Hypernormalisation de Adam Curtis não é sobre fake news, é sobre a raiz desse mal: o ataque à política

Por Rafael Evangelista

Os cortes, a montagem, a narração afirmativa, a música pop cuidadosamente encaixada e repetida, a seleção cuidadosa de imagens de arquivo e sobras de gravação que nunca foram ao ar, tornam fácil associar o cinema de Adam Curtis ao que ele busca nos alertar: a corrupção do real, do fato, da informação, do encadeamento histórico em benefício de uma mistura histérica e manipulativa entre realidade e ficção. A escolha irônica desse formato, que por vezes afasta alguns espectadores descrentes, é a grande força de Curtis, é o que torna seus documentários tão impactantes e atuais. Mas não devemos nos enganar, o cineasta inglês é, acima de tudo, um jornalista, um rato de arquivo mergulhado na memória do noticiário internacional, cuidadosamente elencando acontecimentos, interesses e ideias vindas de áreas díspares da cultura e da economia global. A sua maneira, Curtis é também um divulgador crítico da ciência e das teorias sobre o homem. Seus temas e análises, embora pareçam tirados da cartola, sempre estão em diálogo com intelectuais críticos do nosso tempo, muitos deles figurando nos próprios filmes.

Hypernormalisation, o mais recente longa, não foge da tematização de suas questões consagradas. Estão lá assuntos que Curtis vem discutindo cumulativamente, e agregando desde pelo menos Pandora’s box (1992): a tomada tecnocrática do mundo; o ocaso da política tradicional; o individualismo de nosso tempo; os ataques e a derrocada das organizações dos trabalhadores; a crítica às explicações simplistas e seu uso como ferramenta de gerenciamento das populações globais. A esses temas Curtis vem agregando, desde outros longas como The trap (2007) e All watched over by machines of loving grace (2011), uma crítica certeira às utopias sobre a internet e às tentativas de busca de estabilidade política global – “estabilidade” entendida como um sistema de gerenciamento de pessoas por meio de computadores e redes informacionais, necessária apenas na medida exata para não perturbar excessivamente o sistema financeiro e de lucros das empresas transnacionais.

Donald Trump, Vladimir Putin, a família Assad, da Síria, e Muammar al-Gaddafi são os protagonistas da nova trama, em um movimento narrativo ininterrupto e circular entre Estados Unidos, mundo árabe e Rússia.

A história começa entre os anos 1960 e 1970, num contexto de crise global, em que os políticos tradicionais e a política que pensava ser possível atuar para mudar o mundo vão dando espaço progressivo à tecnocracia financeira e aos gerentes não-políticos. Pressionados por dívidas, os administradores públicos entregam o comando aos bancos. Ali começa um descolamento, em que a comunicação vai deixando de ser algo ligado ao elencar de fatos que levam à mobilização pela mudança social e pelo bem comum, para se tornar uma farsa de inspiração hollywoodiana, com a função de distrair e deixar as pessoas confusas sobre o que é ficção e o que é realidade. Curtis conecta a frustração com o enfraquecimento daquela comunicação com sua outra versão, aquela que abre espaço para uma cultura política baseada no escapismo, na arte irônica e no individualismo.

Jane Fonda, a ativista política tornada símbolo dos vídeos de ginástica dos anos 1980; John Perry Barlow, o hippie dos anos 1960 que virou apologista da liberdade no mundo virtual; e Timothy Leary, guru do LSD, são emblemas dessa fuga individualista criticada por Curtis. A ênfase passa a ser em mudanças pessoais que, se popularizadas, tornariam o mundo melhor – ou, ao menos, permitiria aos sujeitos controlarem algo em suas vidas. O LSD abriria a percepção dos indivíduos, o corpo exercitado vira sinônimo de vida saudável, na internet residiria a verdadeira fuga das hierarquias, onde todos são pontos iguais na rede. O tempo todo o filme oscila entre um exame dessas utopias e o descortinar de uma realidade em que as populações têm sua percepção do real gerenciada a partir de sistemas de informação e de inteligência artificial. Bolhas que hipernormalizam uma realidade externa aberrante de guerras, violência e disputas de poder.

A confusa situação no Oriente Médio é o grande fio condutor do documentário. Curtis mostra como um personagem folclórico como Gaddafi foi manipulado para ser significado como grande vilão global dos anos 1980, responsável pelos males do mundo por ser um tirano frio que, se removido do poder, permitiria a emergência da democracia e da liberdade. Não que Gaddafi seja inocente. Mas seu protagonismo no mundo do terror teria sido uma versão simplificada e distorcida, a ser vendida para a opinião pública global, de uma disputa de poder em que entre Estados Unidos, Síria e Israel não há mocinhos. O momento em que Gaddafi é transformado em aliado dos EUA e da Inglaterra, após aderir a privatizações e à aliança do Ocidente contra a al-Qaeda, contrasta com o contexto seguinte, a Primavera Árabe, quando os EUA ajudam os rebeldes do país na captura do envelhecido líder. Por trás de toda essa história estão relações conflituosas de vingança e traição estabelecidas entre Síria e Estados Unidos no contexto da guerra entre Líbano e Israel, em 1982, devido a refugiados palestinos.

Embora extremamente complexo e nada maniqueísta, como a realidade, o mundo de Adam Curtis sempre parece um lugar pequeno. Histórias pessoais e ações isoladas se inter-relacionam num fluxo de aparentes coincidências. É outro de seus recursos narrativos que não deve ser mal interpretado. Os personagens de Curtis são apenas em pequena medida senhores hiper-racionais de suas ações e do destino do mundo. Ao contrário, o que os move é o próprio fluxo dos eventos econômicos e políticos e, principalmente, as ideias e ideologias costuradas pelos cientistas e intelectuais de cada tempo.

Nesse sentido, Trump e Putin (e suas eminências pardas, Steve Bannon e Vladislav Surkov) são mais oportunistas espertos do que formuladores de grandes esquemas de enganação. Não inventam sistemas propriamente novos, aprendem com os existentes e os aperfeiçoam para seus fins. Hypernormalisation não é um documentário sobre as fake news e só lateralmente trata da tal pós-verdade. É um ótimo contexto para se entender o fenômeno Trump e a emergência da nova direita nacionalista e violenta, mas o é justamente porque não pretende explicá-los de maneira simplista, como fontes de todo o mal, tal qual o Gaddafi dos anos 1980.

Hypernormalisation, como boa parte da obra de Curtis, é sobre os ataques que a política – e por consequência a democracia – vem sofrendo desde os 1960-1970. É nesse período que começa o desmonte do Estado de bem-estar social, solução para a crise que emerge como a mais fácil para a manutenção dos sistemas de poder. No processo, diversas instituições – como a imprensa, a academia etc – vão se dissolvendo em conjunto, em um processo auxiliado por um conjunto complexo de ideias emergentes sobre o mundo, a natureza e a liberdade. Uma das partes finais do documentário, que traz cenas da conclusão do filme Carrie, a estranha, de Brian de Palma, talvez ajude formar uma imagem ilustrativa dos tempos contemporâneos, em que frustração e revolta podem ter consequências catastróficas. Carrie, alvo constante de gozação dos colegas por ser quieta e sensível, é eleita rainha do baile de formatura. Mas tudo não passa de uma pegadinha. Em cima do palco, em seu momento máximo de felicidade, Carrie ganha um banho de sangue de porco, sendo humilhada e ridicularizada por toda a escola. Enfurecida, tendo descoberto poderes telecinéticos recentemente, Carrie usa seus poderes para trancar as portas e por fogo no ginásio, matando a todos igualmente.

Hypernormalisation
Lançado em 16 de outubro de 2016
Duração aproximada: 2h45
Roteiro e direção: Adam Curtis
Produtora executiva: Victoria Jaye
Produtora: Sandra Gorel

 

Rafael de Almeida Evangelista é graduado em Ciências Sociais (1998), mestre em Linguística (2005) e doutor em Antropologia Social (2010), todos os títulos pela Unicamp. Também é especialista em Jornalismo Científico (2000). Como pesquisador tem trabalhado com os temas: história e ideologias das tecnologias da informação; utopias da cibernética e cultura do Vale do Silício; gameficação; redes sociais, internet e trabalho não remunerado; regulação da internet e vigilância em sistemas informacionais. E-mail: rae@unicamp.br