Arquivo da categoria: artigo

Schenberg e os neutrinos do processo Urca

Por Guilherme de Faria Lemos de Lucca

O físico brasileiro Mario Schenberg foi, segundo Einstein, “uma das dez personalidades da física do século 20”, e tem uma trajetória que coincide com a institucionalização da física no Brasil. Publicou mais de 100 artigos em revistas científicas sobre raios cósmicos, astrofísica, mecânica quântica e geometria, entre tantos outros assuntos, e trabalhou com os mais importantes físicos de sua época, como Fermi, Pauli e Gamow. Também era crítico de arte e foi deputado federal. Continue lendo Schenberg e os neutrinos do processo Urca

O labirinto de Majorana

Por Viviane Morcelle

Ettore Majorana possui uma história de vida que o faz um dos cientistas mais intrigantes do século XX, não apenas por ser considerado um gênio ou pelo misterioso desaparecimento. Ele marcou as páginas da história da física de forma única. Não seguia um padrão, não respeitava estereótipos, não conseguia se enquadrar num sistema científico na busca de glória ou reconhecimento.

Imagem: Kamioka Observatory, ICRR (Institute for Cosmic Ray Research), The University of Tokyo

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Caça-fantasmas: Como físicos estudam a partícula que menos interage na natureza?

Imagem: Kamioka Observatory, ICRR (Institute for Cosmic Ray Research), The University of Tokyo

Por Eduardo A. Sato

Partículas elementares são os tijolos do mundo microscópico, elas formam tudo que conhecemos: nossas células, nossas casas, nosso planeta e até mesmo nosso universo. E desse grupo, os neutrinos são os antissociais, aqueles que não gostam de interagir com ninguém, recebendo o carinhoso apelido de “partícula fantasma”. Eis aqui a missão dos físicos de neutrinos: estudar o que não pode ser visto! Continue lendo Caça-fantasmas: Como físicos estudam a partícula que menos interage na natureza?

A caça por um novo neutrino

Por Janet Conrad, originalmente publicado em junho de 2017

Um novo neutrino poderia ajudar a resolver mistérios astrofísicos, oferecendo um possível candidato para a matéria escura que engloba a maior parte do universo: não podemos ver a matéria escura, mas podemos observar seus efeitos gravitacionais em aglomerados de galáxias. Alguns teóricos pensam que um novo neutrino também poderia ajudar a explicar outros mistérios fundamentais, tais como a razão pela qual há tal desequilíbrio na presença de partículas de matéria e de antimatéria (as partículas de antimatéria são relativamente raras). Em resumo, um novo neutrino, se existir, criaria todos os tipos de excitação e abriria novas direções para pesquisa em física básica e astrofísica. Continue lendo A caça por um novo neutrino

Democracia: crise e possibilidades

Por Luis Felipe Miguel

Compatibilizar a vontade de democracia com a necessidade de representação é o desafio em aberto, porque os representantes são estimulados a prestar contas prioritariamente a detentores de recursos importantes (financiadores de campanha, meios de comunicação), em vez de prestá-las aos seus eleitores. A redução da democracia à competição eleitoral representa o abastardamento do ideal de igualdade política e de soberania popular que era associado a ela. A experiência histórica demonstrou os limites da solução liberal padrão, que é afirmar uma igualdade na lei e julgar que, com ela, as assimetrias presentes na sociedade serão suspensas na política. Continue lendo Democracia: crise e possibilidades

É armadilha entoar hinos à democracia sem definir a qual democracia se refere

Por Roberto Romano

[na foto, o intelectual italiano Luciano Canfora, autor de A democracia – História de uma ideologia]

A democracia é uma palavra embreagem, no sentido a ser extraído de E. Benveniste: surge quando o discurso não tem condições de seguir uma linha lógica e factual consequente. Aí, a “embreagem” faz a narrativa seguir a marcha, deixando de lado terrenos perigosos, muito perigosos. Saliento neste artigo o elo entre as formas democráticas e as lideranças, algo que preocupa os analistas dos autoritarismos eleitos nos EUA, na Europa e no Brasil. Tal assunto mereceria um grande simpósio internacional e brasileiro, mas ele fica para quando a universidade assumir um papel de vanguarda na luta pela clarificação das falas políticas, uma das insuspeitadas fontes da tirania que surge, ameaçadora, no horizonte planetário. Continue lendo É armadilha entoar hinos à democracia sem definir a qual democracia se refere

Breves considerações sobre o mercado futuro de gás lacrimogêneo

Por Artur Araújo

Sociedades hiperdualizadas desequilibram catastroficamente as condições de exercício da democracia política, que tem um “limite máximo de elasticidade” frente ao nível de desigualdade entre os eleitores. Só podem se manter coerentes com crescente apelo ao gás lacrimogêneo, às cercas eletrificadas, aos capacetes, aos escudos, aos canhões de água e aos cassetetes. Como frisava Karl Polanyi, foi o século liberal britânico, com pleno domínio da alta finança sobre tudo e todos, que resultou em duas guerras globais, separadas no tempo por profunda crise no centro do sistema. Continue lendo Breves considerações sobre o mercado futuro de gás lacrimogêneo

A fragilidade da comunicação pública no Brasil e sua relação com uma democracia nunca consolidada

Por Eliane Gonçalves e Mariana Martins de Carvalho

Algumas sociedades construíram estruturas comunicacionais com o objetivo de reduzir as desigualdades que dão a alguns lugar privilegiado para exposição de ideias e opiniões. Sem sistemas para contrabalançar, lugares privilegiados de fala se retroalimentam e consolidam ainda mais privilégios. Ao longo do século XX sistemas comunicacionais de caráter público foram estruturados em vários países. Caracterizam-se por financiamento público, não terem o lucro como finalidade e contarem com salvaguardas para reduzir interferências do poder econômico do mercado e de ingerências dos governos: na Inglaterra, a BBC; no Japão, a NHK; nos Estados Unidos, as emissoras do sistema PBS; na Alemanha, os sistemas ZDF, ARD e a Deustche Welle (DW). Já o Brasil – apesar do princípio constitucional de complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal de radiodifusão – mantém um dos ecossistemas comunicacionais mais desequilibrados do mundo. Continue lendo A fragilidade da comunicação pública no Brasil e sua relação com uma democracia nunca consolidada