A atualidade de um editorial de 150 anos

Por Peter Schulz

A divulgação científica hoje faz parte da agenda de discussões sobre ciência com uma intensidade que parece inédita no contexto de negacionismo científico e ataques à ciência que presenciamos. No entanto, divulgação científica (ou popularização da ciência ou ciência popular) tem historiografia rica. Rica, mas em crise recente com debates sobre mudanças para um paradigma em que ciência e sua divulgação/popularização não deveriam ser categorias separadas, por tão entrelaçadas, embora diferentemente em distintos lugares e tempo.

Observando o surgimento de tantas novas iniciativas de divulgação científica, um olhar para sua história torna-se ainda mais importante. Inevitável nesse olhar fazer recortes e assim apresentamos uma iniciativa passada de importância aparentemente esquecida. A revista Popular Science Montlhy foi lançada em 1872 e editada por seu idealizador Edward Livingston Youmans (1821-1887) até sua morte. A revista seguiu, modificando propósitos e enfoques, sobrevivendo até hoje com o nome Popular Science, ou PopSci, cujo portal não dá pistas de sua incrível história https://www.popsci.com/.

É o trabalho do editor e a fase inicial da revista que chamaram a atenção de William Edward Leverette na elaboração sua tese de doutorado, defendida em 1963[i]. O historiador destaca nos capítulos de sua tese o papel da revista na defesa da teoria da evolução, “a grande cruzada: a demanda pela autonomia e respeitabilidade científicas”, bem como “as implicações éticas e sociais da ciência”. Na introdução da tese o cenário a ser estudado:

“Esse estudo apresenta evidências não só do choque de valores entre cientistas e tradicionalistas, mas também sobre a divisão entre as respectivas premissas metafísicas e epistemológicas que fundamentam os sistemas de valores dos dois grupos. De fato, o conflito de valores foi a base para a real ou imaginária polarização entre essas visões de mundo [...] As questões, levantadas de forma precisa nas páginas de Popular Science Montlhy, ainda são básicas e a dificuldade em reconciliar as diferenças entre ciência e tradição são frequentemente consideradas como as raízes da confusão atual sobre valores éticos e espirituais”.

O “atual” da citação acima era 1963, que guarda semelhanças com a polarização e confusão contemporâneas, analisando a revista surgida há 150 anos. Vários de seus artigos foram e vêm sendo reproduzidos; aqui apresentamos a tradução do visionário editorial de lançamento. As várias edições da revista estão disponíveis na wikisource[ii].

“FINALIDADE E PLANO DE NOSSO EMPREENDIMENTO”
1872
[grifos do editor da ComCiência]

A revista Popular Science Monthly foi lançada para auxiliar no trabalho rumo a uma sólida educação pública, fornecendo artigos instrutivos sobre os principais assuntos de pesquisa científica. Ela conterá artigos originais e selecionados sobre uma ampla gama de assuntos dos cientistas mais capazes de diferentes países, explicando suas opiniões aos leigos. É necessária uma revista dedicada a esse propósito já que, embora em geral a imprensa faça muito pela divulgação de artigos leves e fragmentos de informação, muitas discussões científicas de mérito e importância são ignoradas. Portanto, é uma boa ideia reunir essa classe de contribuições em benefício de todos os interessados no avanço das ideias e na difusão de conhecimentos valiosos.

É inegável o crescente interesse pela ciência, por seus fatos e princípios, suas aplicações práticas e sua influência na opinião. E, com esse interesse crescente, está surgindo um significado novo e ampliado do termo que é importante notarmos. Agora se entende por ciência o conhecimento mais exato que pode ser obtido da ordem do universo que rodeia o homem e do qual ele faz parte. Essa ordem foi inicialmente percebida em simples coisas físicas e o rastreamento dessa ordem deu origem às ciências físicas. Em seus primórdios, portanto, a ciência pertencia a certos ramos do conhecimento e, para muitos, o termo ciência ainda implica ciência física.

Mas essa é uma concepção errônea do real escopo da ciência. O crescimento da ciência envolve uma ampliação bem como uma progressão. A aparente ordem das coisas se mostra muito mais extensa do que se suspeitava inicialmente; e o questionamento sobre ela levou a camada sobre camada de novas investigações, até que agora se considera que a ciência não se aplica a esta ou aquela classe de objetos, mas a toda a natureza — como sendo, na realidade, um método da mente, uma qualidade ou caráter de conhecimento sobre todos os assuntos nos quais podemos pensar ou conhecer.

O que alguns chamam de progresso da ciência e outros chamam de intromissões da ciência, é, sem dúvida, o grande fato do pensamento moderno, implicando um método mais crítico de investigação aplicado a assuntos que antes não eram tratados de forma tão estrita. O efeito foi que muitos indivíduos, antes amplamente afastados das ciências reconhecidas, se aproximaram mais delas, e passaram a ficar mais ou menos completamente sob a influência do método científico de investigação. Quaisquer assuntos que envolvam fenômenos acessíveis e observáveis, um causando o outro ou, de qualquer forma, relacionados a outro, fazem devidamente parte da ciência para investigação. O intelecto, sentimento, ação humana, linguagem, educação, história, moral, religião, direito, comércio e todas as relações e atividades sociais atendem a tal condição. Cada uma tem sua base de fato, que é o assunto legítimo da investigação científica.

Portanto, as pessoas que consideram que a observação, o trabalho de laboratório ou a dragagem do mar para classificar espécimes é tudo de que é feita a ciência, cometem um grave erro. Na realidade, a ciência significa observação inteligente e contínua da natureza dos homens, bem como da natureza dos insetos. Significa a análise da minha natureza, bem como a natureza das substâncias químicas; significa escrutínio das evidências em relação a teorias políticas, tão inexoráveis quanto as aplicadas às teorias dos cometas. Significa o rastreamento da causa e efeito nas sequências de conduta humana, bem como nas sequências da mudança atmosférica. Significa uma pesquisa indutiva rigorosa sobre como a sociedade passou a ser o que é, assim como os sistemas rochosos passaram a ser o que são.

Em suma, a ciência não é o mistério de uma classe, mas o interesse comum dos seres racionais, em quem o pensamento determina a ação, e cuja maior preocupação é que o pensamento seja inserido na mais exata harmonia com as coisas — e essa é a finalidade suprema da educação.

Se nesta declaração do escopo e do trabalho da ciência não enfatizamos essas grandes conquistas que deram poder ao homem sobre o mundo material, não é porque as subestimamos. São resultados nobres, mas são abundantemente elogiados, e seu próprio esplendor acaba por obscurecer a visão de outras conquistas, menos evidentes, mas ainda mais importantes. Telégrafos, motores a vapor e os milhares de dispositivos aos quais a ciência levou são coisas importantes. Mas, afinal de contas, qual é o seu valor comparado com a emancipação do espírito humano da servidão da ignorância, que o mundo deve à ciência? É exatamente para apreciar o que a ciência realizou para a humanidade que devemos nos lembrar não apenas que a ciência elevou os homens à compreensão e apreço da bela ordem da natureza, mas que a ciência pôs fim às superstições nefastas pelas quais, por anos, a vida dos homens foi obscurecida, pôs fim aos sofrimentos da bruxaria e aos terrores da imaginação ignorante que encheu o mundo de crenças malignas.

É essa imensa extensão da concepção da ciência, na qual todos os assuntos mais elevados de interesse humano agora se incluem, que dá à ciência uma crescente atenção por parte do público. Além de seu uso indispensável em todas as atividades e de sua constante aplicação no âmbito da vida cotidiana, a ciência também está afetando profundamente todo o círculo de perguntas, especulativas e práticas que, há gerações, vêm agitando as mentes dos homens. O indivíduo que se importa em saber para onde a investigação está tendendo, ou como a opinião está mudando, quais ideias antigas estão desaparecendo e quais novas estão conquistando aceitação – em resumo, quem deseja estar atualizado quanto aos movimentos contemporâneos no mundo do pensamento – deve dar atenção ao desenvolvimento da investigação científica. Acreditando que há muitas dessas pessoas neste país, e que elas certamente se tornarão mais numerosas no futuro, a Popular Science Monthly foi lançada com a intenção de atender às necessidades dessas pessoas mais perfeitamente do que qualquer outro periódico que possam obter.

Ha séculos a obra de criar ciência está organizada. Sociedades reais e academias científicas têm centenas de anos. Os homens de ciência têm suas revistas, em todos os departamentos, nas quais relatam aos outros os resultados de trabalho original, descrevem seus processos, envolvem-se em críticas mútuas e cultivam uma literatura especial no interesse do avanço científico.

Entretanto, o trabalho de divulgar a ciência até agora ainda não está perfeitamente organizado, embora claramente seja a próxima grande tarefa da civilização. Os sinais, no entanto, são promissores. Escolas de ciências estão surgindo em todos os países esclarecidos e antigas instituições educacionais estão cedendo ao espírito reformista, modificando e modernizando seus sistemas de estudo. Há, além disso, uma crescente simpatia por parte dos homens de ciência de caráter superior com o trabalho do ensino popular e uma crescente prontidão para cooperar com empreendimentos que promoverão tal ensino. Há, de fato, um crescimento na valiosa literatura de ciência popular — não o lixo que agrada à ignorância pública, à admiração e ao preconceito, mas palestras e ensaios qualificados e instrutivos de homens que são autoridades nos assuntos que abordam. Mas a tarefa de divulgar sistematicamente essas valiosas produções ainda não é executada com perfeição, e propomos contribuir com o que pudermos para isso na presente publicação.

A Popular Science Monthly atrairá não aos iletrados, mas sim às classes geralmente instruídas. Há centenas de universidades, faculdades, academias e escolas de ensino médio neste país, sendo que seus diplomados se contam às centenas de milhares. Sua cultura geralmente é literária, com apenas uma pequena porção de ciência elementar; mas eles têm mentes ativas e competência para acompanhar o pensamento conectado em inglês não técnico, mesmo que nem sempre tão de perto. Nossas páginas serão adaptadas às necessidades dessas pessoas e lhes permitirão continuar o trabalho de autoinstrução em ciência.

O presente empreendimento é experimental. Propomos fazer uma tentativa justa com ele, mas caberá ao público decidir se a publicação deve continuar. Todos os que simpatizam com os objetivos deste empreendimento estão convidados a fazer o que puderem para ampliar sua circulação.”

Peter Alexander Bleinroth Schulz foi professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em física e cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010). Foi secretário de comunicação da Unicamp, encerrando sua gestão de 4 anos em abril de 2021.

[i] https://search.proquest.com/docview/302149253

[ii] https://en.wikisource.org/wiki/Popular_Science_Monthly