Arquivo da categoria: artigo

Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma

Por Roberto Moraes

Depois de duas décadas de utopia digital [1] e de uma crença difusa na ideia do progresso advinda da tecnologia, a sua utilização como ciência aplicada do conhecimento se impõe sobre a vida social e sobre todos os outros setores da economia. Sem exagero hoje é possível afirmar que a tecnologia exerce uma imposição dominante sobre a sociedade no mundo contemporâneo. No intervalo destas duas décadas saltamos da utopia digital para outra ideia difusa e, aparentemente solidária, da economia do compartilhamento, logo absorvida pelo mercado que passou a divulgar outra ideia, a de que teríamos passado a viver uma fase de inovação disruptiva. Continue lendo Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma

Virtualidade sem virtude: a realidade do capital fictício

Por Artur Araújo

À medida que as finanças se descolam de seu papel histórico e positivo – adiantar fundos para que produção, consumo, investimento possam ser antecipados – e passam a ditar todo o processo econômico, a dinâmica das sociedades é brutalmente subvertida. Uma economia mundial que tem por centro a virtualidade do capital fictício é refém de crises também virtuais e fictícias, porque desencadeadas, muito subitamente e sem sinalizadores prévios claros, por fenômenos mais afetos ao campo da psicologia de massas. Efeito manada, esquemas de pirâmide, deslocalização geográfica, especulação via manipulação de informações assimétricas, comando do noticiário e da formação de sensos comuns e de terrores coletivos, todas são características do planeta das finanças desreguladas. A virtualidade das finanças desvirtua as funções do Estado e torna as sociedades nada virtuosas, já que as maiorias pagam os efeitos deletérios do grande cassino em que joga um oxímoro ambulante, a ‘minoria esmagadora’. Continue lendo Virtualidade sem virtude: a realidade do capital fictício

Trabalho virtual?

Por Ricardo Antunes

Não há celulares, computadores, satélites, algoritmos, big data, internet das coisas, Indústria 4.0, 5G, ou seja, nada do chamado mundo virtual e digital que não dependa do labor que começa nos subterrâneos. Se o trabalho virtual não cessa de se expandir, é bom não esquecer que nenhum smartphone ou tablet pode sequer existir sem a interação com as atividades humanas, inclusive aquela que nos remete às cavernas: a extração mineral. Sem a produção de energia, cabos, computadores, celulares e tantos outros produtos materiais; sem o lançamento de satélites; sem a construção de edifícios onde tudo isso é produzido e vendido, sem a produção e a condução de veículos que viabilizem sua distribuição, a internet não poderia sequer existir. Nas plataformas digitais, os algoritmos, concebidos pelas corporações globais para controlar tempos, ritmos e movimentos de todas as atividades laborativas, foram o ingrediente que faltava para, sob uma falsa aparência de autonomia, impulsionar, comandar e induzir modalidades intensas de extração do sobretrabalho, nas quais as jornadas de 14 (ou mais) horas de trabalho estão longe de ser a exceção. Continue lendo Trabalho virtual?

Sobre anjos e fugitivos

Por Peter Schulz

Na virtualização total criada por Adolfo Bioy Casares em 1940 no romance A invenção de Morel, um fugitivo, injustiçado, que precisa esconder-se de todo o mundo, refugia-se em uma ilha, onde a invenção que dá nome à obra cria ali um mundo com personagens virtuais. A profusão de seminários e encontros virtuais, às vezes quase simultâneos,  aos quais podemos comparecer, faz lembrar o anjo Damiel no filme As asas do desejo: observador presente a tudo, não pode interagir fisicamente com os humanos e para isso escolhe deixar de ser anjo. Continue lendo Sobre anjos e fugitivos

De pandemia, quarentena, virtualização e home office

Por Roger Modkovski

Em meio às incertezas da quarentena do coronavírus, lembrei de um episódio de meados da década de 1990.

Plantonista da madrugada da Folha de S.Paulo, o jovem jornalista aqui chegou para trabalhar numa noite qualquer e foi recebido pela chefe com uma nova incumbência:

– A partir de agora, vocês serão responsáveis por atualizar a homepage do portal durante a noite. Alguma dúvida?

– Duas. Primeiro, o que é homepage? Segundo, o que é portal? Continue lendo De pandemia, quarentena, virtualização e home office

No ciberespaço, todos são imortais: por que celebridades estão criando clones virtuais?

Por Lidia Zuin

Com cada vez mais nossa individualidade e existência resumidas às imagens virtuais, diferentes projetos almejam o ‘upload’ da mente e a imortalidade através de avatares. Continue lendo No ciberespaço, todos são imortais: por que celebridades estão criando clones virtuais?

Instrumentação maquínica: como as plataformas sociais produzem nossa desmobilização política cotidiana

Por Rafael Evangelista

Enquanto o totalitarismo transforma a alma dos sujeitos, seu motor interior, o “instrumentarismo” trata os indivíduos como máquinas informacionais ou como animais em experimentos do behaviorismo radical: estímulos elaborados para a obtenção de determinadas ações. O modo de atuação do instrumentarismo envolve um conjunto complexo e variado de influências sutis, pouco ou nada perceptíveis, que operam sobre nós no contato com o digital. Assim, a saída pela ruptura não ocorreu: perto dos cem mil mortos, o Brasil empilha corpos e acumula indiferença frente àqueles que têm que se expor a níveis variados de risco para continuar sobrevivendo. Continue lendo Instrumentação maquínica: como as plataformas sociais produzem nossa desmobilização política cotidiana

Comunicação de conflito presidencial: da doutrina militar de John Boyd à desinformação de Putin

Por Douglas Donin [ilustração de Dinho Lascoski]

Um grande problema da análise da comunicação do governo Bolsonaro – e que provavelmente ficará sem solução definitiva – é saber o quanto da ação midiática do governo é acidental, fruto dos caprichos momentâneos da família presidencial, e o quanto é feita dentro de um esquema estratégico deliberado, consciente, visando objetivos de longo prazo e dentro de um método definido. Continue lendo Comunicação de conflito presidencial: da doutrina militar de John Boyd à desinformação de Putin

Massacre covid: suicídio como esporte e distração

Por Roberto Romano [Ilustração de Céllus Marcello Monteiro instagram celluscartum twitter @Cllus1]

Voici le temps des assassins (Rimbaud)

A coletânea de escritos apresentados agora pela revista ComCiência tem como alvo discutir o conceito e a prática ligados à distração. Meu intento é modesto: desejo indicar elementos para o debate sobre semelhante atividade humana. Começo com um espanto. Hoje, “distração” adquire semântica quase neutra. Não era assim na cultura romana que nos deu a língua e a maioria dos costumes. Distractio no vocabulário do Império significava “separação”, divisão, desavença, discórdia. Distractor era o indivíduo que puxava os demais para as mais diversas partes, causando a quebra da unidade social. Distractus seria a pessoa impelida para uma ou outra facção. Continue lendo Massacre covid: suicídio como esporte e distração