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O livro e a leitura

Por Carlos Vogt

Em 1905, Proust, o grande autor de Em busca do tempo perdido, que ainda não existia como obra, publica, como prefácio à tradução para o francês do livro de John Ruskin Sesame and Lilies, o texto “Sobre a leitura”, que tive a oportunidade e a satisfação de traduzir para publicação simpática da Pontes Editores, na forma de um pequeno livro que já conheceu três edições (1989, 1991, 2001).

O texto é um elogio do livro e da leitura. Reproduzo, aqui, sua parte final como um convite e um desafio: para ler o texto completo, para sair indiferente à sua beleza e à sua provocação. Continue lendo O livro e a leitura

O livro custa caro? Reflexões sobre preço e valor do livro

Por Haroldo Ceravolo Sereza

A sensação de que o preço do livro é alto deriva não de um aumento real do preço do produto, que se tornou mais barato num momento de aumento de renda dos mais pobres. Ou seja, havia um duplo movimento que favoreceria a percepção do barateamento do livro. Essa percepção não se materializa por uma pressão contrária: nos últimos anos o capitalismo não apenas nos tomou tempo de lazer para transformá-lo em trabalho, mas tomou também tempo de descanso para transformá-lo, por meios digitais, em consumo. Continue lendo O livro custa caro? Reflexões sobre preço e valor do livro

Livros personagens de livros

Por Peter Schulz

“É clássico aquilo que permanece como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Esta é a última das quatorze proposições sobre o que seriam clássicos na introdução de Por que ler os clássicos de Italo Calvino. Portanto, clássico é mais amplo do que a ideia de cânone e uma das coisas que surgem como rumor são os livros (ou bibliotecas) como personagens ou cenário principal de si mesmos, ou melhor, de outros livros. Livros que contam também as estranhas relações entre pessoas e livros. Por isso lembro o erudito Peter Kien, protagonista de Auto de fé de Elias Canetti, isolado das pessoas e avesso aos encantos da academia, devotado apenas aos livros. Kien declara no início de sua penitência a possibilidade de livros serem quase humanos: Continue lendo Livros personagens de livros

Quando a novela da Globo dá uma forcinha para a literatura

Por Ana Augusta Odorissi Xavier e Rafael Revadam

Cresce também a influência de “guias”, que por meio das redes sociais dão palpites e dicas sobre quais livros ler (com todo cuidado para não soarem acadêmicos). Continue lendo Quando a novela da Globo dá uma forcinha para a literatura

E o escritor? Não “faz jus” à remuneração?

Por Carlos Orsi

Pedir a um autor que pague para trabalhar beira o escárnio. Claro, isso às vezes é inevitável, e todo profissional, em algum momento, se vê aplicando suas habilidades e perícias de modo voluntário, como um favor, numa emergência, para ajudar uma causa ou um amigo. Mas essas deveriam ser as exceções e não, como acontece com o ofício de escritor no Brasil, a regra. Publicar literatura no Brasil é uma atividade econômica de alto risco. O que não é um fato bruto, mas uma escolha historicamente construída, é a solução que o sistema literário brasileiro encontrou para o problema: descarregar esse risco sobre os ombros do autor. Continue lendo E o escritor? Não “faz jus” à remuneração?

Ideia de tradução definitiva é tão fetichista quanto a de gravação musical final

Por Irineu Franco Perpetuo

Cada geração, cada cultura e cada país relê, reescreve e retraduz a seu modo as obras de arte que encara como clássicas – e que adquirem tal status justamente por sua capacidade de superar as circunstâncias locais e temporais. Uma nova tradução traz as marcas de sua época, com escolhas que refletem prioridades e preocupações de quando e onde foi feita. Na sábia formulação de Boris Schnaiderman [na foto acima], a tradução não é uma mera operação linguística: “para traduzir, fazemos transposição de um texto para uma outra cultura”. Continue lendo Ideia de tradução definitiva é tão fetichista quanto a de gravação musical final

Clube do Livro para Leitores Extraordinários: uma gota em um oceano de necessidades

Por Renato Roschel

Projeto do Instituto Mojo de Comunicação Intercultural edita obras em domínio público em formato impresso atrativo e usa parte dos recursos arrecadados com a venda dos livros físicos para viabilizar a versões digitalizadas gratuitas que podem ser lidas tanto pela minoria que usa leitores digitais (Kobe e Kindle) quanto pela grande maioria que lê em celulares. Em 2019, o Clube foi indicado para o Prêmio Jabuti de fomento à leitura e também destaque na Bienal de Design de Curitiba. Continue lendo Clube do Livro para Leitores Extraordinários: uma gota em um oceano de necessidades

Censura é uma herança que não foi superada no Brasil

Por Luciana Rathsam

Entre 200 e 450 obras literárias consideradas subversivas ou contrárias à moral e aos bons costumes foram censuradas durante o regime militar. A caça a livros socialistas, eróticos ou pornográficos operava a partir de denúncias. Já nas origens do país, a coroa portuguesa proibia que fossem publicados impressos no Brasil, ordem só revertida em 1808. Os livros que desembarcavam na colônia eram submetidos a uma triagem realizada por três instituições diferentes. As recentes tentativas de censura causaram fortes mobilizações e acabaram revertidas no Judiciário, o que na visão de especialistas é motivo para um “moderado otimismo”. Continue lendo Censura é uma herança que não foi superada no Brasil

Claudio Giordano, um recuperador de textos antigos preocupado com nossa memória

Por Mateus Bravin Constant Lopes

Claudio Giordano fundou a Editora Giordano em 1990. Em parceria com editoras universitárias, Editora Ateliê, Loyola, entre outras, editou obras no intuito de “recuperar nossa memória”, desenvolvendo um acervo próprio de livros do passado, escrito por “aventureiros” que o antecederam. Recusa a denominação de bibliófilo, pois não se vê como amante dos livros. Para ele o livro sempre foi uma companhia, “alguém para dialogar”.

Em 1999, Giordano recebeu o prêmio Jabuti de tradução pela obra cavaleiresca de Joanot Martorell, Tirant lo blanc, traduzida diretamente do catalão. No mesmo ano criou a Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, publicou dezenas de títulos – algumas edições de caráter artesanal. Giordano deu continuidade aos projetos de sua antiga editora, com destaque para a Coleção Memória, segmentada em memória brasileira, portuguesa e universal, com 40 títulos entre 1991 e 2006.

Passou a ser reconhecido pelo seu trabalho entre editores e bibliófilos e chegou a receber uma doação de 10 mil livros brasileiros editados entre 1900 e 1950, que somada a outras doações e aquisições, constituía um acervo de 40 mil itens. Por dificuldade financeira, doou o acervo à Biblioteca Central César Lattes da Unicamp, disponível para consulta desde 2008. Continue lendo Claudio Giordano, um recuperador de textos antigos preocupado com nossa memória