Obra aponta riscos para o Brasil com extrativismo de terras raras

 Por Andrea Rosendo da Silva

A obra Rede global extrativa de terras raras: asfixia territorial no Brasil, escrita pelo geógrafo Ricardo Gonçalves, destaca-se no cenário da geografia crítica por discutir a expansão da fronteira mineral e seus impactos no Brasil e nos demais países da América Latina.

O Brasil é detentor da segunda maior reserva mundial de terras raras, ficando atrás apenas da China. Com 21 milhões de toneladas, o país consolidou-se como um território estratégico e peça-chave nas atuais disputas geopolíticas entre as grandes potências globais. Os investimentos no setor saltaram de R$ 6 milhões em 2016 para R$ 1,1 bilhão em 2023. É sobre esse tema que o autor, que é também professor da Universidade Estadual de Goiás, estrutura sua obra em quatro capítulos.

O livro contextualiza o salto exponencial na produção global de terras raras, que subiu de 110 mil toneladas em 2014 para 370 mil em 2024. Empregando a pesquisa qualitativa e quantitativa, demonstra que a hegemonia da China, que produz 270 mil toneladas anuais e detém 90% do potencial de refino global, pressiona os EUA a reduzir sua dependência externa.

Ao concentrar quase 23% do total global de terras raras, o Brasil tornou-se o epicentro de uma nova fronteira mineral marcada por intensa interferência estrangeira. Essa expansão avança sobre Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, com a Bahia destacando-se como eixo prioritário ao abrigar 844 processos minerários, concentrados especialmente no município de Jequié, onde a australiana Brazilian Rare Earths domina a disputa territorial. Em Goiás, estado que possui o terceiro subsolo mais disputado do país para esses elementos, a Serra Verde Pesquisa e Mineração (Minaçu), controlada por fundos dos Estados Unidos, consolidou, em 2024, a primeira produção comercial do país voltada à exportação. O avanço dessas empresas é reforçado pela chilena Aclara Resources, que projeta investir US$ 599 milhões em Nova Roma para iniciar operações em 2028, e pela canadense Appia, que acelera empreendimentos em Iporá após confirmar recursos de 13,6 milhões de toneladas de minério. Simultaneamente, em Minas Gerais, a canadense Resouro Strategic Metals amplia o controle sobre jazidas estratégicas.

Embora o autor apresente dados relevantes sobre a Bahia e Minas Gerais, a análise empírica concentra-se de forma mais densa em Goiás, território onde Gonçalves desenvolve pesquisas. Por meio da intersecção entre as áreas de geografia crítica e ecologia política, demonstra como a territorialização desse modelo mineral impacta severamente a água, saúde e paisagens, promovendo situações de profundo sofrimento e injustiça ambiental. Sua reflexão tem como base teórica a noção de “asfixia territorial”, conceito fundamental para analisar o avanço das fronteiras extrativistas e descrever o cercamento, a fratura e o controle de territórios de vida que impõem medo e sofrimento às comunidades.

O trabalho do geógrafo assemelha-se a uma denúncia, pois argumenta que, embora essas empresas operem sob o discurso da “mineração verde”, o que ocorre é um controle efetivo sobre terras e águas ao declarar o solo como “estratégico”, submetendo as populações a uma lógica de expropriação e injustiça ambiental. Para o autor, essas corporações do setor mineral fazem uma “maquiagem climática”, em que o discurso da sustentabilidade é instrumentalizado para legitimar a exploração predatória e ocultar a criação de novas “zonas de sacrifício”.

Em seu estudo, por meio da categoria Matees (Minerais para armamentos, tecnologias e expansão energética), o pesquisador revela que minerais extraídos sob o pretexto de “salvar o planeta” alimentam, na realidade, a indústria bélica na produção de mísseis, drones e submarinos. Essa interpretação demonstra como a asfixia territorial desestrutura a existência e a identidade dos sujeitos em seus próprios espaços de vida, uma vez que esses territórios são transformados em ilhas de exploração voltadas exclusivamente à exportação de matérias-primas.

Com o objetivo de colaborar com o debate de movimentos populares e instrumentalizar sua resistência, o texto mapeia o impacto devastador dessa lógica sobre os Territórios de Interesse Socioambiental (TIS). Na Bahia, o estado já concentra o maior volume dessas concessões no Nordeste, representando uma grave problemática socioeconômica para comunidades camponesas; enquanto em Goiás, a asfixia territorial é evidenciada pela incidência de 34 processos sobre a APA Pouso Alto e 21 sobre territórios quilombolas, como o dos Kalunga. Esse cenário acarreta riscos imediatos de expropriação compulsória e contaminação radioativa de águas e solos. O caso do município de Minaçu é apresentado como crítico: após décadas de extração de amianto, a cidade enfrenta agora a “minério-dependência” das terras raras, exportando sua produção majoritariamente para a China enquanto lida com os danos de um desastre socioambiental permanente.

Periferia extrativista

A obra discute o papel estratégico do país na nova fronteira mineral global. Situando a narrativa no cenário atual, posiciona a mineração de terras raras dentro de um complexo xadrez geopolítico marcado pela disputa entre Estados Unidos e China.

Esse movimento é analisado como um processo que ameaça consolidar o Brasil e outros países do Sul Global na condição “periferia extrativa”, exportando bens minerais sem valor agregado e permitindo que o subsolo seja megaminerado por corporações subordinadas ao mercado global. O cenário é agravado por legislações recentes que buscam dar celeridade ao licenciamento mineral em nome de uma suposta “excepcionalidade” do setor, o que fragiliza a proteção ambiental e os direitos territoriais.

Para o autor, sem soberania tecnológica e justiça ambiental, a atual “corrida do ouro” será apenas uma nova roupagem neoextrativista para velhas formas de opressão territorial.

Andrea Rosendo é mestre em comunicação (UFPR) e cursa especialização em jornalismo científico no Labjor/Unicamp.