Imagem: Cena de expedição da Comissão Científica de Exploração ao Ceará, 1859 (crédito: José dos Reis Carvalho, 1798-1892/Museu Dom João VI, Rio de Janeiro)

Além da ciência: expedições como peças da geopolítica e da soberania

Por Magali Romero Sá

Imagem: Cena de expedição da Comissão Científica de Exploração ao Ceará, 1859 (crédito: José dos Reis Carvalho, 1798-1892/Museu Dom João VI, Rio de Janeiro/Wikimedia Commons)

As expedições de exploração atuaram de forma decisiva na expansão de fronteiras, no mapeamento dos recursos naturais, na compreensão da geografia, no registro das populações locais e nativas e de seus modos de vida, na produção de mapas e itinerários, na coleta de espécimes botânicos e zoológicos e na elaboração de relatórios destinados a governos e instituições.

A formação de coleções científicas, principalmente entre os séculos 18 e 19, refletia as iniciativas de expansão dos impérios europeus e, posteriormente, dos Estados Unidos, nos trópicos. Expedições de coleta financiadas pelos governos eram frequentemente organizadas para atender a interesses nacionais e coloniais, nos quais as explorações científicas e o prestígio associado às descobertas constituíam parte integrante dos empreendimentos. O conhecimento produzido durante essas viagens também se configurava, portanto, como uma forma de poder.

A produção de mapas, descrições geográficas, inventários da fauna e da flora, levantamentos hidrográficos e informações sobre recursos minerais ou agrícolas podia adquirir valor estratégico e constituía formas de tornar o território legível para diferentes projetos políticos e econômicos.

As expedições atravessavam territórios submetidos a diferentes formas de domínio, fronteiras em construção, áreas disputadas entre Estados e regiões consideradas estratégicas por seus recursos naturais e por sua posição geográfica. Nesse contexto, conhecer um território significava também produzir condições para governá-lo, explorá-lo, incorporá-lo a redes de circulação e, em determinadas circunstâncias, reivindicá-lo.

No Brasil, as expedições estrangeiras, principalmente durante a primeira metade do século 19, tiveram papel predominante na exploração e na descrição do território e na formação de coleções científicas. A partir de meados do século 19 e, sobretudo, no início do século 20, porém, o Estado brasileiro passou a apoiar e a promover de maneira mais sistemática a exploração científica de seu próprio território, buscando conhecê-lo, integrá-lo e afirmar sua soberania.

A Comissão Científica de Exploração, criada em 1859, o apoio a naturalistas em suas expedições, a exploração de diferentes regiões do país e a formação de coleções destinadas aos museus e aos Jardins Botânicos são exemplos desse processo. A Comissão Rondon representa um momento particularmente significativo dessa articulação entre ciência, conhecimento territorial e construção do Estado nacional. Suas expedições contribuíram para o levantamento geográfico e científico de regiões ainda pouco conhecidas, ao mesmo tempo em que estavam associadas à abertura de vias de comunicação, à instalação de linhas telegráficas e à integração territorial.

A Amazônia, o sertão, as florestas e os rios tornaram-se, assim, espaços privilegiados de produção de conhecimento, mas também de disputas e projetos de ocupação, circulação e integração territorial.

Porém, quando pensamos em expedições, é necessário considerar os oceanos para além do ambiente terrestre. A exploração científica do mar introduziu novas dimensões na relação entre conhecimento, território e soberania. O estudo dos oceanos e de seus recursos não se limitava à produção de conhecimento sobre um espaço natural. O mapeamento do fundo marinho, o conhecimento das correntes, o levantamento da biodiversidade e a identificação de recursos biológicos e minerais contribuíam para transformar o oceano em um espaço de interesse científico, econômico e estratégico.

O resultado dessas expedições era apresentado ao grande público em museus e exposições, onde coleções, mapas, espécimes e instrumentos científicos ajudavam a materializar e a divulgar o conhecimento produzido pelas viagens. Esses espaços contribuíam para associar ciência, prestígio nacional e projetos de expansão territorial e econômica.

A circulação internacional do conhecimento produzido pelas viagens de exploração abriu possibilidades de cooperação entre instituições e pesquisadores, mas também distribuiu de maneira desigual a capacidade de produzir, validar, organizar e controlar esse conhecimento. A coleta de espécimes, a formação de coleções, a produção de mapas e a publicação dos resultados das expedições inseriam-se em redes internacionais nas quais diferentes atores ocupavam posições desiguais.

Conhecer o território, sua biodiversidade e suas riquezas naturais foi, portanto, e continua sendo, uma questão estratégica. Hoje, novas ferramentas de exploração e análise – imagens de satélite, sistemas de informação geográfica, bancos de dados de biodiversidade, coleções digitais, sensoriamento remoto e pesquisas sobre o oceano profundo, inclusive com o uso de inteligência artificial – ampliaram a capacidade de produzir informações sobre territórios e ambientes.

Nesse sentido, as expedições devem ser analisadas não somente como atividades científicas, mas também como empreendimentos responsáveis por produzir formas de ver, representar, classificar, ocupar, integrar e administrar territórios, bem como por gerar conhecimentos estratégicos sobre esses espaços.

Magali Romero Sá é doutora em História e Filosofia da Ciência (Universidade de Durham – Reino Unido, 1996), assessora especial da Direção da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e coordenadora da Cátedra Oswaldo Cruz Unesco.