se mantêm elevados por muito tempo, podem causar efeitos adversos. O abandono ou perda dos pais podem causar alterações permanentes nesse sistema, levando à liberação de quantidades anormais de glicocorticóides até na idade adulta. Essas alterações estão associadas a vários transtornos psiquiátricos (depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático) e no comportamento social (baixa autoestima e isolamento).

Outra substância que participa do comportamento social é a oxitocina – muito conhecida pelo vínculo entre pais e filhos. Crianças privadas do contato com as mães apresentam baixo nível de oxitocina e, associado a isso, baixo nível de empatia e maior chance de desenvolver transtornos relacionados ao comportamento social, como ansiedade e déficit de atenção.

De acordo com Suchecki, o prejuízo no sistema de oxitocina é considerado um fator agravante em vários transtornos psiquiátricos, como esquizofrenia, depressão, ansiedade social e transtorno de estresse pós-traumático. “Normalmente numa situação de estresse as pessoas buscam o apoio social, são as pessoas bem-adaptadas. Aqueles que se esquivam do contato social normalmente são os que irão desenvolver esses transtornos”.

Apesar dos inúmeros fatores neurobiológicos que podem levar ao comportamento agressivo e antissocial, Claudia Berlim, professora do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que é preciso ser cuidadoso para não achar que a agressividade é determinada apenas por eles. “Essa relação entre o que é ambiental e o que é neurobiológico é muito mais dinâmica do que predeterminada”, ressalta. Para a pesquisadora, é importante alertar que é possível intervir em muitos casos. “Existe o risco de achar que não tem o que fazer. Sempre tem o que fazer, desde que as intervenções sejam precoces”, conclui.

Sophia La Banca de Oliveira é formada em ciências farmacêuticas (UFPR), mestre em bioquímica (USP). Cursa doutorado em psicobiologia (Unifesp) e é aluna do curso de especialização em jornalismo científico Labjor/Unicamp.

Eduardo Cruz Moraes é formado em ciências biológicas e mestre em biologia funcional e molecular. Cursa doutorado em biologia funcional e molecular e é aluno do curso de especialização em jornalismo científico no Labjor (todos os cursos na Unicamp).

Crédito da foto: Kevin Thai/FlickrCC BY-ND