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O Estado como peste

Por Roberto Romano

A pandemia dizima milhões de pessoas em tempo rápido.  Ela traz a ruína de Estados, economias, sociedades. Ao surgir sem previsão seus ataques corroem culturas, restauram crendices, exasperam a insegurança coletiva. Ela radicaliza tragédias vividas pela Humanidade desde os mais remotos tempos. Um de seus modernos efeitos calamitosos é o acirramento de ideologias. É como se, ao aproveitar a irrupção malsã, formas cruéis de pensamento ressurgissem em todas as nações. O nazismo, o fascismo e forças religiosas retrógradas apresentam caraterística comum, pois desprezam e refazem calúnias contra a ciência, sobretudo no terreno médico. “Deus, Pátria, Família”– o lema dos que defendiam o Sigma – ilustra a nova guinada do poder erguido sobre o irracional. A pesquisa paciente e serena, a busca incessante de fatos e de evidências, as tentativas de localizar remédios, tudo de repente é preterido, vencem as mensagens trocadas na internet. Os atentados misólogos  brotam dos lábios de quem  preside o país. No atual governo ninguém escapa da crendice autoritária, sobretudo os que deveriam gerir a saúde. Continue lendo O Estado como peste

A desdemocratização e seu rastro

Por Luis Felipe Miguel

ilustração de Céllus

Como foi possível a vitória de Bolsonaro, em 2018? Os analistas políticos elencam um bom número de motivos – o veto de setores poderosos ao Partido dos Trabalhadores e à centro-esquerda em geral, as intervenções de força que macularam a legitimidade do pleito (como a prisão do ex-presidente Lula), a massiva campanha de desinformação, o efeito da facada de Juiz de Fora. Ainda assim, é chocante pensar que quase 58 milhões de brasileiros julgaram que o ex-capitão, com tão notória ficha corrida, poderia ocupar a presidência da República. Passados quase dois anos e meio, a pergunta é outra, e ainda mais desafiadora. Como é possível que ele permaneça no cargo? Continue lendo A desdemocratização e seu rastro